Num capítulo dactilografado de ideias estranhas mas que afinal vai-se a ver e são muito bem pensadas, encontramos os jogos que exigem proficiência na digitação de um teclado como mecânica base. Um pseudo-género que parece saído daqueles cursos dos anos 1950 e 1960 para desenvolver a habilidade com um teclado, a qual se existisse um para teclados de estenógrafos poderia tornar-se o esport mais nicho de nicho da história.

Typing of the Dead é capaz de ser o caso mais famoso de um jogo que nos obriga a ter os dedos-relâmpago de um dactilógrafo, em que cada palavra digitada com sucesso se transformava em tiros nos conhecidos zombie do spinoff da série da Sega.

O mercado indie tem readaptado muitas mecânicas de diversos jogos, e a digitação enquanto base de game design é apenas uma delas. The Textorcist é um desses casos, mas Epistory – Typing Chronicles é o jogo que no passado recente mais chamou a atenção para este “mundo” revisitado.

Nanotale – Typing Chronicles, é a sequela de Epistory, e foi lançado recentemente em Early Access no Steam. Aqui tomamos o papel de Rosalind, uma arquivista com a missão de explorar e catalogar o mundo, os seus artefactos e flora.

Para além de ser um jogo de aventura e um RPG de acção, há muitos puzzles que têm de ser resolvidos com o acesso ao livro de feitiços que temos na nossa posse. Podemos digitar “gelo” (aliás, neste momento, “Ice”, mas no futuro Nanotale vai contar com inúmeras línguas, incluindo o Português) e congelamos um rio para o podermos atravessar, ou teclar “fire” para incendiar um campo de ervas intransponíveis. 

Este tipo de interacções e quebra-cabeças relacionados com os feitiços à disposição de Rosalind são um dos elementos que tornam esta experiência dactilográfica um bom equilíbrio de desafio e inventividade. Adicionar adjectivos aos nossos feitiços vai mudar a sua forma, e esta é mais uma ideia interessante que complexifica o combate, e não só.

O combate, como seria de esperar, vai obrigar-nos a digitar as palavras que surgem sobre os inimigos o mais depressa possível, antes que estes consigam atacar-nos. Sentimos a tensão de ter de teclar rápido já que o risco de sermos rodeados por inimigos é muito grande.

Apesar de ser uma sequela de Epistory, acho que foi uma jogada de interessante do estúdio Fishing Cactus de se afastar da estética do primeiro jogo (com o seu delicioso mundo construído com recortes e formas de papel), para este com uma paleta mais aguarelada, num jogo de fantasia quase em tons pastel. Esta diferença de direcção artística permite que os pontos de comparação entre os dois existam, mas que exista uma identidade atribuída a cada um, e que esta sequela não tenha de viver sob a sombra do seu antecessor.

Como dizia, Nanotale – Typing Chronicles ainda está em Early Access, o que significa que quem investir nele neste momento vai ter acesso a hora e pico de conteúdo, ainda com alguns bugs. Nada que não fosse de esperar num jogo ainda em desenvolvimento, mas em nada destrói a consciência do enorme potencial que o jogo tem.

Para todos os fãs de jogos de digitação de palavras, para quem adorou Epistory e quer perceber o quão longe os seus criadores conseguem ir mecânica e conceptualmente, Nanotale – Typing Chronicles vai ser decerto um excelente jogo de aventura quando estiver finalmente terminado.