Há quem pense que Dark Souls é difícil. Desenganem-se, não é. Difícil é criar um filho, e fazê-lo bem. Sem nunca ter a certeza do que uma “bem” significa na realidade. 

Ciel Fledge: A Daughter Raising Simulator vem tentar raspar tangencialmente o que é a ideia de educar um filho, com a sua evolução do subgénero criado pelo jogo Princess Maker. Um título onde eu mergulhei há alguns anos e que me absorveu por muito mais tempo do que imaginaria.

Num futuro longínquo (que eu não sei se chegaremos) lá para 3700 e tal, a Humanidade abandonou a superfície do planeta e está sob ameaça de invasão de uma raça alienígena denominada GIGANT, cuja destruição de algumas cidades causou imensos refugiados, e muitos deles, órfãos. 

Cabe-nos a tarefa de adoptar uma dessas órfãs, uma pequena rapariga envolta em mistério (ou não fosse isto um videojogo) que temos de educar até à idade adulta. O primeiro passo envolve definir-nos o nosso próprio passado, desde o local onde nascemos até à profissão que tivemos antes de nos tornar-nos pais adoptivos, e estas escolhas vão influenciar as bonificações estatísticas que vamos ter neste parent simulator.

O segundo passo leva-nos a definir a semana da nossa filha, tendo em conta os gastos de energia de cada actividade que escolhemos que ela faça. Divididos entre estudo (que vão subir por si mesmas as estatísticas dela), descanso (onde recupera energia) e lazer (com actividades sociais que vamos desbloqueando à medida que a história avança). Depois de estabelecermos a sua agenda, os dias vão passando e vamos vendo (e resolvendo) os eventos que vão acontecendo em cada dia.

O direcionamento de “carreira” da nossa filha vai sendo assim definido com as escolhas lectivas que lhe atribuímos. Os problemas relacionais – que hão de ir sendo moldados pelos encontros sociais que definimos para ela – vão lentamente criando o seu círculo de conhecimentos e as demarcações das suas ideologias. 

Paralelamente a isto há um sistema de combate por turnos típico dos RPGs, mas que se manifesta num sistema de match-3. Este mesmo sistema não é exclusivo dos momentos de combate em que enviamos a nossa filha em missões perigosas (já falamos sobre isso) mas é também a forma de resolver testes escolares e conflitos sociais. O sistema em si é parece ser mais complicado à primeira vista do que é na prática, mas masterizar os seus sistemas de interrupções, multiplicadores de dano e entrosamento entre personagens da party é algo que demora um pouco mais a conseguir.

Num sistema de pseudo dungeon-crawling, e após a nossa filha ter crescido alguns anos, podemos enviá-la em missões de exploração à superfície do planeta que invariavelmente vão pondo-a em risco (e que a podem matar), enquanto nós esperamos confortavelmente em casa para que ela traga loot. Não sei quem é que desenvolveu este jogo, mas era capaz de apostar que na vida real essa pessoa não tem filhos.

O dinheiro é um elemento importante em Ciel Fledge, já que é ele que condiciona não só a comida que ela tem disponível (cuja qualidade vai influenciar o seu crescimento) mas também a sua afeição por nós, já que levá-la às comprar e oferecer-lhe novas roupas (mesmo que pagas com dinheiro que ela arranjou nas suas explorações).

Com lançamento previsto para o final de Fevereiro, Ciel Fledge: A Daughter Raising Simulator é um jogo diferente, uma obra de nicho dentro do nicho, que tem alguns problemas técnico-visuais que eu não consigo ultrapassar. O maior deles todos é a solução dos personagens, nas sequências de diálogo à visual novel, aparecer em deslize lateral, quando poderia simplesmente fazer fade in e fade out como a Capcom faz nos seus Ace Attorney. Esta solução técnica evidencia ainda mais a fragilidade visual de um jogo que apesar de ter uma abordagem estética inspirada nos anime, tem figuras demasiado unidimensionais, tanto artística como narrativamente, e que tornam a tarefa de reconhecer o elenco uma verdadeira provação. Para além de contar com 23 finais possíveis que dependem do tipo de pessoa a nossa filha vai ser.

Mecanicamente interessante, com bons elementos de gestão de um tycoon e management game aplicado a uma pessoa, Ciel Fledge: A Daughter Raising Simulator não é um jogo para todos, mas é uma boa aposta para todos aqueles que se sentem eles mesmos órfãos da série Princess Maker, e querem continuar na mesma senda da famosa série.