O saudoso Carlos Paião já cantava a velha máxima portuguesa de “Não há duas sem três”. No final da semana passada rendemo-nos a dois jogos perfeitamente bizarros que nos chegaram às mãos e que fizeram deste Fevereiro de ano bissexto uma acontecimento quase surreal.

Depois de destruirmos na pele (e no pêlo) de um veado sanguinário, depois de tentarmos conquistar o mundo uma sílaba de cada vez num simulador de fala, eis que nos chega um jogo que só conseguiria descrever como um cruzamento entre Surgeon Simulator e o Tinder.

Antes de mergulhar na hilária bizarria de Table Manners: Physics-Based Dating Game permitam-me um preâmbulo: eu e a minha mulher estamos juntos há 17 anos. Ainda tentamos ir jantar e ir ao cinema só os 2 algumas vezes por ano. Não sei se somos nós que somos diferentes, ou os nossos dates não se assemelham em nada a este Table Manners. Sobretudo porque nenhum de nós fica especado à espera que o outro lhe sirva a comida e/ou lhe dê comida à boca. Ou andamos a esfregar os nossos braços na mesa a deitar comida e utensílios para o chão.

(Se alguém que esteja a ler este artigo se sinta retratado pelo tipo de date de Table Manners, posso apenas indicar que não tem que se sentir envergonhado. O Rubber Chicken é um espaço livre de julgamento. A menos que ponham o leite no prato antes dos cereais. Há limites).

Table Manners é um jogo baseado na Física e na interacção das nossas mãos virtuais numa mesa de restaurante. Cada encontro/missão pede-nos para interagirmos com um número diferente de objectos na mesa.

Vamos a um pseudo-Tinder, aceitamos o encontro com uma determinada pessoa, e a partir daí a Física fala mais alto. E não, esta frase não tem qualquer trocadilho sexual. Logo na primeira missão somos convidados a servir vinho ao nosso par. Com os controlos estranhos típicos deste jogo, o meu primeiro passo (com a mão, entenda-se), foi girar a garrafa de vinho um pouco longe de mais, com a minha noção de profundidade a perder-se e o tinto líquido a espalhar-se maioritariamente em cima do meu par, e pouco no seu copo.

A minha classe virtual à mesa é diametralmente oposta à que tenho na vida real. Em Table Manners eu sou uma mão suína descontrolada que suja tudo à sua volta, mas na vida real não consigo sequer comer pizza, sardinhas assados ou frango sem ser com garfo e faca. Portanto a minha suspensão da descrença em Table Manners é similar a qualquer FPS de guerra. (Felizmente) nunca fui à guerra e também não estou com os pés à mesa.

Ah, queres pão?” pergunto ao indicador de missão, quase ao mesmo tempo que projecto dois papo-secos para o chão, seguidos de uma garrafa de ketchup que deveria utilizar para condimentar as batatas do homem sentado à minha frente com um ar zangado, a mostrar de forma evidente que depois deste encontro é pouco provável que haja mais.

Aproveito também para demonstrar a minha risível indignação cultural por Table Manners. Sou contra a servidão. Não conheço o background da malta do estúdio Echo Chamber Games, mas dificilmente me vejo a ir jantar com alguém, seja a minha mulher, amigos e família e ter de estar a servi-los e alimentá-los à boca. Nem ao meu filho mais novo com ano e meio tenho de o fazer, que ele, do alto da sua independência precoce, recusa-se a ser servido (demonstrando que as nossa convicções anti-feudalistas estão a ser transmitidas com precisão). Mas digam-me lá, ó senhores, porque é que as mecânicas do jogo não limitam as nossas table manners ao nosso prato? E digo-vos mais, como sugestão meio altiva: se forem num encontro e a pessoa com quem estão ficar à espera imóvel que lhe sirvam a comida e a bebida, lhe condimentem os alimentos, lhe dêem a comida à boca e que a mastiguem por si qual mãe-ave para os seus filhos, isso é um grande sinal para levantarem os vossos glúteos da cadeira e porem-se a andar.

(Nota para mim mesmo: inserir aqui aquela imagem que o João Costa se farta de utilizar com uma SJW feminina irritada)

Apesar dos meus comentários cómicos a um jogo de comédia, Table Manners é um dos mais divertidos jogos de Física que joguei nos últimos tempos. Com missões diversificadas, tanto ao nível do espaço em que estamos, com restaurantes temáticos que se reflectem no tipo de objectivos a serem ultrapassados, que vai desde utilizar pauzinhos para comer sushi até queimar um leite creme. Divertido, com customização da nossa mão, Table Manners mostra-nos o quanto a comédia e o caos podem andar de mãos dadas num encontro amoroso. Aquele jogo para jogarem com um livro da Paula Bobone na mesa.

Temos que nos esforçar para impressionar a pessoa que acabámos de conhecer e com quem estamos num encontro. E para o fazer só podemos contar com a eficácia da nossa mão direita.

Há um lugar especial no inferno para toda a gente que leu esta segunda frase com segundas intenções.