Apanhei esta semana eXistenZ na TV (sim, ainda vejo TV às vezes porque sou old school) e apesar de não o ter visto agora lembrei-me de quando o vi originalmente em 1999. Além de ter ficado a pensar na maluqueira que era este filme, lembrei-me da série de artigos que temos aqui sobre filmes e jogos em todas a suas vertentes dos bons aos maus ou os que não deviam ter acontecido e outras, mas falta algo, filmes cujo tema/núcleo são jogos, tal como eXistenZ. Portanto vamos falar de como os jogos são tratados nos filmes. Vários tipos de jogos, vários tipos de tratamentos em filmes.

eXistenZ

Começamos pelo filme que me inspirou para este artigo, em 1999 David Cronenberg pegou em Jennifer Jason Leigh e em Jude Law e saiu-se com eXistenZ

É difícil explicar este filme e a sua relação com jogos para quem não era jovem adulto ou adulto e jogador neste ano. Nesta altura a ficção imaginava que o culminar dos videojogos, era a realidade virtual/imersão e eXistenZ joga com isso, e tal como outros que vamos ver joga acima de tudo com o que é real e o que é jogo. Esta justaposição e como as fronteiras da realidade se misturam com as da fantasia são um tema comum, em eXistenZ as fronteiras são tão misturadas que o jovem Professor Machado teve que ver o filme mais que uma vez para perceber mais ou menos o que se estava a passar ali.

É um filme estranho em que o tema dos jogos não é algo levado a fundo tanto como é uma espécie de sonho distópico. Mesmo assim vale a pena ver. Já de evitar é Videodrome de 1983 também de Cronenberg onde ele começa a brincar com estes mundos virtuais. O filme é mau, e tem uma cena que envolve James Woods e uma cassete de vídeo que durante anos me atormentou… tal como esse filme no geral. 

Tron

Tron não podia faltar nesta lista. O filme de 1982 é ainda hoje um clássico no imaginário dos fãs de videojogos. Flynn, protagonizado por Jeff Bridges é dono de um salão de jogos e é curioso, olhando para trás como esse salão é a base do que o nosso imaginário cria quando pensamos neles. Os nossos salões de jogos não eram como o de Flynn, mas é essa recordação no nosso colectivo comum. Além de ter esse feito no seu histórico, Tron deu forma à imaginação de tantos jogadores que um dia ousaram sonhar entrar num jogo e que a realidade virtual fosse real. Dentro do sistema, Flynn vê-se obrigado a jogar contra os seres electrónicos que lá existiam.

Aos olhos de hoje, Tron pode parecer ridículo mas quando saiu foi um feito tecnológico, e é hoje um clássico. Nem que seja só por nos ter dado o Tron Guy.

The Game

O que dar ao homem que tem tudo? É uma pergunta que é feita tantas vezes em tantas formas, até nos livros do Superman. Em 1997 David Fincher respondeu a essa pergunta na forma de um jogo que o personagem de Sean Penn oferece ao seu irmão protagonizado por Michael Douglas. The Game não é um sobre videojogos, mas nós também não escrevemos só sobre videojogos, The Game é mais na vertente de LARP do que digital, mas tal como em eXistenZ, o protagonista não sabe a maior parte do tempo o que é jogo e o que é real até um ponto em que o personagem de Michael Douglas chega a duvidar da sua sanidade e de tudo o que está realmente a acontecer.

The Game é altamente recomendado sendo um thriller psicológico intenso e muito interessante.

The Call Up

The Call Up é dos filmes mais recentes desta lista, e não é fácil de explicar. É um filme britânico, logo todo o ambiente é diferente. Um grupo de gamers é convidado para testar um jogo de realidade virtual imersivo, um shooter com fatos completos. Acontecem coisas e homicídios e começa a existir uma intriga interessante é mal aproveitado. Uma espécie de whodunnit cibernético mas que acaba por ser previsível.

The Call Up, podia ser muito mais interessante, não é mau. Mas podia ser muito melhor se fosse mais focado.

Game Over

Originalmente chamado Maximum Surge. Este é o que se chama eloquentemente em inglês um clusterfuck! Parte do filme é um filme a outra parte são full motion videos dos jogos Corpse Killer, Quarterback Attack with Mike Ditka, Prize Fighter, Supreme Warrior, e Maximum Surge (que nunca foi lançado).  Supostamente o filme liga todos os jogos numa linha comum. 

Entre outras “estrelas” tinha Yasmine Bleeth, que seu muito sonho molhado a muito adolescente na sua participação em Baywatch. A capa do filme “inspirada” em The Matrix é pura coincidência.

The Thirteen Floor

Baseado num filme alemão chamado World in the Wire, e com a única qualidade redentora sendo a inclusão de Vincent D’Onofrio. Este filme de 1999, do qual provavelmente nunca ouviram falar não vale a pena ver. Por isso mesmo nunca ouviram falar dele. Um homem cria um sistema de VR que é uma simulação de Los Angeles nos anos 30 ou 40… por aí. O pessoal vestia-se bem e os homens usavam sempre chapéu. Era uma altura de classe e orgulho na apresentação. Infelizmente esse orgulho e brio não se transportaram para este filme. Alguém morre, há uma investigação e coisas sucedem… lembro-me de muito pouco e não me apeteceu ver outra vez para o artigo. Peço desculpa.

Gamer

Em 2009 foi lançado Gamer. A premissa e grande parte do elenco como Michael C. Hall (Dexter), Terry Crewes, Gerald Butler e John Legizano prometiam muito mais, mas infelizmente a crítica social numa perspectiva de gaming não foi bem aceite. 

Em Gamer foi criada uma tecnologia que permite algumas pessoas controlarem outras reais como se fossem personagens num jogo, primeiro num Sims, e depois num FPS (usando prisioneiros condenados à pena de morte), sendo uma metáfora de luta de direitos humanos, dos riscos da tecnologia e do controlo que os poucos ricos têm sobre os muitos mais pobres, ficou aquém do que podia ter sido. Talvez nas mãos dos escritores/realizadores da série de filmes “A Purga” tivesse tido mais sucesso.

Tron Legacy

Entramos no mundo das sequelas e revivalismo da nossa década com Tron Legacy, em 2010 a Disney produziu uma sequela de Tron, desta vez com o filho de Flynn e um upgrade tecnológico visual dos jogos. Jeff Bridges volta como Flynn e não só numa aventura interessante. Mas o mais importante é a adição de Olivia Wilde no filme. Porque a acho uma óptima atriz e vejo tudo onde ela apareça.

Tron Legacy não teve o sucesso esperado, é uma boa sequela do original mas tentou colocar um produto de nicho no público geral, e tal como Speed Racer é um festim para os olhos sendo o filme que eu acredito tenha sido criado o sistema de Blu Ray em todo o seu esplendor, Tron Legacy é um espectáculo de efeitos visuais. E não é só pela Olivia Wilde e a profundidade incrível dos seus olhos, quais lagos límpidos em que o reflete a luz das estrelas e das lua…

Ready Player One

Não vou falar muito sobre Ready Player One, porque ao contrário dos outros que estão nesta lista não o vi. Li, e escrevi sobre o livro. Também o Mota e o José com opiniões válidas mas contrárias à minha. Em 2018, Steven Spielberg realizou Ready Player One cujos direitos tinha comprado antes do livro estar acabado, sobre um jovem que entra numa caçada gigante a um easter egg na qual depende o mundo electrónico livre e outras coisas… Fico-me por aqui…

Jumanji

Em 1995 Jumanji levou-nos para o mundo dos jogos de tabuleiro em que umas crianças encontram um jogo de tabuleiro que torna os acontecimentos do jogo reais, aqui não numa mistura psicológica mas tornando a casa e cidade em que os jovens jogam numa selva com todos os seus riscos. Hoje em dia, alguns dos efeitos especiais estão mais que datados, mas é sempre bom ver ou rever o Robin Williams num papel divertido e fantasioso como tantos outros com que nos brindou. Jumanji é baseado num livro, e em 2005 Jon Favreau (que protagoniza Happy, o amigo de Tony Stark nos filmes da Marvel e realizou Iron Man, Iron Man 2, o Livro da Selva e mais recentemente a versão “live-action” d’ O Rei Leão) realizou Zathura: A space adventure, que é um Jumanji, mas *spoilers*… no espaço. É literalmente a sequela de Jumanji.

Em 2017 Dwayne “The Rock” Johnson, Karen Gillan, Kevin Hart, Jack Black protagonizaram uma versão nova de Jumanji, que em vez de ser um jogo de tabuleiro é um videojogo e os jogadores são sugados para dentro dele, em vez de o jogo sair para a realidade. De qualquer maneira são filmes divertidos para ver com miúdos num domingo à tarde em que não se pode sair à rua. Ou sozinhos… Não vou julgar ninguém.

Knights of Badassdom

O segundo filme nesta lista em que o jogo é um LARP, mas desta vez um LARP a sério. Em 2013, depois de anos no limbo de produção devido a guerras de direitos, saiu directamente para video (ou seja não foi para salas de cinema mas ainda usamos esta expressão antiquada quando já não se vê vídeos há funcionais há anos) Knights of Badassdom conta com Ryan Kwanten (True Blood), Steve Zahn (Montes de coisas), Summer Glau (Firefly e Terminator: The Chronicles of Sarah Connor), e Peter Dinklage (Avengers: Infinity War e uma série indie chamada Game of Thrones) e Danny Pudi (Community) e conta a história de um homem abandonado pela sua namorada e dos seus amigos que o levam a um evento massivo de LARP para se distrair do acontecimento. Tudo corre bem até esta comédia se tornar um filme de horror quando acidentalmente invocam uma Succubus dos infernos. Algo que pode acontecer em qualquer sábado à noite a qualquer um de nós.

Quantas vezes invoquei demónios dos infernos por estar a tentar dizer os nomes de móveis do IKEA…

Apesar de ter uma premissa engraçada e original, Knights of Badassdom foi destruído pelas guerras de direitos entre produtores, escritores e outras partes, que depois de tudo acabaram por produzir alguma coisa, talvez metade do filme que tinha sido imaginado originalmente. Vale a pena ver se grandes expectativas. 

Pensei juntar a esta lista Scott Pilgrim vs The World porque apesar de não ter ter um jogo como base, toda a sua estrutura é de jogos. Um herói que tem que derrotar vilões até ao Boss final, as moedas ganhas sempre que o faz e outras referências. Mas depois desisti.

Resultado desta pequena lista de filmes que usam jogos como uma base de argumento, é que são melhores que jogos baseados em jogos a sério. Portanto se Hollywood conseguiu fazer alguns bons filmes dentro do universo de jogos, porque não consegue fazer bons filmes sobre jogos. Tirando o Detective Pikachu pelo que ouvi dizer. E numa pequena nota de rodapé, 1999 foi um ano do c****** para o cinema no geral. A quantidade de filmes memoráveis (para melhor ou pior) em tantos géneros que foram lançados nesse ano é fantástica. Entre outros tivemos: eXistenZ, Fight Club, The Talented Mr. Ripley, Iron Giant, The Green Mile, Sleepy Hollow, Dogma, South Park: Bigger Longer and Uncut, Galaxy Quest, The Mummy, Star Wars Episode I The Phantom Menace, American Pie, The Sixth Sense e The Matrix… todos eles fazem 20 anos este ano, alguns parte continuam fantásticos. 

1999 também nos deu Wild Wild West, portanto nem tudo foi bom.