Vou na segunda playthrough de Pokémon Sword/Shield e sabem uma coisa que se torna mais do que evidente depois de terminarmos o jogo? O protagonista do jogo não somos nós, mas sim Hop. Nós somos apenas o deuteragonista melhor amigo do emergente irmão do grande Campeão. Traduzindo: somos lixo.

Acham que não é verdade? Ora vejam…

Não me lembro de uma única cut scene em que Hop não apareça. Diria até que se decidirmos olhar para o jogo pela perspectiva do Hop, não somos nós quem faz trigger a estas sequências narrativas, mas sim ele. Não somos nós que nos aproximamos dele e isso despoleta um diálogo, mas sim ele que está num sítio e nos vê a chegar. O inverso é aplicado: em cada momento de história em que ele surge no ecrã instante depois do vídeo começar, é porque estamos à espera da intervenção dele para que o enredo prossiga.

Evitando os spoilers, vejamos:

  • É ele o irmão do grande Campeão, reconhecido por todos;
  • É sobre ele que recai o ónus de destronar o próprio irmão;
  • Ele é quase sempre o primeiro a derrotar os ginásios onde vamos;
  • Ele é o nosso rival. Nós somos o Blue para o seu Red;
  • Nas oportunidades meta-enredo que temos para salvar o mundo, ele está lá também;
  • Sem explicar porquê, mas o último combate que fazemos até acabarmos a história é com ele.

Perceber isto mudou por completo a minha perspectiva do jogo. Isto é o equivalente a sermos o Cristiano Ronaldo e descobrimos que estamos num filme sobre o Fábio Paim. 

É que o Hop está sempre presente. Sempre. Se existissem cut scenes onde o nosso personagem ia à casa-de-banho, decerto que o Hop já lá estava e aparecia ainda a fechar a braguilha. 

Ele é o Hop, irmão do Leon. Nós somos o melhor amigo do Hop, o irmão do Leon. Escolhemos o nosso starter primeiro que ele por uma questão de cortesia, e o jogo até demonstra o feito heróico de permitir-lhe escolher o Pokémon que é fraco contra nós, numa atitude prepotente e auto-consciente de quem assume com isso “puto, eu é que sou o herói, até escolho um bicho para ficar em desvantagem só para teres hipóteses…”.

Hop é a locomotiva e nós somos um vagão de carga. Hop é o ponta-de-lança e nós somos o defesa suplente. Numa festa Hop engata a rapariga ou o rapaz mais giro e tudo o que nós conseguimos é que nos vomitem em cima sem que isso seja uma parafilia. Hop é o “Topper” Harley e nós somos o “Wash Out” Pfaffenbach. Hop é o Fernando Pessoa e nós somos o Ângelo de Lima.

Tudo isto num jogo em que a Game Freak está num meio termo incómodo entre o ter enredo e o não ter, numa reflexão que deixaria a Lili Caneças orgulhosa. A história, quase inexistente, é constantemente interrompida com diálogos sensaborões. Sabem com quem? Isso mesmo. Com o Hop. Se estivermos a falar com a menos de uma dezenas de personagens realmente reconhecíveis, o Hop aparece e interrompe. Aliás, provavelmente, pelos olhos dele, ele vê-nos a falar com um personagem e isso permite-lhe fazer o trigger que avança o jogo. 

Se algum dia sentirem que o The Truman Show é inverosímil pensem na conclusão que vos trago: todos os caminhos estão feitos para ir dar ao Hop, nós somos apenas um figurante que vai acenando. E que, spoilers à parte, no fim acaba por ser ele o Campeão.

Não podes ter tudo, Hop.