Como, de facto? Com muita paciência.

Habitualmente estamos habituados aos dragões como acompanhamento: sejam o companheiro de Eragorn, vilão de O Hobbit, disuasor nuclear de Daenerys ou mascote do Futebol Clube do Porto. Em Golden Treasure: The Great Green, dragões são o prato principal. “Será que isto é estranho?“, pensei eu. “Era o que faltava – estou farto de ler e interagir com ficções dracónicas“.

E depois comecei a morrer com frequência.

Lutei com este. Morri.

Golden Treasure começa com o nosso personagem – um dragão, caso não tenham apanhado a dica – a chocar de um ovo. Faz-se uma série de escolhas iniciais, explora-se um mundo cheio de outras criaturas e tenta-se sobreviver da melhor maneira que se sabe ao acumular conhecimento sobre este mundo, as suas criaturas e os quatro elementos. O sucesso nesta minha empreitada dependeria de quão alinhado estaria com o pensar de um dragão – e ao que parece estava muito pouco alinhado.

Para este fraco alinhamento contribuiu uma curva de aprendizagem bem íngreme onde todo o vocabulário é substituído por versões oníricas de expressões comuns: batalha equivale a Dança da Destruição, linguagem equivale a Canção, oceano equivale a Grande Azul e bosque equivale a Grande Verde. Por aí fora. Parece lógico mas exige-nos grande imersão – estatísticas a evoluir são símbolos e não números ou letras, e todo o texto existente é este vernáculo digno de epopeia. Então acabava por morrer com frequência.

Ilustrações que valem a pena.

Na maioria dos videojogos morrer significa recomeçar de um ponto anterior. Em Golden Treasure tive três vidas e na verdade estive a sonhar com as primeiras duas mortes – a terceira foi de vez e recomecei do início do capítulo em que estava. Aqui não há múltiplos saves para voltarmos ao ponto crítico anterior, antes estamos perante uma mecânica roguelike em que apenas retemos partes do conhecimento acumulado em vidas anteriores para logo reencarnarmos na mesma criatura e narrativa. Como neste jogo o progresso é feito através da exploração – e algumas sequências de batalha (desculpem, Dança da Destruição!) RPG mal amanhadas – de cenários com base na escolha de diferentes desfechos, esta repetição torna-se penosa para quem teima em não aprender as lições de Golden Treasure.

Do pó viemos e ao pó voltaremos.

Mas quem não for teimoso terá o prazer de experienciar a exímia escrita de Ludwig, criador desta obra de fantasia da Dreaming Door Studios. Golden Treasure aproveita a narrativa de um jovem dragão para colocar em evidência contradições de questões contemporâneas da Humanidade – referida aqui como os Sem-Cauda – e de como é preciso ter a humildade de aprender com quem não estaríamos à espera para atingir a verdadeira Sabedoria (que por acaso chama-se mesmo Sabedoria).

Como estúdio com poucos recursos, a Dreaming Door desenhou – literalmente – esta experiência de descoberta com lindíssimas ilustrações estáticas que vale a pena explorar. São mais de 100 (dizem eles, não esgotei todas as hipóteses pois a minha longevidade dracónica não o permitiu) ilustrações da vida deste dragão (ahem, Draak-kin é o termo correcto) e de todo o ecossistema do Grande Verde que nos acompanham nesta jornada instrospectiva, que se não inventa nenhuma nova corrente filosófica faz por nos questionar tantas outras. Há puzzles, enigmas e até raízes quadradas para resolver.

“Hi, gorgeous”

Golden Treasure: The Great Green é para se jogar de copo de vinho na mão esquerda e rato na direita. Faz por desinibir as partes do nosso cérebro tão ignoradas na mundaneidade do nosso quotidiano ao mesmo tempo que nos alivia a frustração de morrer vezes sem conta. Nem todos terão paciência – eu conto-me entre eles -, mas ninguém disse que treinar um dragão seria fácil.