Nenhuma oportunidade é perdida se lembrarmos a brilhante série Os Amigos do Gaspar, cujas letras das músicas eram da autoria do grande Sérgio Godinho. Heave Ho não é tão profundo ou terno como Os Amigos do Gaspar, nem o quer ser. Mas é literalmente sobre dois braços agarrados a uma pessoa, numa espécie de Geodude aparvalhado que se bamboleia por plataformas impossíveis. 

Criado pelo estúdio Le Cartel de Frédéric Coispeau, autor de Mother Russia Bleeds, chega-nos mais um jogo lançado pela Devolver. Heave Ho não podia ter um tom mais distinto do anterior jogo do estúdio francês. Onde Mother Russia Bleeds era acção old school e sangue pixelizado, Heave Ho é um divertido party game em que controlamos a capacidade das mãos dos personagens de se agarrarem, e o movimento dos seus braços, tornando-os umas espécies de lianas prontas a atirarem-nas para outras paragens.

A direcção artística de Heave Ho é deliciosa para o tom bizarro de todo o jogo. Começando pelos personagens, que podemos customizar, e que ao invés de sangue vão derramar a tinta da sua cor de pele pelo terreno, passando pela pixel art dinâmica que mimetiza uma animação tradicional com o seu desfasamento de frames, a simplicidade estética de Heave Ho joga a seu favor.

Na sua essência – para além de um divertido e freak party gameHeave Ho é um puzzle game que requer muita perícia no controlo da Física do personagem, do movimento de rotação dos seus braços e da inércia deste. Atravessar os níveis e chegar até à bandeira de meta é o objectivo, e para isso temos de ir balanceando o personagem com os seus braços, criando uma memória muscular de que botão de trigger controla que mão, sob pena de o fazermos cair num abismo ou estatelar-se contra outra plataforma. 

Os níveis parecem simples, mas à medida que a dificuldade aumenta percebemos que o nosso domínio das mecânicas braçais do jogo têm que ser quase perfeitas. 

Se em single player o jogo pode ser relativamente linear, é no modo multiplayer que Heave Ho realmente ganha vida, com até 4 jogadores a darem as mãos (literalmente) para poderem não só terminar os níveis como a encontrarem as moedas presentes apenas no modo multiplayer como desafio adicional. 

A inércia programada em Heave Ho ajusta-se na perfeição ao modo multijogador, em que o esforço de criar “cordas” compostas pelos personagens para projectar um deles o mais longe possível é um bom momento não só para treinar a nossa destreza e a dos nosso amigos, mas também para espalhar umas boas gargalhadas.

Heave Ho é descomprometido, e é uma mudança brutal de abordagem do seu estúdio e do seu criador. Lançado para PC e Switch a 9,99€ é um divertido e absurdo party/puzzle platformer game que vos vai espalhar boa disposição pela vossa casa (ou na rua, se decidirem jogar em modo tabletop com a vossa Switch). Com uma simplicidade tremenda e mecânicas que muitos diriam limitadas, a experiência e o desafio do jogo são crescentes, a um bom preço. Heave Ho é uma aposta mais que segura, não fosse ter vários pares de braços para o… segurar. 

Só não serve para dar quatro abraços.