Dragon Quest: aquela série de JRPGs que criou e definiu o género, que teve a sua arte criada pelo mangaka mais influente da era pós-Tezuka, e que mesmo assim é menos conhecido globalmente que o seu grande “rival”: o Final Fantasy. Este facto acaba por ser perfeitamente natural até quando penso na forma como conheci a série. Estava eu na ressaca de JRPGs após ter terminado Final Fantasy VII e tive um amigo que me abriu a caixa de Pandora de jogos maravilhosos da NES e da SNES, onde obviamente estava incluída a série Dragon Quest

Aliar um género que eu tinha descoberto graças à PlayStation com a arte Akira Toriyama era então um sonho tornado realidade, e lá tinha eu mergulhado em Dragon Quest V (uma versão fanlated) apenas para descobrir algo verdadeiramente emblemático, que mudava e muito a forma como eu olhava para outros jogos do género.

Ainda há pouco tempo mergulhei numa aventura que anunciei no nosso podcast Split-Chicken: rejogar a série toda desde os seus primórdios, estando neste momento a meio do primeiro jogo. Tive de colocar esta aventura em pausa para, com o embalo do lançamento da versão definitiva de Dragon Quest XI na Switch, dar um salto diametral entre o primeiro jogo da série e o último.

Ao contrário de Final Fantasy que tem experimentado (por vezes com sucesso, outras nem por isso) formas de se repensar enquanto JRPG, Dragon Quest XI: Echoes of an Elusive Age regressou às origens, sendo uma das abordagens mais puras que podemos ter nos dias de hoje. Despojado de ideias mecânicas que não pudessem já existir nos primórdios da série, este Dragon Quest XI: Echoes of an Elusive Age é, em tudo, um jogo cheio de lugares-comuns. Mas estes lugares-comuns estão tão bem executados que o usufruto do enredo e do próprio mundo acabam por falar mais alto.

A história é a clássica do Messias que afinal tem de ser escondido das autoridades que acreditam que ele é o sinal do fim do mundo. Encontrado abandonado numa alcova, a entidade divina Luminary é criada por um simpático ancião de uma aldeia recôndita, e a sua identidade é mantida em segredo até à maioridade.

Apesar de Dragon Quest XI: Echoes of an Elusive Age partir um tremendo cliché, é a forma como o mundo se vai abrindo, contorcendo e adensando, com a inclusão de um elenco memorável que o torna uma história interessante. As ligações das personagens vão sendo alicerçadas não só pelos acontecimentos da história, mas também com uma tradução mecânica destes vínculos. A inclusão de Pep Powers, ataques/magias feitos em parceria com várias personagens representa mais um elemento de coesão que alimenta as nossas escolhas para a constituição da party. A possibilidade de irmos conversando com todos eles a qualquer altura ajuda a cimentar a boa escrita e o bom character development do jogo.

O combate por turnos traz-nos um aprofundamento das Tactics introduzidas há muitos, muitos anos na série. Aqui podemos definir comportamentos aos personagens da nossa party para que eles ajam sozinhos sem termos de dar inputs no combate, podendo, a qualquer momento, passar esse controlo para manual se assim quisermos.

Há tanta diferença entre a versão original de 3DS, PS4 e PC (que tinham diferenças entre si, e até entre regiões) e aquilo que é este exclusivo da Switch, o Dragon Quest XI S: Echoes of an Elusive Age – Definitive Edition

Com tantas críticas (fundadas) que temos proferido à quantidade obscena de ports para a Switch, Dragon Quest XI S: Echoes of an Elusive Age – Definitive Edition é provavelmente a versão mais digna de ser apelidada de versão definitiva que já vi. 

Há uma série de adições e cuidados que Yuji Horii e a sua equipa tiveram para esta derradeira versão de DQXI. A primeira é a possibilidade de jogarmos o jogo numa versão 2D, digna dos seus antecessores da SNES. As diferenças entre jogar a versão base, tridimensional e esta versão em pixel são algumas, e o jogo até nos pode para criarmos uma save específica para cada um, transitando o nosso dinheiro e progressão entre elas. Jogar em 2D é como jogar um jogo completamente distinto: o mundo apesar de semelhante, tem as suas diferenças, sendo que os random encounters surgirem de forma clássica (ao contrário da versão 3D em que vemos os inimigos a deambularem pelo mapa) é a mais evidente.

A inclusão do voice acting japonês e das versões orquestrais da banda-sonora, interpretadas pela Orquestra Sinfónica de Tóquio são outros dos pormenores dourados cuja ausência tantos jogadores se queixaram em relação às versões ocidentais do jogo.

Num momento de memória de toda a série, foram incluídas missões secundárias e opcionais que nos levam a visitar o mundo dos 10 jogos passados e a resolver problemas relacionados com os seus protagonistas e com os seus enredos. Para os conhecedores da série este é um momento brilhante que é mais que um piscar de olhos de nostalgia, mas sim uma verdadeira homenagem a uma série que definiu um género e mudou o mercado de videojogos.

Há tantos pormenores interessantes, subtis, mas que demonstram o quão fundamental é Dragon Quest XI S: Echoes of an Elusive Age – Definitive Edition, mesmo sendo uma abordagem a um género com mais de trinta anos. Quando regressamos ao jogo somos brindados por um painel de “Here’s what happened so far” que nos relembra o que já aconteceu e nos situa no enredo.

O mundo de Erdrea é vasto, com várias cidades para visitarmos, cada uma inspirada num estereótipo nacional do mundo real. Desde a cidade árabe à Veneza deste mundo, os trejeitos dos NPCs que aí habitam tornam cada novo local encontrado uma verdadeira descoberta. É claro que o melhor é ter tudo isto representado naquela que é para mim a melhor transição tridimensional do traço de Akira Toriyama, com todos os maneirismos artísticos e criativos do mestre nipónico.

Com largas dezenas de horas de conteúdo (muito dele constituído pelo grind habitual) o mundo de Dragon Quest XI S: Echoes of an Elusive Age – Definitive Edition é um bom sítio para nos perdermos durante semanas. Aquele que era já o melhor JRPG lançado no ano passado encontra aqui na Switch, nesta sua versão verdadeiramente definitiva, o espaço para ser o melhor jogo do género na consola híbrida da Nintendo. Este é um jogo verdadeiramente obrigatório para os fãs de JRPGs e de Dragon Quest, com a mais-valia de ser clássico e acessível o suficiente para servir de porta de entrada para quem nunca contactou com o género.