Need for Speed está a comemorar os 25 anos desde a sua estreia, tendo sido lançados quase 30 jogos, incluindo spin offs, uma adaptação a cinema e centenas e centenas de bólides para conduzir com toda a fome de velocidade. É uma das séries de condução mais antigas dos videojogos e uma grande fonte de receitas para a Electronic Arts, considerando que é a experiência mais próxima dos filmes Fast and Furious, que não tem expressão nos videojogos.

A produtora Ghost Games continua a tentar encontrar a fórmula mais interessante e eficaz de representar as corridas ilegais, nem sempre conseguindo manter a qualidade, devido ao cliché em que a série caiu. Há duas coisas que os jogadores gostam: perseguições policiais e a adrenalina de correr pelo trânsito, espalhando o caos à passagem. E títulos como Most Wanted e Hot Pursuit continuam a ser a melhor experiência nesse sentido.

O grande problema está na estrutura de como apresentar os conteúdos, mantendo-os os menos lineares possíveis, e acima de tudo divertidos. Não há dúvida que as cidades abertas à exploração, recheadas de conteúdos são a melhor opção da série, que ainda assim nunca conseguiu o brilhantismo de Burnout Paradise, sim eu sei que não pertence à série, mas a EA tem preferido alimentar a série com narrativas típicas de novelas mexicanas. E esses jogos são puro lixo.

Ainda assim, o jogo anterior, Need for Speed Payback introduziu uma campanha narrativa assente em três personagens, cada uma dedicada a uma disciplina, velocidade, drift e OffRoad. E funcionou. O conceito migra agora de forma mais polida para o novo Heat, mas modificando o ridículo sistema de unlockables através de cartas de upgrades dos carros, que saíam em loot boxes, para um formato tradicional de compra de acessórios para os carros na garagem. E essa fórmula sim remete para o jogador a responsabilidade de amealhar dinheiro e reputação para comprar novas peças e carros mais poderosos. Ainda que a fórmula de Heat se baseie num grind que torna a experiência bastante repetitiva a meio prazo.

O título Heat que dá nome ao jogo refere-se à notoriedade ganha ao praticar corridas ilegais durante a noite, chamando a atenção das autoridades. Quanto maior o nível de Heat, mais polícias à perna e acreditem que estes grudam, sendo demasiado difícil fugir às perseguições. São realmente emocionantes, sobretudo quando existem provas no mapa que apenas ficam disponíveis mediante o nível de Heat ativo.

E porque é que é importante? Porque a série apresenta agora uma mecânica de gamble típica dos jogos Dark Souls entre o arriscar em fazer corridas com mais Heat, ou visitar os esconderijos e depositar toda a experiência, ou melhor, reputação angariada durante a noite. Caso sejam apanhados ou desfaçam o carro durante as fugas, grande percentagem dos ganhos, tanto de reputação como dinheiro amealhado perde-se. E esse desafio e equilíbrio é muito saudável e vai separar os verdadeiros street racers dos condutores de fim-de-semana.

A história do jogo passa-se na cidade de Palm City, inspirada em Miami, em que o jogador tem simultaneamente de correr para conquistar a reputação nas ruas, juntamente com o seu gangue, mas ao mesmo tempo lidar com a polícia corrupta da cidade. Há uma narrativa de fundo, que não aquece nem arrefece, mas que serve de pretexto para algumas missões especiais, tais como perseguir furtivamente, entre outras.

O jogo apresenta uma estrutura dividida entre o dia e a noite, com corridas específicas para cada altura do dia. Assim, durante o dia terão de competir em provas legais, em circuitos ou pistas autorizadas, e nesse caso nunca vão ter problemas com a polícia. Sim, mesmo que varram o trânsito e obstáculos, de dia a polícia está sempre a dormir. As provas recompensam o jogador com dinheiro.

De noite, os polícias saem das tocas e podem intrometer-se nos despiques. As provas são praticamente todas de A a B, terminando sempre abruptamente, por vezes com a polícia a em perseguição. E estas corridas, como já referi, são importantes para amealhar reputação, multiplicado pelo nível de heat.

O dinheiro e a reputação são as duas moedas existentes no jogo. A primeira serve para adquirir carros e acessórios, mas os pontos de reputação funcionam como experiência que deve ser bancada para subir de nível, e desta forma desbloquear os novos acessórios, carros e provas. As provas tanto requerem um nível de reputação, ou nível de qualidade do carro, que vai somando consoante peças melhores que vão sendo adicionadas.

A mecânica funciona bem e contraria o sistema quase aleatório dos upgrades do jogo anterior, voltando a ser como antigamente: um motor superior coloca o carro a andar mais rápido, sem complicações. E há peças para chassis, amortecedores, caixa, volante, turbo, pneus, com a particularidade de haver variações vocacionadas para as corridas, para as provas de drifting, todo-o-terreno e velocidade. O jogo incentiva ao experimentalismo, adicionando as peças que foram substituídas num inventário que podem depois ser montadas noutros veículos. Trocar peças de uns carros para os outros é uma realidade, sobretudo quando ainda se tem pouco dinheiro.

E este sistema faz com que mantenhamos afinidade por um modelo por bastante tempo, pois o carro vai evoluindo com as novas peças, incentivando, para não dizer obrigando a manter um carro de cada estilo de setup para as diferentes provas. Obviamente que inicialmente terão acesso a um chaço, mas mais à frente começam a desbloquear os supercarros, assim como alguns clássicos como o Ferrari Testarossa Coupé de 1984, o Mercury Cougar de 1967 ou o Nissan Skyline de 1971. Claro que existem bombas como os novos Porsche 911, o Pagani Huayra ou mesmo o híbrido Polestar 1, que só será lançado em 2020.

São 127 veículos para desbloquear, seja através do nível de reputação, ou como incentivo para concluir as atividades paralelas espalhadas pela cidade, tais como passar speed traps a uma certa velocidade, dar saltos para destruir cartazes, encontrar flamingos e grafittis, entre outros.

O jogo apresenta ainda um sistema de caracterização muito completo, permitindo aos jogadores utilizarem o editor para criar um design do carro original. Mesmo antes do lançamento do jogo a EA tinha disponibilizado uma aplicação para smartphones exatamente com o objetivo dos fãs começarem a criar e partilhar os seus vinis. E os jogadores mais preguiçosos podem simplesmente ver os trabalhos e fazer o download das skins que mais gostar.

Pena que as provas na estrada se tornem muito repetitivas e sem qualquer significado. Qualquer prova dá uma boa percentagem de dinheiro, independentemente da posição que ficarem, pelo que ao descobrirem uma pista rentável e a mais curta possível irão dar por si a fazerem grind de dinheiro, para depois melhorarem o carro, para atacar a noite e fazer grind de reputação. Tirando as missões de história que obrigam a ficar em primeiro lugar para avançar, todas as outras provas servem para encher chouriço, são secundárias, e nem sequer estão arrumadas em checklists de provas terminadas. O que limita a diversão.

E já para não falar que a inteligência artificial é um pouco robótica, raramente comete erros, e mais uma vez, a EA continua a fazer batota nos seus jogos de condução: os adversários quando estão longe perdem “Fôlego” para serem apanhados pelo jogador em recuperação, mas quando se aproximam estes não descolam da posição, tornando-se bem desafiante vencê-los mesmo com a classe de carro superior ao pedido para a prova.

A segunda batota é a EA utilizar set pieces pré-preparadas dos veículos anónimos que entram em pista vindos do nada, criando acidentes espalhafatosos. Estes podem surgir de cruzamentos fechados à nossa passagem, de lombas onde não se vê bem a pista em frente, e outros locais escolhidos a dedos para causar acidentes.

Ainda assim, o motor Frostbyte continua a dar cartas na série, oferecendo não só cenários quase foto-realísticos, com mudanças meteorológicas com grande realismo, sobretudo os ambientes à chuva; como a física torna praticamente todos os elementos do cenário destrutíveis à nossa passagem. A EA preferiu não estampar os jogadores contra qualquer tipo de obstáculo, permitindo levar tudo à frente como a maioria das árvores e muros, postes e gradeamentos, sem grandes perdas de velocidade.

É possível jogar inteiramente o jogo em offline, mas se ligarem a opção online, poderão ver outros jogadores a circular no mapa, permitindo ainda entrar em one-on-one com o fantasma do seu carro, em forma de time trials. Podem mesmo criar clubes online, para reunir outros fãs do jogo na vossa equipa.

Há também uma mecânica nova de drift, permitindo utilizar um duplo toque no acelerador e manter a aceleração para o carro começar a deslizar, podendo ser reforçado com travão de mão, sobretudo para controlar o automóvel nas curvas.

O jogo no geral é lindíssimo e fluído, ainda que inicialmente não ofereça uma grande sensação de velocidade até começarem a aceder aos carros mais rápidos. Ainda assim os controlos estão refinados, as perseguições policiais são intensas e a lista de carros e upgrades é muito extensa. Está longe de ser o melhor jogo da série, mas tem boas ideias que devem ser aproveitadas no futuro.