“Three Rings for the Elven-kings under the sky,

Seven for the Dwarf-lords in their halls of stone,

Nine for Mortal Men doomed to die,

One for the Dark Lord on his dark throne

In the Land of Mordor where the Shadows lie.

One Ring to rule them all, One Ring to find them,

One Ring to bring them all and in the darkness bind them

In the Land of Mordor where the Shadows lie.”

J.R.R. Tolkien em The Lord of the Rings

Não sei se o Professor Tolkien me permitiria a extrapolação, mas depois de estar sete dias com o Ring Fit Adventure apraz-me pensar que Celebrimbor, sob instrução de Sauron, ainda teria tempo para um Anel: aquele que os iria emagrecer a todos. Problemas de primeiro mundo, certamente, já que num universo ficcional de fantasia medieval o sedentarismo e o excesso de peso não são certamente a maior das preocupações. Já ser inadvertidamente decepado quando tudo o que se quer é beber um copo numa taberna…

Desde que o Rui Parreira escreveu sobre a sua ida a Frankfurt para experimentar o novo dispositivo de Fitness da Nintendo que andei com uma ansiedade tremenda de o experimentar. Todos conhecemos o sucesso colossal que o Wii Fit teve com a consola doméstica da Nintendo (que foi ela mesma, como sabemos, outro sucesso). No meu caso, o dispositivo de fitness da Nintendo tem outro valor sentimental: foi a primeira compra conjunta que eu e a minha mulher fizemos quando comprámos casa, há 10 anos. Quando começámos a tratar da compra da casa, fomos comprar a Wii com Wii Fit e decidimos que seria esta a nossa plataforma de eleição da nossa estreia da casa. A consola foi-o durante muito tempo, o Wii Fit, nem por isso. Não negando o extremo cuidado do ponto de vista de fitness e originalidade que o jogo possuía, e o facto de ser verdadeiramente groundbreaking (com as consolas concorrentes a tentarem mimetizar o seu sucesso algum tempo depois), mas olhando agora em retroactividade, acredito que aquilo que se passou connosco (e quem sabe com tantas outras pessoas) foi a falta de motivação de prolongar a experiência de Wii Fit para além do impacto inicial. É que a aura de party game, com a utilização dos (felizmente) defuntos Miis, tinha uma aura de diversão a prazo, e muitas vezes falhava em situar-se ora fora do âmbito dos jogos de festa, ou dos jogos de fitness, potencialmente mais aborrecidos.

A descrição de Ring Fit Adventure do Parreira e a revelação do trailer deixaram-me uma vontade totalmente inversa, uma genuína curiosidade que Wii Fit nunca conseguiu criar. Em Wii Fit o intuito era meramente de perder peso, sem qualquer brilho adicional de entusiasmo de videojogo. Ring Fit Adventure não. Do pouco que vi e sabia é excelência de gamificação: a aplicação de um cuidado game design em prol de um objectivo ulterior. É fitness e exercício físico quando nem percebemos que o estamos a fazer. É suar a exercitarmos o corpo quando o que achamos é que estamos a jogar um turn-based RPG como qualquer outro.

Comecemos pelo dispositivo, o anel flexível que recebe o JoyCon direito (e que é materializado em jogo como uma entidade sobrenatural). A utilização deste nas diversas mecânicas e a resistência que este apresenta enquanto instrumento de exercício é uma das maiores surpresas ao primeiro contacto. Para além da utilização do giroscópio do JoyCon e a utilização do anel enquanto forma de seleccionar os menus e de apontar os nossos disparos dentro do jogo. Por outro o reconhecimento da tensão do próprio anel quando o comprimimos ou quando o esticamos, a resistência muscular que ele oferecesse e a aplicação disso em diversas mecânicas no jogo. Apertar o anel e virá-lo para baixo permite-nos saltar e flutuar, apertá-lo em frente permite-nos destruir caixas (quanto mais força, maior o dano) e “esticar” o anel permite-nos sugar moedas que estejam a pairar.

Mas é o sistema de RPG, do modo de aventura a verdadeira jóia da coroa de gamificação do exercício físico. Cada mundo obriga-nos a correr no mundo real, com o JoyCon na perna esquerda a identificar o nosso pacing e a altura dos nossos joelhos quando subimos escadas in-game. Os obstáculos, ultrapassados com o anel, são outra das componentes que nos obriga a trabalhar deltóides e bíceps, mas é no combate que a magia de game design acontece.

Em Ring Fit Adventure defrontamos criaturas (e bosses) num combate por turnos. Para atacarmos temos de seleccionar uma sequência de exercícios cujo grau de dificuldade está adaptado às pré-configurações que fizemos (seja de esforço ou de objectivos físicos). O nosso desempenho em cada movimento dita o dano ao monstro, e finda essa sequência de exercícios (com a devida informação de que zonas musculares estamos a trabalhar) o monstro ataca. Para nos defendermos temos de utilizar o anel para fazer um abdominal, defendendo assim ao máximo o dano que o monstro nos daria.

Os turnos vão-se alternando até o monstro ser derrotado e recebermos o XP e o loot correspondente. No final do nível o jogo calcula aproximadamente as calorias que gastámos e a nossa subida de nível. 

Para além do modo aventura há uma série de mini-jogos interessantes construídos em torno do anel, e que podem ser organizados como playlist mediante as nossas preferências de exercício físico. 

Mas o modo história é mesmo aquele onde nos perdemos, onde nos cansamos e trabalhamos os músculos sem percebermos, porque é o nosso exercício físico que é convertido em ataque aos monstros. Uma ideia tão simples, mas tão elegante, e que encaixa na perfeição neste exemplo de gamificação brilhante.

A diferença fulcral entre a evolução do Wii Fit (e Wii Fit U) para o Ring Fit Adventures é que no caso deste temos um jogo que foi transformado em exercício físico, e no primeiro era fitness mascarada de videojogo. Uma pequena grande diferença que cria um abismo de entrega entre os 2. A vontade de subir de nível, de dar mais dano, de progredir no modo de história são um dos maiores aliciantes a manter-nos investidos no jogo, a voltar todos os dias nem que não seja para mais uma sequência curta de exercício.

E Ring Fit Adventure não é apenas para pessoas como eu, que querem encontrar uma forma divertida e gamificada de se exercitar: até as crianças podem divertir-se com o jogo, com a pré-configuração do seu perfil a espelhar a sua condição física e idade.

O chamado “fitness casual”

Não sei quanto tempo vou manter este investimento físico e temporal em Ring Fit Adventure, mas tenho curiosidade em perceber se no meu caso, pela tremenda acessibilidade que o jogo tem versus a falta de vontade de sair de casa e ir a um ginásio, se conseguirei manter-me com ele mais tempo. Acredito que sim. Volto a Ring Fit Adventure pelo exercício mas fico pelo jogo, e essa é uma conquista inestimável dos game designers da Nintendo.