Apesar de conhecermos a Game Freak por desenvolver desde sempre os títulos daquela que é a franquia de entretenimento economicamente mais poderosa da actualidade, Pokémon, a realidade é que a empresa fundada por Satoshi Tajiri tem lançado jogos fora dessa marca, para plataformas dentro fora do ecossistema da Nintendo, alguns deles a passarem discretamente no intervalo da chuva mediática. Harmoknight, na 3DS, que tantas horas de diversão me deram, Pocket Card Jockey e Tembo the Badass Elephant são três desses casos. 

Little Town Hero é a mais recente aventura da Game Freak a parcas semanas do lançamento do novíssimo Pokémon na Switch.

Nascido da mente de Masao Taya, que também criou o original Pocket Card Jockey, Little Town Hero é enganadoramente apelidado de RPG, quando, à luz do contágio criativo entre jogos de tabuleiro e os videojogos que temos tido em 2019, devemos vê-lo na realidade como um deck builder, à semelhança de SteamWorld Quest e Slay the Spire. Mas com muito, muito mais cálculo à mistura.

Num mundo de fantasia incomparavelmente mais inspirado a nível visual que narrativo, controlamos o titular pequeno herói da aldeia que sonha crescer e tornar-se um soldado. Para isso quer provar o seu valor à figura paternal que tem por lá, numa história tantas vezes vista e representada para além do cliché de tantas melhores formas que só há mesmo uma forma de o perdoarmos: pelo original e complexo sistema de combate que Little Town Hero possui.

Esqueçam os jogos por turnos em que podemos estar a ver uma série, preencher os formulários do IRS ou ver as nuvens movimentarem-se no céu enquanto escolhemos as acções que vamos levar a cabo. Little Town Hero obriga-nos, como nos TCGs, a fazer contas para cada izzit (as ideias de acção materializadas em cartas que temos na nossa mão) de forma a anular as izzits do adversário e conseguir dar-lhe dano directo). As izzits na qual dispendamos poder transformam-se em dazzits e, se sobreviverem ao embate com as dazzits do adversário, podem ser usadas novamente num próximo turno, ou de imediato para dar dano ao adversário.

Difícil de explicar? Vejamos o caso dos TCGs, como Magic the Gathering, Yu-Gi-Oh ou mesmo o Legends of Runeterra, o take da Riot Games ao Hearthstone. Seguindo a fórmula do famoso jogo criado por Richard Garfield, as “criaturas” servem não só de arma de arremesso para as criaturas adversárias, mas também como bloqueio ao ataque directo ao nosso HP. Se destruirmos as criaturas do adversário conseguimos dar dano directo ao nosso oponente.

Little Town Hero tem esta mesma ideia: as izzits e dazzits têm valores de custo, ataque e defesa, e quando confrontadas com as do adversário dá-se um embate: feitos os cálculos, as cartas sobreviventes permanecem. 

Partindo desta premissa relativamente compreensível, Little Town Hero vai escalando para a adição de ideias e mecânicas que complexificam, e muito, o jogo. Desde buffs e efeitos especiais de personagens de apoio, dazzits que têm poderes passivos associados, a novos izzits que ganhamos mediante a localização do turno de combate.

A nossa concentração tem que ser total, com cálculos a serem feitos não só nos turnos correntes mas para os próximos, e que transforma cada batalha em algo lento que pode chegar aos 30 minutos. E visto que a estratégia de cada turno tem que ser quase perfeito, medir que izzit transformar em dazzit, que cartas ainda nos restam na mão e nas do adversário, Little Town Hero é verdadeiramente implacável, e nada aconselhável a quem tem apenas uns minutos de tempo disponível e quer saciar a fome de videojogos.

Com uma história aborrecidamente cliché, com personagens risíveis com diálogos que nos fazem esmagar repetidamente os botões de skip, é a profundidade e complexidade do combate de Little Town Hero que nos faz voltar e abraçar o seu desafio. Um simpático putativo JRPG por turnos que é na realidade um deck-builder encapotado, com duelos impiedosos que requerem o máximo da nossa atenção e raciocínio. 

Mais do que para fãs da série Pokémon ou outros RPGs (e JRPGs) mais “directos, Little Town Hero é especialmente indicado para fãs de jogos de cartas, habituados a que o duelo estratégico com o seu adversário demore largos minutos. Com mecânicas originais que se complexificam, e muito, e como fã de deck-builders não podia deixar de o achar delicioso. Isto se me esquecer que ele tenta contar uma história ali pelo meio das batalhas.