Pokémon Sword e Shield já estão no mercado há quase um mês, pelo que me parece relevante optar por trovar a minha cantiga de amor no decurso desta análise.

Tinha nove anos e recebi no Natal aquela que é ainda hoje a melhor memória de uma prenda de sempre – um GameBoy Color. Lá mais perto do meu aniversário em Abril de 2001 seguinte convenci quem de direito a trazer uma versão Vermelha do supermercado, depois de já a ter jogado 28 vezes à boleia dos amigos.

Depois joguei mais umas 28.

A geração seguinte – que em Portugal já não me lembro bem se foi logo em 2001 que ficou disponível – já envolveu chorar baba e ranho ao meu pai para jogar a versão Dourada. E mais uma vez fiz umas 27,9 campanhas (a última interrompida pela raiva do meu Mewtwo da versão Vermelha ter ficado preso no link cable de um amigo).

Que relevância tem esta cantiga? Pokémon ocupa um lugar assumidamente excessivo no meu coração e os senhores da Game Freak sabem bem o que por ali vai:

Pokémon Sword/Shield é um jogo absolutamente adorável.

Sentem-se, tirem os sapatos e sintam a relva debaixo dos vossos pés

Cantiga de amor

Foi a primeira vez que escolhi o meu parceiro Pokémon num ecrã de TV (fiz mera visita de médico na demo do Let’s GO). Toda aquela pitoresca aldeia onde o nosso jardim lembra a casa de Bilbo Baggins, o ambiente colorido de Galar em que os NPCs dizem mate, cheerio ou bollocks, chegar a um pedaço de relva e ter uma amostra de criaturas bebés perfeitamente equilibrada e variada para que possamos começar a nossa aventura…

hummmmm. Soube tão bem.

Rapidamente percebo que nunca mais quero andar pela relva sem ver aquelas criaturinhas aos saltos e às vezes atrás de mim. A Game Freak também me enche os bolsos de pokédólares para eu poder vestir adequadamente o meu personagem: lembrem-se que este é um mundo justo onde a frivolidade do pronto-a-vestir é etiquetada como luxo e pokémedicamentos têm um preço acessível.

A história leva-me a atravessar um pedaço da nova Wild Area, uma expansão de natureza em mundo aberto onde encontro um Onix de tamanho credível do qual ainda não me convém aproximar. Tudo para chegar a Motostoke, a primeira grande metrópole.

Neste momento continuo a sorrir.

South Bank com Estádio de Wembley em plano de fundo

Eu avanço e mais uma vez as boas memórias ecoam em tudo o que encontro: recantos na cidade, pessoas com quem interagir, ideias adoráveis por todo o lado. Tudo está perfeitamente dentro do que gostaria até ao terceiro ginásio.

Só que eu não vivo debaixo de uma pedra. Já lera que Sword/Shield teria cerca de metade de todos os Pokémon existentes e gráficos assim-assim. Acontece que como há ali amor, isto passa para segundo plano.

É mesmo isso, tudo o que vês é a parte navegável de Sword/Shield

Cantiga de escárnio

É à medida que Pokémon Sword/Shield se desenrola que as coisas começam a não bater certo. Os meus adoráveis starters passaram por algo entre as irmãs Olsen (pouco grave) e Michael Jackson (muito grave) e ao crescerem perderam todo esse charme.

Mas como há ali amor, prefiro pensar que o diretor de arte, James Turner, fez um fantástico trabalho no restante elenco de Galar, em que há seguramente criaturas das quais me irei fazer acompanhar durante anos.

A dada altura a minha equipa de seis está um bocadinho crescida para o que o jogo me desafia. Mas como há ali amor, eu arranjo mais seis compinchas em constante rotatividade, não uso experience candies (a concessão da franquia à era do smartphone) e a coisa lá se equilibra ao ponto de as derradeiras batalhas não serem ganhas à primeira.

Ginásio após ginásio – enumeração cada vez mais rápida em tempo de jogo a partir do terceiro – o amor deixa de esconder tudo: a Wild Area quase só tem os Pokémon que já conhecia e não tenho vontade de apanhar outra vez, aquelas texturas grosseiras tornam-se mais gritantes num televisor ou as adoráveis criaturas passam as batalhas a ensaiar para a Tuna.

Pokémon gordo, a mim não me convém…

E se o amor não esconde, não é por isso que desaparece. Não ter de criar Pokémon para navegar agilmente pelo mundo via Hidden Machines é um descanso. Ter mais e variados Technical Machines – reutilizáveis e descartáveis – que nunca é um luxo. Ter pequenos puzzles em cada ginásio que são realmente variados (já nem peço que sejam difíceis) é um alívio. Galar, pese limitada no que à primeira vista parecia ser um mapa gigantesco, é lindíssima.

Então porque é que Pokémon Sword/Shield é aborrecido?

Cantiga de maldizer

Cada pedaço entre cidades fez-me sentir em peregrinação a Fátima – sim, até há imensos NPCs pelo caminho para vos curar as feridas. Só que depois certas cidades pareceram mais Zanarkand do que o Santuário de Nossa Senhora, de tão pequenas e desoladas, incluindo uma que é apenas uma rua escura a direito até à batalha de ginásio.

Cada batalha de ginásio é antecedida por um interessante puzzle. Pena que as batalhas em si terminem sempre da mesma maneira, com o adversário a insuflar o seu último Pokémon para uma nova forma (chama-se Dynamax genericamente, neste caso Gigantamax pela nova forma) que ganha uns pontos de vida e uns ataques porreiros (e foi para isto que deixámos de ter Mega Evolução e Z-Moves) durante três turnos. “Ah que fixe, também tenho esta criatura do líder de ginásio, se a insuflar fica com este aspecto incrível?“. “Não não, para isso tens de aturar probabilidades ínfimas de encontrar uma versão insuflada da criatura para capturar e não a podes criar do zero, tens de a usar assim para chegar aquela forma“.

Wailord e seu treinador Dynamaxed

Cada pedaço de história (em itálico para se perceber a liberdade que tomo em utilizar o termo) me fazia gritar para o ecrã a pedir uma dobragem que fosse (só umas falas Game Freak, que isto de arranjar actores para videojogos já não é só moda) e ter saudades do enredo de X/Y ou Sun/Moon.

Cada incursão pela Wild Area – que se faz de bicicleta em minuto e meio de um lado ao outro – me fazia revirar os olhos sempre que revirava a câmara, para logo entrar numa cidade, que visualmente deixa a anterior para um canto, e não o poder mais fazer.

Um terreno muito Xatu

Mas esperem! Podemos acampar com os Pokémon. E cozinhar-lhes caril. Mas só caril, que estes senhores sofrem do mesmo que eu na hora de me lembrar que fazer para o jantar. E portanto se não há Pokédex a 100%, vamos dar à malta uma Currydex. Só que como SÓ HÁ CARIL, às vezes temos de ter lá algo como “Caril com chantilly”.

O autor foi incapaz de produzir uma legenda para esta imagem

Cheguei ao fim de Pokémon Sword/Shield e pensei que não queria mais aquilo para a minha vida. Se calhar chegaram a este parágrafo e pensam que é um jogo péssimo. Não é. É bonzito na verdade. Mas o que esperam que diga quando falo de algo que amo? Não esperem isenção ou estoicismo. Pokémon Sword/Shield não são responsáveis pela fome no Mundo, mas sim por me partirem o coração.

Os mais atentos às aulas de Língua Portuguesa no secundário estarão a pensar onde entram as cantigas de amigo neste trio. Sabem que mais? Não entram. Pokémon mantém o meu amor, mas a amizade está comprometida.