A série Gears of War foi o cartão de visita da Epic Games na geração Xbox 360, na altura a mostrar o potencial do Unreal 3, cujo sucesso levou a Microsoft a adquiri-la, fechada a trilogia inicial. Desde então encarregou a The Coalition a desenvolver a série, mas os dois episódios seguintes perderam-se um pouco. Judgement foi uma espécie de marcar compasso na narrativa original, apresentando-nos uma história passada em flashback, com novas personagens. Enquanto que o quarto jogo assumia-se como a geração seguinte de Gears, protagonizado pelo filho da personagem principal Marcus Fenix.

Mas a The Coalition não mandou a toalha ao chão e continuou a trabalhar arduamente no novo capítulo, com a Microsoft a dar-lhe o tempo necessário para criar uma espécie de reboot, não apenas na história, mas nas mecânicas gerais, assim como um multiplayer refrescado, tanto em cooperativo, como competitivo.

O resultado não poderia ser outro que não um dos melhores títulos da Xbox One, mesmo assumindo que o catálogo não é propriamente grande, no que diz exclusivos da Microsoft. Ainda assim, os fãs apanharam um grande um susto, pois a falta de notícias e novidades sobre o jogo, a poucas semanas de ser lançado, davam conta de que algo não estava bem, mas no final, tratou-se tudo de manter em segredo, para surpreender. E nesse aspeto, parabéns, conseguiram.

Antes de mais, a estrutura base da jogabilidade é a mesma de sempre. É um Gears, agora com nome abreviado, mas a jogabilidade é mais dinâmica, a câmara responde melhor e as animações das personagens são mais fluídas do que antes. Mas o sistema de cobertura, a forma como recarregam as armas, grande parte do arsenal, tudo é bastante familiar.

E este título é estupidamente bonito, mantendo um framerate a 60 FPS, mesmo numa resolução 4K, se tiverem uma Xbox One X. Toda a ação é fluída, destacando-se as texturas das armaduras das personagens, e claro, as paisagens de cortar a respiração, sejam cidades em ruínas, interiores e até cenários gélidos. Os efeitos de iluminação e partículas são também muito interessantes, para aqueles que gostam de analisar o detalhe.

E a Coalition foi bastante ambiciosa e introduziu duas áreas enormes abertas à exploração, em capítulos específicos, numa tentativa de trazer menos linearidade à história, ainda que a implementação não seja fantástica, mas já voltamos ao tema.

A nova aventura tem lugar pouco tempo depois de Gears of War 4, centrando-se em Kait Diaz, agora a personagem principal, dando seguimento aos eventos fatídicos daquilo que aconteceu à sua mãe no jogo anterior. A produtora fez ainda questão de trazer caras conhecidas, como o pai e filho Fenix, e até outras que fica para descobrirem, mas como já viram no trailer, o Cole Train Baby também dá o ar da sua graça.

A história está muito bem escrita, sobretudo porque encontra um bom balanço entre os segmentos de ação e diálogos, sejam através de cut scenes, ou mesmo durante a jogabilidade. O estúdio não ignorou o legado narrativo e olha para trás para desenterrar mistérios, cimentando-os no novo jogo para garantir o futuro da série.

O humor em esteróides continua bem presente, e é esse companheirismo entre os Gears que sempre foi bem recebido na série. Mas há tempo para dramas, heroísmo e claro aventura, num misto de emoções, com um ritmo sempre cadente.

O destaque da narrativa vai para Kait, que neste mundo de homens poderosos ganha o seu espaço, destacando-se como uma líder, e assumindo a tocha de carisma que o próprio JD Fenix nunca obteve do seu pai. E mesmo neste episódio, ainda que muitas vezes apenas em rádio, Marcus mantém aquela presença constante, que os fãs agradecem. A aventura está cheia de momentos fortes, repletos de sequências intensas de ação, com alguns confrontos com bosses verdadeiramente épicos. E nem sequer faltam algumas perseguições, como a série nos habituou.

Tal como os anteriores jogos da série, Gears 5 suporta um formato cooperativo, mas reduz o número de jogadores a três. E para além dos diferentes Gears da Delta Squad que poderão optar, a grande novidade é a inclusão de Jack na equipa, não em forma passiva como até aqui, mas sim a possibilidade de controlá-lo por um dos jogadores. Este tem diversas habilidades, desde salientar inimigos na área, eletrocutar os Locust, curar os companheiros ou fornecer invisibilidade temporária, para destacar alguns.

Mesmo jogado a solo, é possível escolher duas habilidades ativas, e usá-las quando necessitam. E Jack é o único a ter uma série de habilidades que podem ser melhoradas, utilizando circuitos encontrados ao longo da aventura.

É exatamente o pretexto de encontrar melhorias para o robot que o jogo introduz duas áreas enormes para explorar, recorrendo a um veículo, o Skeef, que é uma mistura de trenó, snowboard e kitesurf, capaz de transportar todos os membros da equipa, assim como carregar armas adicionais. Os dois mapas inspiram-se em cenários distintos, um é uma tundra de neve, o outro um deserto massacrado por uma tempestade elétrica.

Para além dos objetivos narrativos, há pontos de interesse para explorar, com pequenas missões secundárias e ignoráveis, mas que adicionam longevidade à campanha. Por norma é explorar acampamentos ou locais de incidentes, matar todos os inimigos e procurar o upgrade para o robot. Estes são repetitivos e por norma pouco interessantes, mas considerem um pequeno extra à aventura, sobretudo se querem extrair o máximo potencial de Jack, já que as suas habilidades ultimate têm de ser encontradas nestas missões paralelas.

A campanha é curta, ainda que não muito curta para os padrões da série, sendo facilmente finalizada entre 10-12 horas mediante o tempo que gastarem a explorar os cenários. No entanto, e tal como é habitual na série, o jogo oferece uma forte vertente multi-jogador.

Diria que o meu formato favorito é o Escape, um formato cooperativo para três jogadores, que como o nome indica, a equipa tem de fugir a alguns cenários, eliminando os inimigos no caminho. Começam com armamento limitado, mas irão recolhendo as armas dos inimigos até à liberdade. Os jogadores recebem pontos e experiência para o seu perfil, mediante o tempo que demoram a fugir. Mas é um modo com uma longevidade de pelo menos meia hora.

De salientar que este modo é rotativo, com o estúdio a comprometer-se a introduzir novos mapas semanalmente, além de que há um editor em beta, pelo que este modo irá ser alimentado pela própria comunidade. Pessoalmente acho o formato muito interessante quando jogado com amigos, pois é intenso e requer alguma coordenação.

O formato Versus é tudo aquilo que esperariam do modo competitivo, e inclui igualmente um editor de mapas, num grande incentivo à comunidade.

E mesmo o Horde, embora mantenha a essência de defender uma base contra vagas de inimigos, construindo armadilhas e proteções, este está mais dinâmico. É que existem pontos de controlo que precisam ser ativados, obrigando os jogadores a mudarem a base de lugar, para terem acesso a buffs especiais quando os ativam.

Como referi, o perfil do jogador ganha experiência pelas partidas feitas, tendo acesso a personagens, que não são meras skins. Estas têm cartas que podem ser equipadas, que dão acesso a habilidades especiais e únicas, incluindo um ultimate que vai sendo carregado durante a ação. Kate consegue ficar invisível temporariamente, enquanto JD consegue chamar ataques aéreos.

Tudo isto faz parte do sistema Tour of Duty, que a produtora irá continuar a alimentar futuramente com novos mapas e conteúdos de forma trimestral. Os jogadores irão ter objetivos diários e medalhas de temporada, como parte da operação, com recompensas como personagens, skins para as armas, novas animações para as execuções, sprays e outros itens cosméticos. Há também uma oportunidade do estúdio inserir personagens convidadas, como é o caso de Sarah Connor de Terminator, ou em breve, a introdução de Dave Bautista.

O ambiente multi-jogador, com progresso persistente perante meta-objetivos, tais como matar inimigos de determinada forma, acrescenta uma longevidade infinita. Ainda assim, talvez porque o jogo ainda não tenha sido lançado oficialmente durante o período do teste, obtive muitas mensagens de erro no final das partidas, de sincronização com os servidores, o que me fez perder a experiência que tinha direito das batalhas.

Há outros bugs durante a campanha, como saves e loadings que encravam, e mais do que uma vez que fui obrigado a repetir uma luta mais difícil por não ter gravado devido a um crash do jogo.

Mas no geral, há muitas coisas para descobrir neste Gears 5, entre novos inimigos, armas poderosas e outras mecânicas simples, tais como escolher reforços para os campos de batalha. Mas no geral, o jogo apresenta-se como um pacote bastante completo e de grande qualidade no que diz respeito à campanha narrativa e os formatos multi-jogador. É muito bonito e fluido, e obviamente divertido, sobretudo com amigos.

Está na hora dos fãs fazerem as pazes com a Coalition, esperando já o regresso ao planeta Sera, certamente para breve.