Cerca de 70 mil fãs de Shenmue responderam afirmativamente à campanha de crowdfunding do Kickstarter lançada por Yu Suzuki, o lendário diretor da SEGA, para dar continuidade à senda de Ryo Hazuki enquanto procurava descobrir o autor do homicida do seu pai. O primeiro título, lançado na Dreamcast em 1999 teve um orçamento estimado em 47 milhões de dólares e foi considerado um dos jogos mais caros de sempre para a época. Mas o jogo, e respetiva sequela, foram um flop de vendas, considerando também o pouco sucesso e morte prematura da consola da SEGA.

No entanto, os jogos tiveram uma excelente aceitação crítica e acabaram por ganhar estatuto de culto, e uma legião de fãs que “choraram” o cancelamento da continuação da história depois da sequela (que nem o lançamento na Xbox salvou). Foi preciso esperar quase 20 anos para Yu Suzuki voltar à história, abençoado pela própria SEGA que licenciou o universo à sua Ys Net e bastaram sete horas para angariar dois milhões de dólares no Kickstarter, batendo o recorde da plataforma. Quando a campanha acabou, tinham sido amealhados cerca de seis milhões de dólares, tornando-o o jogo que mais dinheiro fez na plataforma, e a sexta angariação mais bem-sucedida da história do Kickstarter.

Era um prenúncio de que, 18 anos desde o segundo capítulo, não fizeram esquecer a série. E o terceiro título, em tudo, mantém a chama acesa deste universo, para o bem e para o mal. Para quem não jogou os primeiros dois jogos, o estúdio lançou-os recentemente em formato masterizado, mas diga-se que não envelheceram bem, no que diz respeito às suas mecânicas, que na altura pavimentaram o chão para o sucesso de GTA 3 e outros jogos sandbox e repletos de atividades paralelas.

E Shenmue 3 não é assim tão diferente. Aliás, Yu Suzuki parece ter parado um pouco no tempo, e não terá notado como evoluiu a tecnologia e o design nos videojogos, e a sua reputação de não gostar de jogar parece confirmar-se. Este novo título seria excelente se fosse lançado no início de 2000, mas nos tempos que correm, os seus valores de produção estão longe de competir com as propostas atuais, como por exemplo, a série Yakuza, ironicamente também da SEGA.

E talvez aquilo que custe mais é entrar no seu ritmo lento, demasiado pastilha elástica, com um extenso período de tutoriais, introduzindo mecânicas a conta-gotas, como um simples salto. Os diálogos com os diversos NPCs são entediantes e a falta de orientação de um mapa eficaz para acelerar a exploração, tornam o ritmo aborrecido, fazendo desesperar os menos pacientes. Como eu. Sim, há mapas, mas são desenhados à mão, desbloqueados na aventura, mas requerem uma leitura mais paciente.

E confesso que não tenho qualquer afinidade com os jogos originais, mas sim muito respeito pelas suas mecânicas e atividades, e por tudo o que representou na época, e por isso, fui superando, revolvendo cada recanto das missões dadas e suspirando a cada ecrã de loading por animações básicas. E aos poucos o jogo foi-se abrindo, lembrando-me os tempos em que a série Jovens Heróis do Shaolin faziam as delícias na televisão. E não há dúvida que se podemos fazer grandes elogios a Shenmue 3 é ao seu sistema de combate, bastante dinâmico, fluído, para além da forma como Ryo vai aprendendo novas técnicas de combate ao longo da história para derrotar os seus inimigos.

Ao contrário de outros títulos, o jogo não empurra adversários para cima da personagem. Os confrontos ocorrem durante momentos-chave da aventura, ou sempre que desejam treinar nos templos. E isso é divertido, porque o sistema RPG funciona muito bem. É possível treinar em cavaletes e outros instrumentos para ganhar níveis de resistência e poder de ataque, mas depois há que colocar o treino em prática, enfrentando outros alunos, obedecendo sempre a uma hierarquia de cinturões.

No meio dos combates Ryo vai aprendendo alguns combos, em forma de quick time events, que resultam em ataques poderosos e variados, que podem ser depois despoletados de forma rápida. E não falta mesmo o cliché de aprender uma técnica exclusiva com determinado mestre para avançar na aventura.

Relativamente à história, os eventos do segundo título são continuados nesta terceira parte, com Ryo e Ling Shenhua, que regressa do segundo jogo, na aldeia chinesa Bailu à procura do pai da jovem, que está desaparecido, depois do ataque de alguns bandidos. Ambos passam grande parte do tempo à procura do seu paradeiro e forma de os derrotar, sobretudo o seu chefe. Em paralelo, vão descobrindo alguns dos mistérios relativos a uns símbolos, procurando responder a questões levantadas no segundo capítulo.

Shenmue 3 apresenta cenários muito coloridos e bonitos, paisagens de cortar a respiração, até porque não existem muitas áreas para explorar, o que permitiu apurar bem cada elemento. Por outro lado, as personagens deixam a desejar, sobretudo as más atuações dos atores, lembrando em tudo os velhinhos filmes do Bruce Lee e Jackie Chan, sem qualquer preocupação no lip sync. E os diálogos são aborrecidos, com textos que deixam a desejar, obrigando o jogador a carregar constantemente nos botões para a conversa fluir. Vale pelo menos o regresso de Corey Marshall na voz de Ryo, para que os fãs sintam a autenticidade desta sequela.

O estúdio preparou uma interface dinâmica e sensível ao contexto, de forma ao botão de ação ser o mesmo dos diálogos, ou o de acesso aos menus de ajuda se transformar num que salta para o local e tempo desbloqueado pela quest em mãos. É que toda a história gira num sistema de passagem de tempo, com as lojas a obedecerem a um horário, e certos eventos apenas estarem disponíveis a determinada hora, que muitas vezes se torna aborrecido. Se quiserem, o botão de atalho que salta de imediato para o evento. Até porque todos os dias, à mesma hora, a personagem tem de se recolher a casa e dormir, acordar e voltar a sair, levando sempre com uma mensagem de Shenhua a dizer adeus. Parece o dia da marmota, quebrando constantemente o ritmo da ação.

Mas esse sentido de tempo que o jogo tenta demonstrar, com os dias a sucederem-se, dentro do pensamento, “o que não se fizer hoje, faz-se amanhã”, é uma forma de tentar reproduzir um quotidiano real. Se nos primeiros dias as personagens com que interagem parecem tímidas e reservadas, com o passar do tempo parecem ter outra abordagem, parecendo estarem mais à vontade com a presença do jovem forasteiro. E os diálogos podem mudar, e por vezes conseguir obter pistas e ajudas quantas mais vezes falarem com eles.

E há um sistema de stamina em torno da comida, seja a correr ou a combater, a energia tem de ser reposta através dos alimentos. E para isso terão de comprar mantimentos, mas para ganhar dinheiro têm de trabalhar, tal como cortar lenha, pescar ou jogar nos diversos jogos de azar disponíveis, entre outras atividades. Quando perdem um combate terão de comer para recuperar energia, pelo que se não tiverem mantimentos ou dinheiro, serão forçados a trabalhar. Ou então, vender as ervas que recolhem durante as deambulações.

E mesmo para avançar na história é necessário comprar alguns itens, mais uma vez obrigando a fazer grind para ganhar dinheiro, e participar das atividades, que nos jogos originais foi um dos pontos altos da aventura. Há também elementos colecionáveis, tais como bonecos que saem em máquinas de cápsulas, pelo que se querem todos terão de trabalhar para isso… as coleções podem ser trocadas por livros de habilidades especiais para as lutas.

Se há algo que Shenmue 3, tal como os jogos anteriores possibilitam, é progredir na aventura ao ritmo do jogador. Se querem acelerar na história de detetives e avançar na investigação basta cumprir os objetivos, pelo menos até serem barrados pela falta de dinheiro. Mas se quiserem, podem perder horas a pescar ou a brincar nas diversos mini-jogos, ou porque não a cortar lenha ou a treinar kung-fu até se aborrecerem…

Tecnicamente Shenmue 3 está longe das exigências atuais, sobretudo se tiver como objetivo conquistar um novo público. E isso justifica-se com as fracas vendas desde o seu lançamento, sobretudo em terras de sol nascente que viu a série nascer. Certamente que era possível respeitar o legado, traduzindo-o para a atualidade, mas o produtor manteve-o numa cápsula do tempo.

Isso não significa que os velhos fãs não possam desfrutar cada momento, pois foi para eles que foi produzido. Mas no que respeita ao futuro da série, e esta que foi concebida como uma quintologia, os fãs vão ter que se chegar novamente à frente para obter a sua conclusão.

No geral, se nos abstrairmos do seu ritmo e falhas técnicas, há algo que nos leva a querer continuar a seguir a aventura, desde a aldeia inicial de Bailu ou a cidade de Niaowu da segunda metade. Mas é preciso muita paciência. Já o sistema de combate é muito divertido e imersivo, destacando-se como um dos pontos altos de Shenmue 3.