Era uma vez um mundo onde não existiam suficientes jogos de tabuleiro feitos por game-designers femininas, que por acaso era o mesmo mundo onde não existiam jogos de tabuleiro suficientes sobre pássaros e por mera coincidência calhou de ser o mundo onde nem sequer existiam jogos decentes feitos por mulheres e sobre pássaros.

Então Elizabeth Hargrave pensou, que bonito ninho nicho que está aqui para aproveitar, vamos fazer um jogo sobre pássaros! Porque eu até gosto de pássaros e quero que as pessoas percebam que dá para fazer jogos sobre pássaros, assim toda a gente aprende sobre pássaros e eu ganho mais dinheiro para estudar mais um pouco os ditos pássaros (sim, ela só fala de pássaros).

Como vou eu conseguir fazer o melhor jogo de sempre sobre pássaros? – pensou Elizabeth – Então, fácil! Vou falar com o game designer/distribuidor mais conceituado que encontrar e obrigá-lo a fazer comigo um jogo de alta produção sobre pássaros.

Depois vou usar todos os meus conhecimentos aviários que finalmente vão ser úteis para alguma coisa e pôr os jogadores a aprender sobre pássaros enquanto se divertem a jogar um board game… sobre pássaros.

Isto não me pareceu uma cadeia de pensamentos que fosse ter grande sucesso, principalmente porque o interesse na cultura aviária não deve ser o mais elevado nos tempos que correm… Depois vai-se ver e Wingspan foi o vencedor do jogo do ano entre inúmeros outros prémios.

Digamos que Wingspan é um grande jogo, daqueles amores que nem sequer são à primeira vista, é daquelas paixões que começam ao ver a fotografia de perfil no Facebook, ou alguma melhor tirada no Instagram. Mal tiramos Wingspan da caixa um só olhar para todas as cores e toda a qualidade dos componentes espanta qualquer um. Admito que não me lembro sequer de ver um jogo sem miniaturas tão bem elaborado, portanto tiro o chapéu à editora Stonemaier Games.

Desde os ovos que são de várias cores apenas para serem mais bonitos (se bem que acredito que aproveitem as cores para alguma mecânica numa expansão futura), aos coloridos tabuleiros de jogo, passando pelos dados de madeira, e o melhor de tudo, o componente mais espectacular e desnecessário (desde aquela peça enorme de plástico em Santorini): o alimentador de pássaros que é uma torre de lançamento de dados.

Sim, Wingspan é uma prova de que fazer apenas os componentes necessários para o jogo ter um preço mais baixo não é a melhor abordagem.

Wingspan é um jogo de um género chamado Engine Building, onde começamos com o nosso aviário que não faz lá grande coisa porque não temos pássaros, e (esperamos nós) acabamos com um aviário cheio de pássaros e ovos que interagem entre si de maneira a gerar o maior número possível de pontos no final do jogo.

Apesar de ser um jogo jogado por turnos, (onde cada jogador tem que esperar pela sua vez e pouco ou nada interage com o jogo nos turnos dos adversários), Wingspan não sofre o temido mal deste estilo de jogo que é o, “vou só ali fazer o jantar enquanto não chega a minha vez”.

Todos os turnos têm apenas uma ação, que pode desencadear algumas reações em cadeia, que são bastante rápidas, instantâneas e intuitivas de executar, mesmo com jogadores que nunca tinham jogado, o jogo flui bastante rápido, pois está desenhado de maneira a que a complexidade não exista nos primeiros turnos (não temos pássaros para activar, então apenas executamos as ações básicas).

As ações resumem-se em colocar um pássaro no seu habitat (pagando o seu custo de alimentação), ganhar comida (porque os pássaros não são propriamente agricultores ?), pôr ovos (sim, on-demand, como quem chega ao aviário e diz OUPA QUE NÃO SE FAZEM OMELETES SEM OVOS), e comprar mais cartas com pássaros (imagino que é porque é no baralho que está a cegonha e quem traz os bebés é ela, palavra da minha mãe).

Encadeando estas ações vamos aumentando o número de passarinhos que temos disponíveis, e aí é que começa a chiadeira.

Cada pássaro tem pelo menos um habitat, um tipo de ninho, a sua comida de eleição, quantos ovos põe, E TUDO ISTO É BASEADO NO ESTUDO DE ELIZABETH HARGRAVE (no estudo feito por ela, estudarmos a senhora não nos revela grande coisa sobre os habitats dos pássaros).

Os jogadores têm que activamente procurar conhecimento para optimizar a sua estratégia de jogo. “Como assim, este pássaro não tem ninho na carta?” – pensava eu, depois fui ler a descrição e é um pássaro que na realidade tem o síndrome de pai que não assume o filho, e deixa os ovos nos ninhos dos outros, e o seu poder na carta também reflecte isso, é esta a genialidade de Wingspan.

Não vou entrar em mais detalhes sobre regras e gameplay, mas pareceu-me extremamente versátil e balanceado, já vi gente a ganhar com várias estratégias diferentes, desde montar uma quinta de produção de ovos, a simplesmente construir um bando interminável de pássaros, até gente que escolheu os predadores e andava a comer as carcaças dos pássaros descartados (#NATUREISMETAL).

Existe também um modo single player, mas eu ainda não quebrei essa barreira de jogar board games sozinho, portanto … é isto.

EM SUMA!

Se procuram um jogo simples de aprender, mas complexo de jogar, com uma arte e componentes de tirar a respiração ao maior aficionado de pecinhas de madeira, Wingspan é a vossa escolha ideal para este natal. Eu tenho a versão original em Inglês, obtida literalmente no dia anterior à DIVER anunciar a edição portuguesa, que já está disponível por um preço ridiculamente baixo (pelo menos foi no lançamento) de 39,90€ (e sim, eu disse isto ao editor da Diver que podiam ter posto o jogo no mínimo 10€ mais caro que duvido que fosse vender menos cópias… isso e anunciar no dia antes e tinham ganho mais 40€).

EXTRA: Se quiserem um fantástico podcast com a autora deste jogo, sobre o género de jogo e sobre como trazer mais mulheres para o board game design, aqui estão os links:

1: Podcast mais longo sobre a criação de Wingspan

2: Curta passagem sobre como atrair mais mulheres para o Board game Design