Quem passou a sua juventude entre os anos 80 e 90 do século passado em qualquer cidade grande como Lisboa e até nalgumas pequenas povoações lembra-se dos salões de jogos, também chamadas arcadas (influência das Arcades americanas). Após os anos 2000 devido a várias razões fomos perdendo esses salões, esses pontos de convívio em que nós jogávamos uns com e contra os outros e eu, particularmente sinto falta disso. E nunca pensei no quanto eu sinto saudades dos salões de jogos até há umas semanas no Moche XL Games World.

Antes do Moche XL, vamos andar um bocado para trás no tempo para a minha relação com os salões de jogos que provavelmente será muito parecida com a de muitos vocês. Eu cresci entre Sete Rios e Entrecampos, para quem não é de Lisboa nos anos 1980, isso quer dizer muito pouco, mas é resumido nisto: de um lado tinha a Feira Popular onde havia alguns dos maiores salões de jogos e em Sete Rios onde estudei do 7º ao 12º ano, havia debaixo do terminal de autocarros havia outro dos salões de jogos mais conhecidos por ter o Daytona para 4 jogadores. Além desses, verões passados na Costa da Caparica num dos maiores salões que tenho memória, em Picoas num pequeno salão numa cave e outro gigante na rua que vai do Rato à Estrela. Nessa altura havia salões de jogos, alguns que frequentei até quase 2010 quando saía do emprego lá perto e ia fazer umas jogatanas neste último da Estrela antes de ir para casa até ele fechar… Hoje… o da Costa da Caparica ainda resiste de alguma maneira sendo dos únicos sobreviventes dessa altura, o de Sete Rios não faço ideia, mas a Feira Popular é um terreno baldio que apenas tem prostituição de acordo com os moradores que se queixam do mau ambiente desde que foi demolida, o salão de Picoas faz agora parte de um hotel e o da Estrela que tinha 3 andares de jogos incluindo snooker inglês, daquele com as bolas vermelhas e coloridas que vemos na Eurosport é uma mega-loja chinesa.

Muitos de vocês frequentaram estas casas e outras, até em Vila Nova de Milfontes havia um salão que eu ia quando lá estava de férias de no verão, ainda lá está com umas mesas de pool e matraquilhos, mas nada mais, não há máquinas de flippers, não há máquinas de jogos. E eu pergunto-me… porque é que eles desapareceram?

Terá sido porque com a facilidade de ter jogos em PC e consolas foi tirando aos poucos o interesse de ir jogar algo pagando à vez quando se pode pagar uma vez e jogar para sempre? Falta de interesse por se deslocar a um sítio específico para ir jogar? Modelos de negócios que não rendem como está a acontecer no Japão? Na terra do sol nascente o imposto de consumo de entretenimento subiu recentemente para 10%, e tem subido nas últimas décadas tal como a inflação e outras flutuações financeiras. Contudo, há décadas que os jogos dos salões são uma moeda de 50 yens, ou uma moeda de 100 yens. Devia ser mais, mesmo sem o passar do tempo, apenas este aumento de impostos devia subir o preço dos jogos em 10% mas como não há moeda para isso, e a cultura de 1 moeda = 1 jogo está tão enraizada na mente do jogador, os salões de jogos acabam por absorver esse prejuízo. Há outras razões como as que mencionadas acima e outras mas basta ver que em 2016 existiam cerca de 14 mil salões de jogos registados no Japão, em 2006 havia 24 mil. Perdeu-se uma média de 1000 por ano. A escala em Portugal é diferente, dúvido que alguma vez tenham existido 14 mil salões ao mesmo tempo no nosso país mas, acredito que a taxa de desaparecimento tenha sido muito mais rápida.

Eu tenho muita pena que os salões de jogos tenham desaparecido, e no Moche XL percebi o quanto eles fazem falta. Quem foi ao evento no Altice Arena e foi ao Salão de Jogos percebeu o quanto as pessoas se divertiam lá, percebiam logo pelo facto de estar constantemente cheio, de miúdos a graúdos a fazer fila para jogar Outrun 2 ou Air Hockey, Flippers ou Final Fight, até dardos! Sem falar nas consolas e computadores retro, mas acima de tudo o ambiente, a música, os risos, a boa disposição contagiante no meio de música dos anos 80 e o tilintar constante de bolas de pinball, comandos e outras coisas mas principalmente a aura de algo que infelizmente se perdeu, sem razão a meu ver e que é necessário fazer um regresso.

Nós precisamos de salões de jogos, precisamos de contacto físico dos encontrões nos corredores, de interacção em jogos co-op e versus, cara a cara, ou lado a lado, das tradições perdidas como meter a moeda na máquina para a pessoa saber que quando acabar somos nós a seguir. Perdeu-se algo histórico. Uma história que devia ser ressuscitada!