Quando as cartas de Pokémon chegaram a Portugal eu já estava com os pés na adolescência, e apesar de ser fã da série de videojogos, o jogo acabou por me passar ao lado. Isto sem me estar a armar ao pingarelho que a minha preocupação nos tempos livres (e não só) eram as minhas desventuras amorosas, como se fosse “demasiado velho” para me preocupar com um jogo de cartas. Nada disso. Aliás, tanto é que desde que descobri o jogo que adoro jogá-lo. Simplesmente por limitações financeiras acabei por nunca mergulhar no jogo. Mas consigo lembrar-me a euforia que os meus primos mais novos tinham com o jogo, similar à que a malta da minha idade e mais velha tinham com Magic.

Cardpocalypse é uma deliciosa representação do final dos anos 1990, a mimetizar num universo ficcional, com uma série também ela ficcionada, como era o espírito das crianças que viveram de forma tão entusiasta a chegada de um jogo de cartas coleccionáveis “direccionado” para a sua faixa etária.

Neste indie que cria o seu próprio TCG, a história reflecte isso mesmo. Controlamos a jovem Jess, que acabou de chegar a uma escola nova mas que consegue reconhecer nos seus colegas um elemento comum consigo: a paixão por Mega Mutant Power Pets.

Como jogo de cartas há muito neste Mega Mutant Power Pets que vai sendo apanhado de tantos outros, mas a maior influência é mesmo Hearthstone. Em MMPP escolhemos uma carta, que é o nosso campeão, e que tem 30 pontos de vida. O objectivo? Derrotar os 30 pontos de vida do campeão adversário antes que ele nos derrote. 

Uma ideia interessante (e que por acaso é uma das bases de Legends of Runeterra) é o facto dos campeões evoluírem para uma forma determinada quando uma condição é cumprida. No caso de Cardpocalypse, os champions evoluem quando estão abaixo dos 16 pontos de vida, o que é uma oportunidade para quem está a perder de criar maiores dores de cabeça a quem está a ganhar.

As restantes cartas que vamos jogando com o número de comida que temos por turno (em que comida aqui é equivalente a mana) vai-nos permitir jogar novos minions (alguns deles com taunt o que nos obrigam a destrui-los antes de podermos atacar o adversário, para além de uma panóplia de magias, algumas delas com um comportamento semelhante a cartas de armadilha.

Apesar de ser um single player indie game com TCG à mistura, Cardpocalypse, o novo jogo dos mesmos autores do genial Guild of Dungeoneering não dispõe de formas adicionais de comprarmos novas cartas com dinheiro real. Mal seria, para ser sincero, se um indie tão bem desenhado e tão coeso acabasse por cair no buraco escuro das microtransações, quebrando, a priori, qualquer potencial interesse sobre si mesmo.

Ao invés disso temos uma série de NPCs pelo recreio que têm novas cartas para trocarmos, sempre com uma razão de uma lendária valer duas raras, que por sua vez valem quatro cartas comuns. Visto que vamos obtendo doces e snacks, é possível negociar com alguns colegas de escola a troca de cartas em troca de comida para o lanche, o que só vem adocicar o tom de todo o jogo.

Levando ao extremo a ideia de um jogo de cartas que é um sucesso com crianças, Cardpocalypse inclui também a possibilidade de adicionarmos autocolantes sobre as nossas cartas, alterando não só os seus valores mas também as suas habilidades, criando uma customização interessante ao nosso baralho. 

Este sistema de trocas de recreio vai permitir-nos muito cedo ter muitas cartas diferentes, e criar mais do que um baralho para Jess utilizar no campeonato underground que existe na escola. Ainda não tinha contado esta parte? É que para além de ser mecanicamente delicioso e de prestar uma tremenda homenagem aos 1990s com toda a sua música e elementos representados, Cardpocalypse tem também um enredo interessante.

Logo no primeiro dia Jess consegue fazer com que os adultos banam o jogo da escola, o que a obriga – como resposta à sua tremenda paixão por MMPP – a criar o citado torneio underground do recreio, onde vamos progredindo à medida que a história do jogo se desenrola.

Cardpocalypse é um tremendo jogo disponível na Switch, PC na Epic Store e incluído no pacote do serviço Apple Arcade. Um jogo com um charme muito próprio, com uma tremenda atenção aos detalhes, e que envolve num enredo bem-escrito (sem ser surpreendente) um jogo de cartas divertido e desafiante. 

Para quem gosta de TCGs, Cardpocalypse mostra aqui uma forma de criar um TCG e envolvê-lo num jogo interessante. Diria que é obrigatório para partilhar com família, e à semelhança do que falávamos de Riverbond, talvez seja uma excelente forma de motivar o interesse dos mais novos em torno dos TCGs.