A revelação de Journey to the Savage Planet deixou no ar tratar-se de mais um jogo de exploração espacial, da visita a planetas inóspitos e selvagens, muito próximo daquilo que No Man’s Sky ofereceu. No entanto, a proposta da recém-inaugurada Typhoon Studios está longe dessa experiência, tratando-se num fundo de um jogo que mistura exploração e sobrevivência com mecânicas de progresso típicas de um metroidvania.

De salientar que este jogo teve ao leme Alex Hutchinson, ex-diretor da Ubisoft que liderou a produção de Assassin’s Creed III e Far Cry 4, mas há muito pouca inspiração nos seus jogos anteriores. Esta aventura espacial, nos confins de um planeta selvagem, prima essencialmente pelo humor, pela forma como diversos assuntos da atualidade são motivo de galhofa através de pequenos vídeos de publicidade. Além de claro, os vídeos do dono, completamente tresloucado, da Kindred Aerospace, a empresa para o qual o protagonista trabalha. A quarta melhor da galáxia, gaba-se…

Como dita o cliché, a aventura começa com o despenhamento da nave num planeta inóspito, repleto de vegetação e criaturas selvagens. Tudo aponta para um planeta virgem, sem aparente presença humana. Mas então, porque razão há uma torre gigante? Essa passa a ser a jornada do astronauta, antes de conseguir reparar a nave e arranjar combustível para fugir do planeta.

Jogado numa perspetiva da primeira pessoa, e embora a personagem utilize uma pistola de energia, nem tudo funciona à lei da bala neste planeta. É preciso catalogar tudo o que é novo, fazendo scan a criaturas, plantas e artefatos alienígenas para completar a coleção. As criaturas dividem-se entre predadores e presas, pelo que há muitas que deambulam passivamente, que não fazem qualquer mal ao jogador, caso não sejam incomodadas. Exemplo disso são os pequenos pardalitos que saltitam de um lado para o outro. Mas outros são de facto perigosos, como polvos voadores, abelhas gigantes e outras criaturas. E apesar de ser um jogo maioritariamente tranquilo, há alguns confrontos interessantes contra bosses gigantescos.

Não se tratando propriamente de um mundo aberto à exploração, nem sequer têm mapa, funciona mais como uma espécie de jogo de sobrevivência com um toque de metroidvania, com um formato de progressão mais linear, embora bifurcado que lembra Dark Souls. Pelo caminho vão desbloqueando sistemas de teleporte colocados em locais estratégicos, para acederem rapidamente à região, mas isso está longe de impedir que nos percamos. E é essa sensação de aventura e descoberta que torna o jogo verdadeiramente especial e interessante, sobretudo pelos diferentes ambientes, biomos e ecossistemas diferentes.

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Quando morrem, terão de visitar o local para recuperar o espólio recolhido até então, e sempre que possível regressar à nave para depositar as preciosas matérias-primas, essenciais para evoluir a personagem, ou melhor, obter novos gadgets para avançar e desbloquear novas áreas. Sim, como disse, há muito de Dark Souls no que diz respeito à exploração.

Existem quatro matérias-primas para procurar, obtidas em plantas, animais e jazigos espalhados, entre os quais carbono e alumínio, por exemplo. E é engraçado como é possível obter carbono ao utilizar uma pasta enlatada para atrair a bicharada, mas que lhes dá cólicas e defecam por todo o lado o precioso mineral. Ou se preferirem, um tiro certeiro para matar as criaturas inocentes também resolve. Há algum sadismo mórbido no humor presente, veja-se umas máquinas com dentes a tapar o caminho. Está visto que é necessário dar um pontapé numa criatura para que esta seja devorada para abrir caminho.

Ao longo da aventura irão debater-se com desafios para encontrar novos itens úteis para continuar o caminho. Exemplo disso é o jetpack, que numa primeira fase funciona mais como um duplo salto, e depois um boost para chegar mais alto. Há um gancho para navegar entre locais elevados, com um upgrade para deslizar em rails. Até porque grande parte dos cenários obriga a saltar e navegar entre ilhas flutuantes, sendo um dos principais desafios encontrar o caminho a seguir.

Por outro lado, a pistola pode também ser melhorada, mas a outra mão está reservada para itens que podem ser arremessados, como as latas de comida, gosmas que servem de trampolim no chão, granadas explosivas, ácido e ainda picos que podem ser presos em áreas específicas para servir de suporte ao gancho. E são estes novos elementos que desbloqueiam caminhos previamente bloqueados.

Para obter novos itens é necessário encontrar uma fonte especial do material e retirar uma amostra, mas para os melhorar apenas é possível quando sobem de nível executando ações de exploração, como catalogar bicharada ou completar desafios muito específicos, tais como adquirir amostras de um certo animal e ou matá-los de uma determinada forma.

O jogo oferece suporte para dois jogadores em cooperativo, mas não senti falta de um companheiro, já que promove a exploração ao ritmo de cada um.

De um modo geral, Journey to the Savage Planet é muito divertido, ainda que abuse da paródia constante a outros jogos ou filmes, replicando mecânicas e elementos, tomando-os como cliché. Se os vídeos de publicidade servem como sátira, o próprio jogo também peca por não apresentar nada de novo. Mas praticamente tudo ao que se propõe funciona, por isso não há muito a apontar. Vale ainda pela sua estética plástica, colorida, criaturas bizarras, dispostas num planeta orgânico, repleto de segredos para encontrar.