O ano de 2019 foi muito intenso pelos maus exemplos que vimos na indústria, mas ao mesmo tempo surgiram muitos exemplos bons que adivinham uns ventos de mudança e que acabaram por equilibrar aquela onda de mau estar que em alguns momentos se foi formando.

Em 2019 a Activision ainda estava presa a uma visão já ultrapassada

Os sinais que a indústria pode chegar a um ponto de crise existem mas não podemos ter uma visão de túnel, os bons exemplos estão-se a sobrepor aos maus e estão a mudar a forma de pensar de quem manda nestas grandes editoras.

A Capcom aprendeu a fazer bom uso dos ips mais queridos dos seus fãs e ganhou com isso culminando com o lançamento do remaster do Resident Evil no ano passado

A Capcom que até recentemente era apelidada de “Crapcom conseguiu mudar a sua imagem junto do mercado e até mesmo nota-se o desejo de mudança na EA o grande Belzebu dos videojogos.

Já 22 anos se passaram desde 1998, o ano dos anos para os videojogos, aquele que foi o mais farto em títulos que hoje são clássicos, e o que é curiosos é que ainda está para nascer o ano que o supere em numero de jogos que se tornaram clássicos e verdadeiras obras de arte! Este é um ano que dispensa apresentações, o que necessita duma atenção é o jogo Heretic II.

Uma experiência que correu bem apesar de ter sido ofuscado por títulos que fizeram maior impacto na indústria. A qualidade do jogos não está em causa e é um bom exemplo mesmo para os padrões de 1998 e uma lição de retrospectiva que a Activision deve fazer.

Desde o primeiro os elementos de fantasia permaneceram fiéis ao imaginário original

Porque o que falta mesmo este ano é que a Activision mude a sua estratégia sobre o pretexto de ano para ano tornar-se mais irrelevante e um dia sumir quando a sua vaca de ordenha morrer. Hoje não se consegue falar de Activision sem que venha o título Call of Duty atravessar-se na garganta, uma editora que teve muitos outros IPs de sucesso e foi matando-os um a um, não se preparou para o futuro, mas tem-nos todos presos num “cadafalso”.

Heretic II tinha inclusive um modo multiplayer constituído por arenas de deathmatch onde podíamos desmembrar outros jogadores! Os servidores continuaram por muitos anos e ainda se podem encontrar servidores privados ainda com alguns players!

Heretic é um dos Ips que fazem parte do mundo de Hexen, este último com maior notoriedade mas também abandonado a favor dum modelo de negócio mais básico focado em pouco menos de meia dúzia de franchises que estão a ser mais explorados do que um freelancer por uma multinacional.

A Raven Software desenvolveu umas quantas franquias umas para a id e mais tarde depois para a Activision agora a sua casa mãe

O background da Activision é fácil de seguir encontram-no na internet muito facilmente, um pequeno estúdio que se livrou das garras da Atari lá pelos inícios dos anos 1980, para ser independente e desenvolver jogos inovadores e originais.

Hoje é um monstro de editora que só tem feito porcaria e enveredou pela via mais fácil de atrair viciados das apostas e que coloca os seus estúdios mais capazes a trabalhar em Call of Duty, o que aconteceu com a Raven Software que foi desbaratada e sangrou de bons profissionais.

Os diálogos contam-nos a história e mostram as pontas soltas no mistério por resolver na pele de Corvus

Heretic II foi o primeiro jogo que mudou a minha forma de apreciar um videojogo, foi uma experiência que surgiu ao acaso, comecei a jogá-lo mais ou menos por esta época de Inverno, Janeiro ou Fevereiro não me recordo, mais ou menos um ano após ter saído e após ter jogado a fundo por diversas vezes a demonstração jogável.

Janeiro é uma altura do ano propensa a muito frio, nevoeiro e pouca chuva é o mês do frio e foi assim que passei vários dias a jogar Heretic II, por coincidência todo o ambiente do jogo passa-se num mundo frio e sombrio, tal como Janeiro e isso ajudou a transformar a experiência mais envolvente!

O ambiente dos cenários é envolvente

Ainda hoje quando saio numa noite de Janeiro de céu quase limpo com a lua lá no alto me lembro desta experiência que tive com o jogo e só isso atesta o poderoso ambiente de Heretic IIJá tinha falado que 1998 foi um ano unicamente excepcional, jogos como Half-Life fizeram-lhe sombra mas nem isso impediu que se tornasse uma pérola meio que escondida, com muita qualidade.

Heretic II apesar da mudança de género e perspectiva segue e continua a historia, começa onde terminou o primeiro.

Possivelmente não teve a mesma popularidade que outros jogos pelo género, mesmo dentro das suas origens fugiu ao conceito tradicional de primeira pessoa como o primeiro Heretic e o Hexen, e os produtores tentaram novas ideias. No PC este género não era inexistente mas era incomum e pouco popular, teria tido mais sucesso nas consolas, mas ainda assim saiu.

Um Hack ‘n Slash ainda meio desengonçado mas também por culpa das limitações técnicas da altura, o motor de jogo escolhido era um dos mais usados, o Quake Engine que ainda hoje serve de base para outros motores de jogos modernos como o próprio Call of Duty, até no “net code” do jogo.

A experiência é um pouco mais casual mas com bastante gore mas vista de Igual forma em jogos mais hardcore e tradicionais como Hexen e Doom, e claro o direito a desmembramentos em glorioso verdadeiro 3D. 

O maior foco é uma exploração de níveis mais ao estilo dum RPG não muito só mesmo o necessário para nos vermos na pele do personagem, uma boa colecção de armas e feitiços.

Desmembramentos e muitas combinações de magia esperam-nos toda a aventura do inicio ao fim

O que mais marca no jogo são os diálogos decentes e um dos poucos jogos que me lembro que preencheram a minha imaginação. O carácter da personagem é surpreendente, a forma como somos obrigados a resolver uma situação de perigo é ela também não inédita mas inspirada noutros jogos que na altura surgiram, a resolução de puzzles e combate de bosses é ele também inspirado, no jogo que era aclamado na altura, Tomb Raider.

Muitas situações lembram-nos Tomb Raider

Temos então aqui um híbrido de hack n slash com temática de fantasia medieval cheia de magias e poções magicas com um modo de combate e solução de obstáculos dum jogo de aventura como o Tomb Raider. A forma como isto foi conjugado tornou Heretic II num jogo quase perfeito e que até mesmo nos padrões actuais pode servir de exemplo de como nem sempre a ingenuidade pode ser má.

Quake engine criou uma família que ainda hoje cresce de motores de jogo e jogos baseados nas suas bases

O jogo é bonito apesar de ser recomendado que se jogue de placa aceleradora 3D coisa que era novidade na altura e hoje é já tida como presente, na altura o 3D era a nova fronteira a ser explorada e neste foi tudo bem caprichado.

Os diferentes capitulos são diferentes e muito diversificados

Do que posso dizer do level design é que este não é entediante como outros jogos do género: é simples, mas ao mesmo tempo interessante o suficiente para perdermos tempo a explorá-lo e vamos ter que o fazer dado que nele estão escondidos muitos itens necessários ao nosso progresso, como chaves para abrir portas, poções de vida e maná e outros segredos.

Quanto à narrativa o que posso dizer sem spoilar é que tive daqueles “mind blows” que temos em determinados desenlaces e que só tive outra experiência similar um ou dois anos depois com outro clássico ainda mais reconhecido, o Legacy of Kain: Soul Reaver!

Morcalavin faz o papel de vilão mas será?

Sei que nisto tudo a nostalgia faz o seu papel, mas como tudo as boas memórias são as que mais tempo ficam e são aquelas que mais fãs a um franchise conseguem cativar, e nisso a Activision necessita de reaprender novamente, e tem Ips que cheguem para reaproveitar. Corvus, o protagonista, é algo que a editora pode ressuscitar e voltar a ganhar para si um possível ícone rejuvenescido!

Dado que o jogo está num limbo que não se sabe se está abandonado, não pode ser comprado de forma legitima além de conseguirem arranjar ou não uma cópia original, o jogo não é raro mas é incomum, quem sabe um dia o encontrem no GOG para completar a colecção Hexen.

Corrê-lo em máquinas modernas pode haver uma certa dificuldade, mas dado que o próprio Quake Engine é bastante flexível é possível fazê-lo com poucas modificações.

Links para saberem mais sobre o jogo:

https://heretic.fandom.com/wiki/Heretic_II

https://www.gamasutra.com/view/feature/3341/postmortem_raven_softwares_.php?print=1

https://rpgcodex.net/forums/index.php?threads/getting-heretic-ii-to-run-on-a-relatively-modern-pc.109022/

http://www.hyperion-entertainment.com/index.php/games/heretic-ii?start=2