Quem sabe precisamente o que está a fazer, fá-lo, quase sempre, bem. É o caso de King Diamond, a quem pertence a música que faz trocadilho a este artigo de análise a Luigi’s Mansion 3, e que ainda no passado dia 8 lançou um maravilhoso novo single

Perceber o risco imenso que a Nintendo correu quando em 2001 lançou Luigi’s Mansion é explicar aqueles vislumbres de genialidade que tantas e tantas vezes agracia a aura dos criadores da Grande N. Pensemos que uma consola tão avançada quanto a Gamecube se apresentava no seu lançamento, o fez não com séries que são verdadeiros porta-estandarte da Nintendo, mas algo completamente novo. Relegar a grande estrela, o Mario, para um canto, e pegar no coadjuvante quase sempre silencioso e trazê-lo para a ribalta. E fazê-lo não no habitat que identificaríamos como natural, os jogos de plataformas, mas um jogo de aventura com muitos puzzles à mistura.

Já o conhecemos o suficiente dos dois primeiros títulos da série para perceber que o risco, no caso de Luigi’s Mansion, compensa. Com 18 anos de série e apenas três títulos lançados é fácil perceber a frescura de ideias do jogo, que consegue sempre trazer-nos sempre algo novo em cada um dos mais de 10 pisos do hotel onde decorre a acção. É claro que a Nintendo acaba por demonstrar algo diferente nas suas séries principais, em que nem sempre a frequência de lançamentos dentro de uma franquia equivalha a falta de originalidade. Muito pelo contrário. Veja-se o caso de cada Super Mario que é lançado.

Mas Luigi’s Mansion 3 pega nesse território por explorar e leva-o mais longe, ainda que consiga permanecer familiar aos seus dois antecessores. 

A atenção aos detalhes é um cálice dourado num jogo onde a Física nos permite interagir com praticamente qualquer objecto no cenário. Mas esse aspecto reflecte-se em elementos que muitas vezes nos podem escapar ao olhar, como as subtilezas de reacções e animações do Luigi ao passar determinadas zonas. Um olhar assustado de soslaio ou um pequeno auto-abraço a confortar-se num momento de susto. A cabeça que roda em direcção a uma cortina esvoaçante que pode ou não significar uma ameaça eminente. 

Mantendo as mecânicas dos jogos anteriores – que são facilmente reconhecíveis como um deliciosa déja vu aos experts da série – mas ao qual é introduzida uma ideia nova e que transforma este terceiro Luigi’s Mansion numa experiência completamente diferente. A acompanhar Luigi na correria pelo hotel onde ele, o irmão, a Princesa Peach e o Toad deveriam passar umas reconfortantes férias (mas existe alguma maldição que os impeça de conseguirem realmente passar umas férias descansados?) existe uma duplicata feita de gosma do protagonista. Gooigi é assim um segundo personagem jogável, que pode ser controlado por nós, ao “abdicarmos” do controlo de Luigi em detrimento da sua cópia verde com habilidades que lhe permitem enfiar-se por grades e espaços apertados. Podemos também permitir que outra pessoa o controle num co-op divertido.

Para além dos puzzles habituais que envolvem a utilização do nosso fiel Poltergust, o aspirador caça-fantasmas que nos acompanha desde sempre nestas aventuras fantasmagóricas, o combate é outro aspecto importante que muitas vezes é enganadoramente desafiante, em especial as boss fights que são longas sequências que envolvem dentro de si a resolução de puzzles.

Um aspecto conceptual interessante nesta maravilhosamente fantasmagórico hotel é o facto da progressão ser feita de uma forma criativa: à medida que vamos percorrendo cada piso vamos também encontrando os botões de elevador para aceder a novos pisos. 

Do ponto de vista conceptual, os criadores de Luigi’s Mansion 3 aproveitaram para cada piso ser temático, obrigando-nos a um exercício divertido de suspensão da descrença. Há pisos que incluem uma arena de gladiadores, outros que são verdadeiros museus paleontológicos (onde um tyrannosaurus rex eventualmente ganha vida). Esta diferença temática e conceptual é sempre acompanhada de novos tipos de puzzle ou novas mecânicas de física para solucionar. 

A longevidade equilibrada e o interesse crescente do que Luigi’s Mansion 3 tem para nos trazer são certezas constantes. Da minha parte, mesmo sem uma obsessão com ser completionist, grande parte do gozo passava por entrar em cada sala ou corredor e tentar perceber todos os segredos e interacções que conseguia desvendar com os utensílios de Luigi e o seu fiel (mas muitas vezes inanimado) Gooigi.

Foi o primeiro Luigi’s Mansion que partilhei com o meu filho, em momentos que ultrapassaram apenas o cooperativo introduzido neste terceiro título, mas que passava também pelo diálogo de como ultrapassar alguns dos quebra-cabeças. Para além desbloqueamos modos multiplayer com diversos sub-modos que transformam as mecânicas de Luigi’s Mansion 3 num quase party game.

Luigi’s Mansion 3 é um discreto candidato a um dos melhores jogos do ano, onde todas as partes que o compõem: da apresentação visual e musical detalhadas, passando pelos brilhantes e diversificados puzzles, nos relembram o porquê desta série ser tão bem recebido sempre que nos chega às mãos. Luigi’s Mansion 3 é assim um jogo desafiante, obrigatório, e perfeito para ser partilhado em família, onde os divertidos puzzles do assustadiço Luigi são ao mesmo tempo masterclasses de como se utiliza a Física de forma criativa e detalhada.