Das várias expressões anglófonas que eu adoro, há uma que me salta à vista: Hindsight is 20/20 (perceberam o trocadilho?). É realmente muito fácil olhar para o passado e compreender o impacto que dado momento teve no desenrolar do tempo que lhe procedeu. A realidade é que já em 2004, quando World of Warcraft chegou às lojas, toda a gente tinha a perfeita noção da verdadeira mudança futura que o então recém-lançado jogo da Blizzard iria acarretar. 

Por diversas razões, sendo que a financeira era a que falava mais alta, não pude jogar World of Warcraft quando ele saiu. Acabei por optar pelo Guild Wars, em 2005, (cujo primeiro jogo recebi como prenda) e cuja inexistência de subscrição o tornou uma opção mais ajustada à minha parca carteira do que o jogo da Blizzard. Não posso deixar de sentir que apesar de eu ter adorado os muitos anos dedicados a GW (e a GW2) que em muitos momentos olhei para ele como the next best thing, pensando que do outro lado, ali ao alcance de uma subscrição, estava um dos mais marcantes jogos da história dos videojogos.

Para mim era ainda mais difícil esta impossibilidade de contacto com WoW. Depois de largos anos mergulhado em Warcraft (e onde o terceiro jogo continuava a ser um dos meus RTS favoritos de sempre) a possibilidade de entrar num mundo aberto dentro do universo de Arthas e companhia parecia um sonho tangível. 

Entre o lançamento de 2004 e hoje já muita tinta correu, muitos milhões de dólares foram lucrados e muitas alterações o jogo sofreu. O mercado transfigurou-se por completo: a era dourada dos MMORPGs que foi aberta pela influência colossal de WoW já partiu, e, ironicamente, é mesmo o jogo da Blizzard um dos últimos resistentes de um género que perdeu o seu espaço de tempo para os MOBAs e outros géneros online

Mas há um exercício de abstracção que me obriguei a fazer com o lançamento de WoW Classic, o recém-lançamento do filão dourado da Blizzard, que prometia uma experiência despida de mais de uma década de alterações e inovações, aproximando-se do que os primeiros jogadores, em Novembro de 2004, experienciaram.

Este exercício passou por olhar para WoW com um esforçado senso de tabula rasa, apagando do meu pensamento a influência que aquele jogo teve, e tudo aquilo a que conduziu a partir dali. Olhar para aquele objecto, tal como ele era jogado em 2004, e sentir como é que um jogador caído em Azeroth pela primeira vez via as suas montanhas, rios e planícies se estenderem para além da sua imaginação.

Se hoje aquilo que é a experiência de WoW é um lugar-comum, para o final de 2004 tudo isto era um literal e maravilhoso mundo novo a descobrir. Ainda que outros MMORPGs tridimensionais existissem, com diferentes níveis de sucesso, nenhum teve a capacidade de ser tão acessível e tão massificado quanto ele. Um mundo vivo, dinâmico, onde duas facções compostas na íntegra por jogadores batalhavam pela supremacia deste planeta digital, mas com momentos históricos que passaram a figurar na cultura pop mundial. Aliás, essa acessibilidade e proximidade justificam que mais facilmente uma pessoa comum consiga entender as muitas paródias e referências feitas a WoW do que a qualquer outro jogo.

É claro que olhar hoje para WoW Classic sem estas ideias presentes é um erro. Para além da óbvia estratégia da Blizzard que estava ciente da quantidade de servidores piratas de experiência vanilla do seu jogo, decidindo criar uma versão oficial, há também um lado de marketing de uma empresa que consegue o impensável, manter um MMORPG com um sistema de subscrições por 15 anos, e que quer desta forma ver regressarem os jogadores saudosistas que querem reviver a experiência que tiveram quando eram mais novos. Eles, e o jogo.

Mas talvez o melhor momento de toda esta campanha em torno de WoW Classic é algo subtil, e que passou sob o radar da maioria das pessoas. Para comemorar este lançamento, a Blizzard decidiu convidar os criadores principais e originais do jogo para o voltarem a jogar, e essa é uma oportunidade única.

A ideia de que nem eles tinham bem noção da verdadeira revolução no mercado de videojogos que a sua criação iria causar é algo no qual eu acredito na totalidade. A forma ingénua e apaixonada como eles olham para o seu jogo, mais de 15 anos depois de o começarem, e ali, sentados ao computador, como se o estivessem a descobrir pela primeira vez. É um momento de História que serve sobretudo como compreensão do que tudo o que WoW mudou quando foi lançado. 

Olhar para este WoW Classic é fazer esse exercício criativo, e identificar em muitos dos jogos que lhe seguiram quais as influências que retiraram de si. Mesmo quem não teve contacto com WoW em momento algum da sua História, ou mesmo no seu lançamento, deverá viajar até esta experiência clássica para perceber o caminho que foi trilhado desde então. Numa era em que compreendemos os MMORPGs como estruturas vivas, é interessante a oportunidade única de viajar até ao dia 1 de um dos mundos virtuais mais apaixonantes que já criámos.