Que ano para os city builders. Se 2019 pode ficar na história como um ano repleto de estupidez, que inclui a entrada na Assembleia da República de um deputado xenófobo, um ano ameno onde as grandes marcas andam a guardar munições para 2020, mas onde, para mim, os city builders salvaram a honra do convento, e superaram-se, lançamento após lançamento. Flotsam não vai sequer riscar a pintura de Anno 1800 como o melhor deste anno (desculpem a piada), mas é uma das propostas mais criativas para o género. 

Lançado em Early Access há poucos dias, Flotsam é uma mistura interessante de city builder e survival game, muito à semelhança do que Frostpunk fez, mas com um ambiente incomparavelmente mais idílico. 

Não existe nada em Flotsam que nos diga o que raio aconteceu, mas é fácil de inferir que o jogo se passa após uma catástrofe natural em que o nível das águas subiu e submergiu o planeta. Temos à nossa responsabilidade um grupo de náufragos que tenta literalmente fazer pela vida com água por todo o lado. Para isso tem uma espécie de farol flutuante que lhes serve de casa, e a partir do qual temos de os enviar a nado para recolher madeira e plástico, para reciclar e transformar em utilidades.

Dizer que Flotsam é um city builder atípico é um eufemismo. A cidade que vamos construído a partir do farol central é uma espécie de bairro de lata feito de plástico reciclado, uma cidades improvisada flutuante que vai crescendo mediante as nossas necessidades.

O objectivo da primeira localização onde começamos o jogo passa por desenvolver a nossa tecnologia rudimentar à base de destroços até ao ponto em que passamos a contar com barcos de pesca e barcos que permitam aos nossos náufragos poderem ir mais longe recolher materiais para a nossa cidade. Após chegarmos um pouco mais longe conseguimos construir um mastro e umas velas que vão permitir à nossa cidade velejar pelo mapa para novas localizações.

Flotsam estão tão coeso naquilo que faz e que nos propõe que desde que o liguei ontem, até conseguir passar todo o seu conteúdo, pesquisar toda a sua árvore tecnológica, construir todas as instalações na cidade flutuante, e tornar o ciclo de recursos e subsistência dos náufragos sustentável, não demorei 3 horas, para muita pena minha. Quebrar um city builder em tão curto espaço de tempo foi algo que me deixou triste para com este original indie city builder, que tem, como se adivinha, limitações de conteúdo nesta fase alpha

Seja na própria árvore tecnológica, ou nas necessidades dos náufragos (saúde, descanso, água e comida) sem trazer nenhuma aleatoriedade ou adversidade se não forem satisfeitas, consegui sempre manter vivos e de boa saúde os náufragos (e gaivotas) que fui resgatando à medida que a nossa cidade flutuante avançava no mapa.

À semelhança de outros city builders, nós não controlamos directamente os nossos náufragos, mas damos indicações gerais ao que esperamos que façam. Se quisermos que vão recolher madeira à água, colocamos uma bóia a indicá-lo, e vai ser a IA dos náufragos a gerir a sua resposta (sendo que podemos definir o nível de entrega de cada um a cada tarefa). 

Para além de usarmos barcos para recolher peixe, madeira e plástico da água, e combustível e metal de casas abandonadas (que vão aparecendo em pequenos promontórios), o número de recursos naturais é reduzido, e é através das instalações que vamos construindo na nossa cidade que desbloqueamos materiais avançados. 

A água potável, esse bem de valor inestimável que aparentemente nós humanos sentimos que pode ser desperdiçado, é obtido através da dessalinização da água do mar, utilizando madeira a arder para causar a evaporação. Mas a madeira tem antes de ser seca ao ar (assim como o peixe, um dos processos passivos que decorrem sem a necessidade de envolvimento dos náufragos). Todas as restantes tarefas passam por um rodopio dos náufragos que vão-nas cumprindo, à medida que respondem às suas próprias necessidades.

Flotsam é neste momento um bom ponto de partida para um excelente – e diferente – city builder, mas ao qual ainda lhe falta muito conteúdo. O preço (22,99€), para um indie city builder em Early Access também não é muito convidativo, especialmente para o loop curto de jogabilidade e conteúdo que possui neste momento. Mas acredito piamente que aquando do seu lançamento Flotsam poderá ser uma referência do género, e um exemplo criativo de como se consegue alterar profundamente fórmulas pré-existentes.