Tenho uma tremenda dificuldade em entrar em jogos soulsborne. O nível de entrega (e masoquismo) que estes jogos exigem não têm qualquer correspondência na minha vontade de o dedicar. Ao contrário do que muita gente acha (e a internet está povoada de gente que assim o sente) alguém que se dedica a este subgénero (se é que o podemos apelidar assim) não é de todo uma raça superior de humano-jogador do que outros. É, apenas, alguém que tem vontade de ultrapassar estes desafios que requerem muito, muito investimento. E afirmá-lo não retira a qualidade de alguns destes jogos.

Para perceberem o meu nível de desapego e falta de vontade em investir nestes jogos, ando há 1 ano a jogar cerca de 10 minutos de Bloodborne por mês. Sim, por mês. Provavelmente o nosso Pedro Nunes vai estar a ler isto e a rir-se ao pensar na única vez que me viu jogar a este tipo de jogos, que foi na semana passada no evento privado dedicado a Nioh 2. A minha única resposta para isto é simples: se achas que és um herói porque jogas jogos da FromSoftware imagina o que foi passar o Mega Man original e a trilogia de Ninja Gaiden na NES, sem saves. Ainda sentes que és hardcore, Pedro Nunes? Hardcore era eu com 8 anos.

Quando The Surge saiu há 2 anos eu percebi que por alguns elementos de inovação à fórmula da FromSoftware que este seria o meu jogo redentor para este tipo muito específico de action RPG. É possível que o afastamento de uma linguagem de horror medieval herdada por Dark Souls e repetida à exaustão tenha contribuído para isso, mas acredito piamente que o factor que mais contribuiu para isto foi mesmo a capacidade de irmos customizando o nosso exoesqueleto com partes tiradas dos adversários. Literalmente, tiradas. À força.

Mas apesar do ambiente sci-fi e da ligeira diversidade mecânica, eu ainda sentia neste jogo da Deck13 (a sua segunda tentativa em emular uma criação da FromSoftware) alguma rigidez de movimentos que me irrita nos sucedâneos de Dark Souls (e até no próprio jogo). Há quem diga que esta rigidez é parte fulcral destes títulos, mas para mim soa-me apenas a embaraço de animação e tira-me qualquer vontade de lhes dedicar o meu tempo. Com algumas superficialidades e desajustes subtis de desenvolvimento, The Surge teve uma boa recepção, mas demonstrava um falhanço em cumprir o seu potencial.

As máximas populares dizem que “não há duas sem três” e que “à terceira é de vez”, e no caso da Deck13 têm razão. À terceira tentativa de emular um soulsborne, o estúdio alemão finalmente acertou: conseguiu afinar todos os elementos de acção e combate a um ponto ultra-satisfatório.

Os meus amigos “especialistas” em souslborne sempre elogiaram Bloodborne, o exclusivo da PS4, por obrigar a uma postura mais agressiva, já que era esta que permitia recuperar a tão preciosa barra de vida. The Surge 2 adopta uma postura semelhante: a terceira barra (para além da de vida e de energia) é a de bateria, que se vai enchendo à medida que desferimos golpes. Estas cargas de bateria servem não só para recuperarmos o nosso HP mas também para utilizar as acções de corte de membros dos adversários, aquele que é um dos ex-libris gore de todo o jogo.

Com animações mais fluídas e orgânicas, o combate de The Surge 2 consegue sentir-se simultaneamente mais arcade-y e mais estratégico, obrigando-nos como é óbvio a deflectir ou esgueirar dos ataques dos adversários, gerindo a nossa barra de stamina, e dar-lhes dano suficiente para os deitar ao chão. A componente estratégica do jogo envolve a mecânica de lock, que nos permite apontar directamente a uma parte do corpo. Se um adversário tiver uma peça de armadura que nos interessa, podemos bater-lhe aí e activar a acção de corte, o finishing move de The Surge, na esperança de poder recolher esse item. Se estiver a empunhar uma arma, podemos apontar para os braços, decepá-los e esperar que exista um drop dessa mesma arma. Por outro lado, podemos apontar directamente para as zonas do corpo sem armadura para dar dano adicional.

O mundo de The Surge 2 continua com a mesma abordagem de futuro distópico sci-fi, em que percorremos uma mão-cheia de zonas em ambiente urbano. Para ser sincero, o enredo e a construção conceptual do mundo são perfeitamente ignoráveis, mas a boa verdade estas também não são as razões que nos trazem a este jogo.

Mas é o combate, para mim um dos melhores, mais fluídos e coesos de qualquer souslborne que já peguei, que o torna uma verdadeira maravilha e um jogo quase impossível de largar. A alta customização e a profundidade dos upgrades e partes que vamos criando e apanhando conferem uma densidade tremenda ao género, fazendo-nos caçar partes específicas para ganharmos bónus de sets de armaduras, ou na tentativa de encontrar aquela arma que se ajusta na perfeição à nossa forma de jogar. A fluidez de animação e a organicidade do combate (ironicamente levado a cabo por humanos com exoesqueletos mecânicos) tornam-no uma verdadeira maravilha, com uma acessibilidade superior a muitos dos seus congéneres. Ainda que, como em qualquer jogos destes, morramos muitas e muitas vezes.

The Surge 2 é mais um título de excelente qualidade num ano em que a editora francesa Focus Home Interactive tem recebido uma série de bons jogos (como A Plague Tale: Innocence, Battlefleet Gothic: Armada 2 e World War Z). Para mim The Surge 2 é um action RPG verdadeiramente obrigatório, com uma abordagem menos glamourosa que os seus congéneres medievais, mas com mecânicas de customização e um combate fluído que são a cereja distópica no topo do bolo.