Quando a Gearbox revelou o primeiro Borderlands, o jogo tinha tudo para ser um desastre. Em primeiro por ter um grafismo baseado em arte realística, com paletes de cor desinspiradas, a roçar Fallout 3. Depois porque a empresa queria cruzar dois géneros distintos, o típico FPS com os dungeons crawlers liderados por Diablo. Era um projeto ambicioso que poucos acreditaram. E estava já a produção em 75% e com compromissos de lançamento quando Randy Pitchford, líder do estúdio, decidiu pedir ao diretor criativo um elemento visual que fosse diferenciador.

E assim nasceu um protótipo produzido com técnicas de cel shading, inspirando-se na arte da banda-desenhada. E assim surgiu Borderlands como o conhecemos, uma autêntica galinha dos ovos de ouro do estúdio, com mais de 30 milhões de cópias vendidas ao longo da série.

O terceiro jogo surge finalmente nesta geração, depois de anos a ser pedido pelos fãs e mantém intacta praticamente todas as mecânicas que o tornou único. O looter shooter contém todo o humor dos capítulos anteriores, sendo impossível levar a sério qualquer uma das personagens tresloucadas que iremos deambular pela aventura. Umas são caras conhecidas dos fãs, como os protagonistas dos primeiros jogos que regressam agora como NPCs, entre eles Zer0, Maya, Brick e Mordecai, assim como o irritante robô Claptrap, um dos símbolos da série. E mesmo um dos protagonistas de Tales from the Borderlands, a aventura da Telltale Games, Rhys Stronfork terá também um papel importante, embora este não tenha o famoso ator Troy Baker a dar-lhe voz. Outros NPCs como Tina, Moxxi e Hammerlock estão igualmente de regresso.

A história tem lugar sete anos após o segundo capítulo, depois da morte de Handsome Jack, o grande vilão da série. Os antagonistas são agora os irmãos gémeos Troy e Tyreen Calypso, que formaram o culto Children of the Vault, e que têm como objetivo ganhar posse das restantes vaults espalhadas por Pandora e planetas em redor. Para fazer frente ao novo perigo, Lilith, uma das caçadoras que o jogador controlava no primeiro jogo é agora a líder da Crimson Raiders, uma espécie de força da resistência que está a recrutar novos Vault Hunters.

Humor acutilante e exagerado. Ninguém é para levar a sério

Apesar de cheia de humor, a história é quase um fio condutor para desbloquear novos mapas e áreas temáticas para explorar. E nem sempre é muito boa, tornando-se sobretudo repetitiva, ao enviar o jogador pelos diversos mapas de Pandora e outros planetas. Cada um apresenta ambientes distintos, com variedade temática e são divertidos de explorar.

E pode-se dizer que a campanha é enorme, com quase uma vintena de horas para a completar, que pode ser jogada a solo, ou como sempre, num formato cooperativo online, drop in, drop out.

O grande trunfo é sem dúvida a jogabilidade refinada, a excelente sensação de disparo, o impacto nos inimigos e claro, a quantidade absurda de armas disponíveis. Estas são geradas aleatoriamente em combinações de estatísticas, mediante o nível de experiência. Algumas têm disparo secundário, como explosivos e outros efeitos. E mesmo sendo um RPG, com a personagem a tornar-se mais poderosa a cada nível, a capacidade de destruição aumenta de forma ainda mais divertida. E acreditem que há momentos onde a ação escala, com inimigos a surgir por todo o lado, numa experiência intensa e impressionante.

Obviamente que o loot continua a ser um dos grandes destaques do jogo, com arcas espalhadas por todo o lado, e é possível abrir tudo e mais alguma coisa, de sanitas a frigoríficos para sacar itens. Há máquinas para venda de armas, gadgets e munições, mas não esperem encontrar nada de jeito. Aliás, de um modo geral, a maior parte das armas que os inimigos largam não presta. Mesmo aquele boss mais complicado dificilmente deixará algo verdadeiramente potente para substituir o arsenal equipado.

É necessário compreender as estatísticas adicionais, com os bónus, se estás congelam, eletrificam ou queimam os inimigos. Mas não se preocupem, seja uma sniper ou uma caçadeira, ou mesmo uma pistola, todas elas terão algo que torna o seu manuseamento sempre divertido.

Ao longo da aventura irão ainda desbloquear itens cosméticos, para personalizar a vossa personagem, e dessa forma distinguir-se de outros jogadores que encontrem pelo caminho.

As quatro personagens à escolha inicialmente correspondem a quatro classes, com diferentes estilos de jogabilidade e builds de habilidades distintas. Zane utiliza drones e decoys para auxiliar na ação; Moze tem um urso mecânico como ajudante; Amara é uma Siren e utiliza poderes místicos; FL4K tem diversas bestas para o ajudar em combate.

Cada classe tem três árvores de atributos onde podem gastar os pontos sempre que sobem de nível. A diferença para os anteriores jogos, é que antes os jogadores tinham de se manter na mesma árvore, agora podem picar habilidades de qualquer uma abrindo assim um sem fim de combinações para a sua build. E não se preocupem em experimentar opções, porque podem fazer reset quando quiserem e reconfigurar a personagem. As habilidades adicionam sobretudo mais poder aos ataques secundários da personagem.

Os bosses apresentam confrontos intensos e desafiantes, sendo por norma, difíceis de lidar, requerendo mais destreza a fugir aos seus ataques especiais, e transformações quando chegam a uma certa parte da sua barra de energia. Infelizmente a inteligência artificial dos inimigos, no geral, não é muito boa, tornando-se muitas vezes carne para canhão. Ainda assim, parecem ter a pontaria sempre refinada, acertando-nos de locais onde não esperaríamos.

E quando estão a jogar em cooperativo, há agora uma opção que podem ligar para receber loot exclusivo para a vossa personagem, como Diablo 3, invés de andar a roubar dos companheiros, ainda que isso fosse parte do gozo na experiência dos jogos anteriores. Nesse caso, mantenham a opção de loot partilhado ativo. Podem enviar itens para amigos através do sistema de mail dentro do jogo.

A nova aventura inclui agora viagens a outros planetas, para além de Pandora. Promethea, por exemplo, é uma metrópole de néon, onde está a decorrer uma guerra entre duas gigantes tecnológicas. Já Athenas é um planeta repleto de templos e locais monásticos. Já Eden-7 é um planeta mais selvagem, repleto de ecossistemas de criaturas, num ambiente de caça. Há muitos cenários distintos para descobrir.

E para ligar todos os locais, temos uma nave chamada Santuary, que serve de base de operações, onde podem encontrar os NPCs para conversar, máquinas para negócio, vendedores de upgrades e tudo mais do que precisarem, numa espécie de abrigo seguro. Aqui vão encontrar ainda uma arca dourada, que só pode ser aberta através de códigos que a própria Gearbox distribui pela comunidade, de forma a manter o engagement dos jogadores nas suas redes sociais.

De ter em conta que cada mapa explorado podem encontrar um computador de fast travel, pelo que é fácil e rápido aceder a qualquer local previamente visitado a partir do mapa. Além disso, é mais fácil observar onde estão os objetivos e pontos de interesse, sobretudo em mapas que contém múltiplos andares.

Não faltam ainda veículos para ser mais rápido explorar os mapas, e claro, combater bem ao estilo de Mad Max, utilizando as metralhadoras ou granadas. Podem recolher também upgrades para os mesmos e caracterizá-los a gosto.

De notar que há relatos da versão PC ter problemas de saves, e outros bugs terminais, mas durante a minha jornada não tive qualquer problema. O jogo correu de forma fluída, ainda que em locais mais povoados e com a ação intensa, tenha notado algumas quebras de framerate, mas sem comprometer a jogabilidade.

Durante a aventura, para além das missões narrativas, cada planeta tem um objetivo secundário oferecido pelas diferentes personagens. Em Pandora, Claptrap quer que encontremos ferro-velho para construir uma namorada, chamada Veronica, enquanto que Sir Hammerlock incentiva-nos a caçar determinadas criaturas para preencher a sua sala de caça com bonitos troféus. Há ainda diários eletrónicos para encontrar, entre outros itens colecionáveis.

Se a aventura é longa, existem outros modos alternativos, como explorar diferentes dungeons, procurar o boss e matá-lo para ganhar loot. Há ainda um modo que apenas se desbloqueia no final da aventura chamado Proving Grounds, uma forma de conteúdo end game em que devem encontrar em cada planeta escrituras Eridium espalhados pelo mapa. Este desafio incentiva a partilhar com amigos, e trata-se no fundo de uma espécie de modo Horde, enfrentando diversos inimigos em vagas, com objetivos paralelos, recompensando os jogadores com armas de topo.

Borderlands 3 é um grande jogo, sobretudo para quem gostou dos anteriores, mas demonstra que a Gearbox não quis arriscar muito e apresenta uma fórmula muito segura e testada no passado. O problema é que desta vez não está sozinha a representar o género que lhe deu vida, e surgiram jogos como Destiny, The Division e até Anthem, capazes de elevarem o formato multi-jogador a níveis superiores. É um FPS muito sólido, com mecânicas RPG que realmente funcionam, mas a narrativa não é tão interessante que equilibre a repetição constante da estrutura do jogo. De um modo geral, Borderlands 3 é lindíssimo, mesmo utilizando a arte de cel shading, parece mesmo que estamos a viver um hilariante filme de animação, daqueles que davam ao sábado no horário do João Baião.