O ano passado a Team17 teve o condão de me surpreender com uma mistura única de pinball e metroidvania em Yoku’s Island Express. No meio de tanta desinspiração e falta de originalidade na óbvia saturação do mercado de videojogos indie, sabe sempre bem quando um jogo consegue mostrar-nos completamente inovador, e Yoku’s foi um destes casos. 

Nem de propósito, chegou-nos há um par de semanas um jogo que faz outra mistura única entre o pinball, o Arkanoid e um género aparentemente distante: os dungeon crawlers. A diferença cabal que Creature in the Well faz ao género, para além de incluir ideias de pinball e de uma certa forma, ping-pong: é que vamos percorrer um desafiante dungeon crawler sem enfrentar inimigos, sem ser o embate final com a titular criatura que nos segue desde o início.

Creature in the Well é mais puzzle dungeon crawler que outra coisa qualquer. Nele controlamos um robot que se ergue para reparar uma máquina que consiga proteger uma pequena aldeia da tempestade de areia que ameaça destruí-la. Para isso temos de percorrer diversas estruturas abandonadas que compõem a gigantesca máquina atmosférica que poderá pôr cobro à ameaça que paira sobre a pequena aldeia e os seus habitantes.

Mas, como dizia, a habitar as salas desta máquina gigantesca tornada múltiplas dungeons pelos seus criadores estão dispositivos que necessitam de ser energizados. Cada porta fechada que dá acesso a uma nova sala da dungeon está desactivada e necessita de um valor específico de energia eléctrica para voltar a funcionar. Para a obter temos de enveredar pela componente pinball que dá forma a todo o jogo.

Munidos com diversas armas (sendo que, ao contrário de outros dungeon crawlers, elas não aumentam o nosso dano, mas sim a nossa eficácia para lidar com os puzzles) o nosso objectivo é bater em pequenas bolas brancas que surgem, e que, ao tocarem nos obstáculos que se erguem em cada sala, energizam-se, “roubando-lhes” a electricidade e passando-a para nós, para que possamos abrir as portas para as próximas salas.

Cada sala é um puzzle em si mesma. Algumas colocam o desafio em conseguirmos atirar as bolas com a precisão de um jogador de ténis (ou de um batedor de basebol), fazendo-as atravessar, através de ricochetes, um número de obstáculos pela ordem certa. Outros puzzles obrigam-nos a melhorar a nossa destreza e agilidade, ter atenção às bolas em chamas disparadas por alguns canhões, e ir conseguindo bater nas bolas brancas para que elas vão captando energia e desactivando os obstáculos da sala. Mais à frente é a própria Criatura no Poço que vai começar a interferir em cada puzzle, aumentando o desafio. 

Visualmente, é delicioso o que a equipa do estúdio Flight School Studio desenvolveu. Numa linguagem que se assemelha muito à estética do gigante Moebius (assim como Sable, que aguardamos ansiosamente pelo lançamento no próximo ano), com a modelação tridimensional a ser finalizada com um misto subtil entre um cel-shading ligeiro e um tratamento visual com cores planas. 

Tantas vezes nos queixamos da falta de originalidade do mercado de videojogos que é sempre com um sorriso de orelha a orelha que vemos novas propostas, diferentes de qualquer coisa antes vista, a chegarem às lojas digitais. Creature in the Well não é apenas um jogo original: é um título extremamente sólido que nos leva numa viagem única e desafiante.