Terminado o All Star Weekend da NBA em Chicago, onde o supra-sumo do basquetebol foi espremido para cerca de 40 copos em três dias de diversão para todo o planeta, não há melhor jogo para voltar à NBA do que NBA 2K20. Parece-me é que há aqui alguns problemas de sobre realismo.
Dentro dos simuladores desportivos, a série NBA 2K é discutivelmente aquela que mais alta manteve a fasquia para o género ao longo dos anos. Não é que se possa comparar a outra dentro da modalidade onde tem o monopólio, mas se olharmos para um FIFA a evolução e consistência ano após ano são bem superiores. Peguei na versão para a Nintendo Switch por ser a que me está disponível e a única cedência face às restantes consolas e PC é ter os gráficos ao nível de uma PS2 – escolha acertada, já que tem 100% do conteúdo das restantes versões.
Mesmo com menos maquilhagem ou frames por segundo, senti-me perfeitamente dentro da experiência de um jogo de NBA: comentários em jogo pelas vozes mais icónicas, cheerleaders nos intervalos, introduções ao jogo ou ambiente nas bancadas. Não faltou investimento na produção, com assinatura do astro-maior Lebron James. Todos os monstros sagrados marcam inclusive persença no modo My Career, onde construimos o nosso atleta na sua jornada da Universidade para a NBA.

White men can’t jump
A história está muito bem escrita, aposta em performances de atores consagrados como Rosario Dawson ou Idris Elba e só leva umas quatro horas até sermos largados na selva da NBA. Toca aspetos sensíveis como a competitividade entre atletas de meios desfavorecidos em busca do estrelato, o papel ambíguo de patrocinadores ou a tão importante missão das celebridades darem uma voz aqueles que não a têm.
A última vez que tinha jogado um NBA 2K foi com 2K16. Soube bem uns anos depois voltar ao campo, fazer chover assistências e afundar na cara das inimigas. Para quem jogou basquetebol oito anos federado e sempre seguiu a NBA, ter tanto plantéis atuais como os melhores de sempre com todos os deuses da NBA ao seu dispor é um paraíso. A IA dos adversários de jogo é cada vez mais evoluída, os movimentos dos jogadores são cada vez mais naturais e executar jogadas complexas com direito a repetição torna-se soberbo.
Para minha surpresa, aos poucos fui sentindo que estava a experienciar DEMASIADA NBA. O João Machado já o referira da última vez que um NBA 2K teve destaque no Rubber – há demasiados modos de jogo. Eu acrescento outra crítica – há demasiado realismo. Que, enquanto estive em campo, me fez sentido. Não foi o caso no modo My League, em que nos tornamos General Manager de uma equipa e a tentamos levar à glória época após época. O problema é que temos sempre disponível a possibilidade de forçar qualquer vitória, negócio ou controlar quantas equipas em simultâneo quisermos. O sub-modo My GM não nos dá tanta liberdade, mas obriga-nos a conversar com o treinador antes de o despedir. E a conversar com os jogadores para os manter satisfeitos. E A CONVERSAR COM A EQUIPA DE LIMPEZA. OK isto foi a gozar, mas neste modo senti que passei mais tempo a conversar do que a jogar. Até aceito que é realista. Mas nos Sims também não tínhamos de jogar o movimento de mudar de roupa – a roupa simplesmente mudava. Num formato que há anos faz falta ao basquetebol, o de Football Manager (onde conferências de imprensa e redes sociais existem em nome do realismo mas qualquer jogador as pode ignorar), ou me senti no God Mode ou no Bureaucratic Mode.
Continuei a minha experiência simulatória a pensar porque raio tudo isto me fazia confusão. Apercebi-me que estava a jogar um jogo de deuses. Para os menos conhecedores da NBA, estamos a falar de uma liga fechada – não há promoções ou despromoções de equipas. É também o patamar a que qualquer praticante almeja chegar, pelo que os melhores executantes do mundo estão quase todos ali. Isto é notório nos ratings (de 0 a 99) de cada atleta. Na verdade, raramente encontramos jogadores abaixo de 68, o que deixa pouco mais de 30 pontos de diferença entre os melhores e os piores executantes do jogo. Numa lógica de Football Manager onde os jogadores vão dos 15 anos (em NBA 2K20 começam nos 18/19) aos 40 e tal e a sua classificação usa um espectro dos 40 aos 200 pontos, a de NBA 2K20 deixa a desejar. Realista? Sem dúvida – a competitividade é muito próxima à da realidade pelo que tirando um punhado de 10-15 jogadores de elite, os restantes têm níveis muito próximos.
Outros modos de jogo mais me fizeram validar esta teoria: o execrável My Team, onde apesar de termos todos os plantéis completos no modo de exibição vamos por algum motivo querer colecionar um baralho de jogadores medíocres que podem ou não progredir a algo mais, de forma a criarmos a nossa equipa ideal. NBA 2K20 permite gravar plantéis personalizados do que se quiser, pelo que entrar numa lógica de grind interminável ou pagar centenas a milhares de euros para se ter uma Dream Team para jogar online não merece comentários.
Mas será realista? Claro que sim! A NBA está inundada de milhões de dólares e portanto o dinheiro real é um aspecto relevante de NBA 2K20 sob a forma de micro (ou…macro?) transações. Até para saber o que nos sairá na rifa temos de ver uma roleta às voltas.
Entre os modos My Career e My Team existe a obrigatoriedade de termos sempre a Switch online. Caso a ligação seja interrompida – como sempre acontece com a consola em modo de descanso – somos abruptamente encaminhados para o menu principal. Isto frustrou várias tentativas minhas de progredir pelo My Career de forma portátil, em que jogo aos bocados. Mas será realista? Claro que sim, ou não fosse a ideia de directo e ligação à Internet algo imprescindível na NBA de hoje.
Mas em linha com o que já escrevia o João Machado em finais de 2015, NBA 2K20 só servirá para aqueles momentos fugazes em que me apetece atirar uns cestos, quiçá gerir os meus Detroit Pistons uma ou duas temporadas.
Duas coisas dão-me esperança pela continuidade deste jogo: primeiro porque pese não ter tido concorrência numa década, manteve um espírito inovador (dentro do género vá, não sejam maus), segundo porque teve a clarividência de tornar jogável toda a WNBA e não apenas como uma vénia forçada à igualdade de género no desporto. Podemos gerir uma época inteira da elite feminina do basquetebol e jogar com as senhoras é algo substancialmente diferente do que com os cavalheiros. Embora não tão bem produzido, também no caso da WNBA a simulação é a prioridade, pelo que não vão passar a vida a saltitar com as craques e a esmagar cestos – é um jogo mais tecnico, cooperativo e veloz.
Lá para 2024 pondero comprar outro NBA 2K.
P.S.: @Sports Interactive, já merecíamos um Basketball Manager…













