Depois de uma pequena pesquisa pela internet, percebi que apesar dos efeitos da cristianização na Europa de Leste e nos países eslavos, ainda existem resquícios da memória do demónio principal do paganismo mitológico da região. Boruta era a figura do folclore que antecedeu ao grande adversário do Cristianismo, que tem tantas formas de ser enunciado mas que para muitos é simplesmente o Diabo ou traduções similares.

Este exercício de pesquisa mitológica prende-se com uma tentativa infrutífera de fazer uma piada com o facto de que o estúdio Breadcrumbs Interactive tentou criar o seu Diablo eslávico sob os ombros de um herói improvável, o herói improvável e ferreiro amaldiçoado com má sorte que é o protagonista deste jogo: Ivan.

Para Ivan tudo corre mal. O czar foi amaldiçoado pela própria Baba Yaga que lhe indicou que enquanto Ivan estivesse perto de si, o contagiaria com o seu azar, o que o obriga a enviar o ferreiro para missões aparentemente impossíveis que fariam o Ethan Hunt arrepiar-se de medo. Somemos a isto tudo o facto de Ivan ter perdido um braço e de ser assolado por calvície, para além de que todos os seus utensílios se partem quando ele os usa.

A sua avó, com toda a clarividência da idade, tem uma ideia: porque não ir à floresta e pedir ajuda à raiz de todos os problemas do czar, a própria Baba Yaga? E é aqui que começa este Diablo tecido com folclore eslavo. 

Apesar de na sua base e funcionamento ser um action-RPG a inclusão do conceito de azar é mais do que um subterfúgio narrativo, mas uma mecânica que influencia e muito o nosso percurso. No ecrã temos uma barra de azar que se vai enchendo e que nos vai dando bonificações de XP, mas que ao ficar preenchida faz surgir Likho, a entidade que nos assombra, e que nos pode destruir parte do equipamento e roubar o nosso dinheiro. 

A abordagem roguelike (tão em voga nos dias de hoje) tem uma especial evidência no próprio Ivan, que ao morrer tem a possibilidade de ressuscitar com menos vida, sendo que à segunda vez que morder o pó vai mesmo morrer definitivamente, perdendo o equipamento e os buffs que for amealhando pelo caminho.

Do ponto de vista narrativo, as escolhas e o tipo de respostas que damos vão criar subdivisões nos buffs e upgrades disponíveis durante e depois de cada missão. As opções são óbvias, até pela iconografia que as acompanha, e variam, dentro de quatro hipóteses, entre o egoísmo e a imbecilidade.

Um dos grandes selling points deste Yaga é mesmo a sua direcção artística: desde a arte totalmente desenhada, pintada e animada à mão, e a música e voice acting, que acompanham todas as linhas de diálogo do jogo.

Mas é o humor e a auto-consciência de Yaga aliados ao folclore eslavo que fazem dele um action RPG completamente diferente de todos os outros. Um jogo cujo loop mecânico pode ser excessivamente curto (especialmente se o nosso desempenho em combate estiver abaixo do esperado), mas onde o enredo hilariante vai conseguindo pautar com sucesso o tempo que lhe dedicamos.