Culpemos a gripe que me deixou de cama na semana antes do Natal e que me atrasou tudo aquilo que queria ter feito e não consegui fazer, mas estou agora, quase às 14h do último dia do ano (e da década, para alguns, mas nem vou entrar nesse celeuma apesar de concordar que amanhã estamos numa nova década) a escrever o meu top do ano. Um ano que não foi extraordinário para a maioria das pessoas mas agora que faço uma retrospectiva percebo que joguei muita, muita coisa boa.

Por outro lado relembro que visto que somos uma redacção, e apesar de eu jogar largas dezenas (centenas?) de jogos por ano, muitos dos bons títulos que facilmente figurarão no top da maioria dos críticos e jogadores estão ausentes do meu top precisamente porque não os joguei. Falo especialmente de Day’s Gone, Sekiro, Control e Star Wars: The Fallen Order. Mas ainda assim, tive o prazer de jogar muitos, muitos bons jogos.

Sem mais demoras, e por ordem, aqui vai a minha lista.

15. Wargroove

WarGroove: de Fire Emblem a Advance Wars numa só viagem

Num ano em que Fire Emblem recebeu mais uma sequela que foi quase universalmente bem recebida (aparentemente, menos por mim), coube ao pequeno gigante estúdio Chucklefish de conseguir trazer o meu jogo favorito do ano dentro do género. Wargroove é uma maravilhosa homenagem à essência dos jogos da Intelligent Systems, e atrevo-me a dizer que feito de forma mais “pura” do que o estúdio que notabilizou o género o está a fazer.

14. A Plague Tale: Innocence

A Plague Tale: Innocence, a fragilidade e o medo de mãos dadas

Este foi um grande ano para a francesa Focus Home. os seus lançamentos foram discretos, mas parece-me que finalmente encontraram o seu scope ideal, e os estúdios com quem costumam trabalhar finalmente começam a cumprir o tremendo potencial das suas criações. A Plague Tale: Innocence é um tremendo jogo de acção furtiva inteligente com um enredo coeso e merece figurar em qualquer top do ano, dada a forma como conseguiram transparecer a fragilidade dos protagonistas num mundo hostil, de forma palpável.

13. The Surge 2

The Surge 2: à terceira tentativa, um jogo obrigatório

Nunca imaginaria que num top 15 de melhores jogos do ano teria dois jogos seguidos da Focus Home. Muito menos de perceber que finalmente num top de melhores jogos do ano incluiria um soulsborne, mas The Surge 2 merece o destaque. À terceira tentativa de fazer um bom jogo do género, o estúdio alemão Deck13 conseguiu criar uma experiência desafiante coesa, interessante, orgânica (dentro de todas as alterações cibernéticas), com um sistema de combate e melhoramentos do nosso personagem que fazem dele uma das jóias discretas de um género onde a FromSoftware continua a ser rainha e senhora.

12. Sayonara Wild Hearts

Aproveito para fazer a correcção do que afirmei no último Split-Chicken: Sayonara Wild Hearts não é um exclusivo Apple Arcade (ainda que tenha sido lá que o joguei), mas é uma das experiências arcade mais interessantes que joguei. Uma mistura de endless runner com rhythm game, com um enredo que vai buscar uma aura de 1980 com o género magical girl, há tanto de original a acontecer em Sayonara Wild Hearts que basta olharem para o trailer para perceberem que as cerca de 2 horas de pura magia que o jogo nos oferece são momentos de pura genialidade inesquecível.

11. The Outer Worlds

Acho que todos os anos tenho um jogo que jogo ao cair do pano e que entra de rompante para o meu top de melhores jogos do ano, e o título deste ano a consegui-lo é The Outer Worlds. O mais recente jogo da Obsidian é um FPS RPG futurista, com um tremendo enredo cheio de escolhas onde as nossas decisões têm impacto real na galáxia. Talvez o que mais gostei em The Outer Worlds é que, ao contrário dos jogos similares da Bethesda, a sua contenção temporal (e especial) permitem criar momentos mais memoráveis e impactantes, em que cada linha de enredo paralela se torna inesquecível no coopto de todo o jogo. À semelhança do que a Bioware sabia fazer, em tempos idos.

10. Tropico 6

Tropico 6: quem quer ser autoritário?

Caros confrades amantes dos city builders: este foi o nosso ano. Lançamento após lançamento o género foi estabelecendo novos patamares e ver a sexta iteração de uma série genial como Tropico a chegar e a revolucionar os city builders com pendor político foi um patamar de excelência do ano. Tropico 6 é um jogo obrigatório pela complexidade política que conseguiram fazer, elevando ainda mais a fasquia do que criaram nos jogos anteriores. E como dizia no podcast: rapidamente há de chegar a um bundle, e quando isso acontecer, comprem-no de imediato. Acreditem em mim.

9. Dragon Quest Builders 2

Dragon Quest Builders 2: construir um dos jogos do ano, bloco após bloco

Já tinha gostado muito do jogo original, que para mim soube repensar todas as características de um Minecraft, evoluí-lo e interligá-lo com o magnânimo universo criado por Akira Toryiama. Mas a sequela fez aquilo que poucos segundos jogos títulos fazem realmente: fazer step-up à sua própria fórmula, criar um enredo interessante num jogo complexo que nos mantém agarrados no seu sistema de construção ao longo de dezenas de horas, em capítulo memoráveis que se podem estender por mais de dez horas sem nunca serem monótonos. Dragon Quest Builders 2 é o derradeiro jogo de sobrevivência e construção na senda de Minecraft, e é, para mim, uma excelente porta de entrada para os mais pequenos para a maravilhosa  franquia que é Dragon Quest.

8. Trüberbrook 

Trüberbrook: a excelência no set de um filme de animação

As aventuras point-and-click (ou aventuras gráficas como eu de forma estóica lhes continuo a chamar) têm tido muito bons títulos todos os anos, mas raras são as situações em que algum jogo do género consegue elevar-se para o panteão dos melhores jogos do ano. Trüberbrook teve essa capacidade, primeiro por ter criado o entusiasmo ao mostrar que todo o jogo foi filmado num cenário de filme de animação, mas também por ter criado uma história, elenco e puzzles interessantes e únicos, algo que tem faltado a muitos jogos de um género que está a ter a sua segunda vida graças ao mercado indie.

7. Steamworld Quest

SteamWorld Quest: a excelência forjada a ferro e vapor

A inclusão de géneros típicos dos jogos de tabuleiro nos videojogos não é novidade, mas para mim, enquanto fã de jogos de cartas deck builders, ver estas mecânicas a chegarem ao mundo digital é uma tremenda maravilha. Este ano de 2019 começou a ter algumas propostas de videojogos deck builders em que Slay the Spire é aquele que tenho instalado mas que ainda não joguei, mas a coroa de melhor ideia de aplicação destas mecânicas vai mesmo para Steamworld Quest que consegue levar o universo de Steamworld para um sítio diferente: o mundo de fantasia medieval, num sistema de combate por turnos com deck building que permanece desafiante e interessante em todo e qualquer combate que façamos.

6. Draugen

Draugen: a balada ensurdecedora da solidão

Quem segue o trabalho de Ragnar Tørnquist sabe que desde o seu trabalho em Dreamfall que a sua mão preenche o espaço dos videojogos com obras eminentemente narrativas. Draugen é a sua mais recente proposta, um jogo auto-contido com apenas dois personagens que deambulam por uma pequena aldeia recôndita nos fiordes noruegueses. Draugen pode ou não vir a ter continuação, mas a sua pequena lenda de meia dúzia de horas de exploração permite-nos construir mentalmente as muitas vidas que habitaram aquela pequena aldeia abandonada. Draugen é indubitavelmente um dos jogos mais subvalorizados do ano, mas é também a obra mais madura de Ragnar, que atinge aqui a sua produção mais corajosa, e mais sólida.

5. Bloodstained: Ritual of the Night

Bloodstained Ritual of the Night: uma Sinfonia em crescendo

Ter o grande definidor dos metroidvanias a regressar agora a título individual, a ouvir as críticas dos seus early adopters e a fazer as alterações e contratações necessárias para que o seu novo jogo a solo possa cumprir o potencial estabelecido, é uma das razões para tirarmos o chapéu a Koji Igarashi. Bloodtsained: Ritual of the Night é o nosso regresso tantos anos depois a um dos melhores jogos do género, Castlevania: Symphony of the Night, e a um jogo maravilhoso que nos relembra porque é que há décadas estamos apaixonados por metroidvanias.

4. The Legend of Zelda: Link’s Awakening

Link’s Awakening: a revisita de sonho com paragem obrigatória

Perguntava-me se um remake tem “legitimidade” para ser um dos melhores jogos do ano, mas depois de casos passados terem-me comprovado que a resposta é um rotundo “sim”, faltava apenas Link’s Awakening chegar para me fazer perceber que esta pergunta nem se devia colocar. Este Link’s Awakening não é apenas uma delícia visual e um dos jogos mais bonitos da Switch, mas também o cumprimento de todas as homenagens que um dos melhores The Legend of Zelda (e um dos mais subvalorizados) merece. Continuo a achar que é o melhor TLoZ da nova consola e passadas algumas décadas muita gente tem finalmente a oportunidade para perceber porque é que até hoje figura no meu top 3 de melhores jogos da série.

3. Anno 1800

Anno 1800: Revoluções Industriais por Minuto

Há uns anos indiquei Cities: Skylines como o epítome dos city builders, mas hoje tenho que corrigir essa afirmação: Anno 1800. Uma série que nunca teve muita publicidade da parte da Ubisoft mas que iteração após iteração vai fazendo as maravilhas dos seus seguidores e dos fãs do género. Anno 1800 é o city builder mais complexo que já joguei, e aquele cujas mecânicas de construção, gestão, exploração, expansão e combate, apesar das intrincadas mecânicas, elevam o género para um patamar nunca antes visto.

2. Luigi’s Mansion 3

A Luigi’s Mansion in Darkness

Não é apenas por ser uma das séries menos “gastas” da Nintendo, mas é uma certeza quase garantida que o lançamento de um novo Luigi’s Mansion é um sinal de que algo profundamente bom, original e inventivo está a caminho. A terceira iteração da série de aventura e puzzles que coloca o manto do protagonismo sobre o eterno coadjuvante de Mario é também um dos melhores jogos da Switch: um jogo em que cada sala, cada piso, cada puzzle, cada boss fight e cada segredo resolvido são uma prova à infinita atenção aos detalhes que a Nintendo aplica nas suas criações. Luigi’s Mansion 3 ilumina 2019 com a lanterna do seu Poltergust como um farol, num ano em que poucos jogos atingiram o patamar em que este jogo atingiu.

1. Death Stranding

Death Stranding: um mergulho nas alegorias sensíveis da Morte

A minha maior surpresa do ano é a minha rendição a Hideo Kojima, autor que tantas vezes desdenhei por uma sensação de sobrevalorização desmedida. Death Stranding é a prova de que existe espaço mediático para que um blockbuster seja simultaneamente uma obra de autor. Descrever Death Stranding é um risco, mas depois de dezenas de horas num jogo que é ele mesmo uma alegoria sobre a ideia de morte e sobre as ligações que fazemos ainda em vida é indiscutível que aquilo que Kojima nos apresentou é uma obra de génio, inovadora, diferente de qualquer coisa feita antes, e que servirá de precursora para a próxima década. Death Stranding é um dos grandes jogos obrigatórios dos muitos jogos obrigatórios de uma consola que entra agora no seu último ano de vida e é ao mesmo tempo a melhor forma de fechar uma décadas de bons jogos no mercado dos videojogos.

Menções Honrosas

Creature in the Well: quando dungeons e pinball colidem

Se o mercado AAA esteve tépido tirando algumas excepções, foi mesmo o mercado indie a agraciar-nos com muitos bons jogos. De entre as centenas de indies que joguei este ano ainda falta atribuir uma menção honrosa a tantos outros, tão bons, como Little Big Workshop,Creature in the Well, Flotsam, TINY METAL: FULL METAL RUMBLE, Katana Zero, Foundation, Unruly Heroes, Bladed Fury, Rehtona, Tangle Tower e Neo Cab.

Melhor jogo de VR

Blood & Truth: o mundo pelos olhos de Guy Ritchie

Apesar de não ter jogado muitos jogos de Realidade Virtual este ano (ou pelo menos jogos que se tivessem destacado de tantos outros), diria que Ghost Giant e Blood & Truth, pelas suas componentes narrativas tão distintas, são do melhor que o VR nos oferecer este ano.

Melhor jogo mobile

Antes de mergulhar nos jogos que “fizeram” o meu ano, deixem-me reiterar que para quem tem dispositivos iOS, o serviço Apple Arcade é um tremendo investimento. Os dois jogos que mais gostei de jogar em mobile estão incluídos no serviço, ao lado de dois outros que figuraram nas menções honrosas. Sayonara Wild Hearts já foi indicado no meu top, mas Grindstone, o regresso da Capy aos puzzle games, é um dos melhores takes de um género que parecia já estar gasto mas que recebeu aqui um novo fôlego e um novo interesse.

Melhor jogo portátil (para Switch, que é com o quem diz)

De entre tantas hipóteses, diria que a portabilidade e a oportunidade de jogar pequenos trechos de jogo na Switch, em qualquer lado, evidenciaram a qualidade de jogar Steamworld Quest e Dragon Quest Builders 2, dois títulos que permanecem instalados na minha consola e que volta e meia são “revisitados” em lampejos curtos de jogo.

Surpresa do Ano

Ring Fit Adventure: um anel para os emagrecer a todos

Death Stranding, jogo para o qual tinha expectativas negativas e que me arrebatou, mas também mais um mergulho da Nintendo num ambiente diferente e o seu regresso aos jogos de exercício físico com Ring Fit Adventures, que consegue aliar de forma genial o desafio de um jogo de aventura com o fitness de forma dissimulada. Uma jogada de génio, Nintendo, e que espero poder regressar para queimar as calorias extra da época festiva.

Melhor jogo familiar

Crash Team Racing Nitro-Fueled: corridas para duros de roer

Apesar de Super Mario Maker 2 e Yoshi’s Crafted World serem do melhor que a diversão familiar poderia esperar em 2019, acabaria por ser um remake, Crash Team Racing Nitro-Fueled a garantir-nos muitas e boas horas de gargalhadas e cotoveladas aveludadas no sofá, num jogo divertido e competitivo que é uma verdadeira alegria para toda a família.

Melhor jogo competitivo

Mortal Kombat 11: encerrar a sangue um arco dourado

Num ano em que os jogos de desporto andaram entre as ruas da amargura e as avenidas do meh, Mortal Kombat XI surgiu com uma verdadeira fatality para com os restantes concorrentes, não dando qualquer hipótese num 2019 que foi um quase marasmo de bons jogos que criem competição entre os seus jogadores. O terceiro jogo do reboot de Mortal Kombat prova porque é que a série é, para mim, a melhor de luta desta década.

Desilusões do Ano

Pokémon Sword/Shield: de Estocolmo, com amor

Aqui vai uma tremenda ironia: a minha maior desilusão do ano é possivelmente o jogo que mais joguei em todo o 2019, e que apesar de ter saído em Novembro já me permitiu ir para a 4a playthrough (por razões que expliquei no Split-Chicken). Pokémon Sword & Shield é uma oportunidade perdida e um passinho de bebé numa série que poderia dar um salto de gigante agora que chega ao ecrã da sala graças ao ambiente híbrido da Switch. Mas não. É apenas mediano.

As outras duas desilusões prenderam-se com Fire Emblem: The Three Houses, um jogo que se perdeu a tentar ser um Trails of Cold Steel menos interessante e que me matou o entusiasmo com a série, por enquanto, e Marvel Ultimate Alliance 3 que não chegou a saber bem o que é que queria ser.

Melhor jogo deste ano e afinal não é deste ano

Dragon Quest XI: quando a palavra “definitiva” encontra a sua razão de ser

Dragon Quest XI Definitive Edition fez-me parar o meu ímpeto de jogar a série Dragon Quest desde o início pelo simples facto de ser tão bom, que me faz saltar do primeiro para o décimo primeiro, e sentir que se há um jogo que merece o título de JRPG “melhor” e “obrigatório” na Switch é mesmo o último Dragon Quest. Já o jogaram? Deviam jogá-lo. Percebem automaticamente porque é que apesar de Final Fantasy ser mais conhecido, é mesmo Dragon Quest quem criou e soube manter o género num elevado patamar de qualidade ao longo de mais de trinta anos.

Piores do ano

PixARK: menos que um cruzamento entre Minecraft e ARK

Sem grandes rankings para perceber quais os piores jogos do ano, mas PixARK, Generation Zero, Fade to Silence e The Lego Movie 2 Videogame são, pelas razões indicadas nos respectivos artigos, os piores jogos que joguei este ano, especialmente por todos eles darem a sensação que poderiam ser muito melhores do que as versões lançadas para o mercado.

Melhor Board Game

Num ano em que comprei mais do que joguei, Dice Throne Season 2 foi a minha maior surpresa, num jogo que mistura competitividade, que mistura combate com personagens únicos através de cartas e dados. Esta é uma explicação simplista para o jogo de tabuleiro que mais me entusiasmou, mas o artigo que estou a preparar há de explicar melhor o porquê da minha escolha.

O melhor jogo feito em Portugal vai mesmo para o Porto, de Orlando Sá, que tem sido um dos nossos companheiros de domingo à tarde, e que mistura mecânicas simples de explicar com um jogo rápido e altamente competitivo, mas acessível a todos, e cujo artigo, tarda, mas não falha, já em Janeiro.

Melhores álbuns

E já que quase todos os episódios do Split-Chicken trago sugestões de álbuns de música, deixo-vos o meu top do ano, repleto de prog metal/rock, e onde falta a Céline Dion por motivos que já expliquei.

1. In Cauda Venenum, Opeth

2. Pitfalls, Leprous

3. Lotus, Soen

4. The New Routine, Port Noir

5. Empath, Devin Townsend

6. Colours in the Sun, Voyager

7. The Bell, iamthemorning

8. Universal Chaos, Rendezvous Point

9. Flowers at the Scene, Tim Bowness

10. Le Grand Voyage, Klone

11. Seven Seas, The Barock Project

12. Grand Tour, Big Big Train

13. Spiritual Instinct, Alcest

14. You Know What They Mean, Bent Knee

15. Terraformer, Thank You Scientist