
Já perdemos a conta às vezes que assistimos à história de Dragon Ball Z, quando estreou na SIC na década de 1990 e desde então foram dezenas e dezenas de videojogos a recontar a saga de Son Goku e companhia. Por muitos títulos de combate que a Namco Bandai tenha lançado, muito raras as vezes que foge da cronologia de eventos, cingindo-se ao legado de Akira Toryama, e o novo Dragon Ball Z: Kakarot não é exceção.
Aliás, estamos perante um dos jogos mais fiéis das aventuras televisivas, ao recontar com pormenor os acontecimentos das quatro primeiras sagas de Z: Super Sayans com a chegada de Vegeta à Terra, Frieza em Namek, Cell e Buu. E isso inclui as longas sequências cinematográficas e as vozes dos atores originais em inglês e japonês em todas as personagens, o que torna o jogo ainda mais autêntico. Os combates são estendidos por vários episódios, e contem com todo o drama e comédia associada ao grupo de amigos que decidiu defender a Terra de dos invasores poderosos. Tal como na série, as personagens servem para comer, treinar e combater, superando-se a cada combate.
Kakarot foi desenvolvido pelo experiente estúdio CyberConnect2, que não deixou os seus créditos em mãos alheias no que diz respeito à criação da escala e intensidade da aventura e ação. Apesar de ser o primeiro jogo deste universo produzido pelo estúdio, este tem no currículo cerca de 20 títulos do universo Naruto Shippuden e o galardoado Azura’s Wrath, para referir alguns. A equipa transferiu para Dragon Ball Z todo o cuidado e atenção ao detalhe, num excelente trabalho ao serviço dos fãs.

Este novo título distingue-se de anteriores propostas ao apresentar as sagas assente num jogo com cenários abertos à exploração. Trata-se de um mundo com um mapa que funciona como HUB interligando as várias localizações icônicas da série, incluindo a Kame House do Tartaruga Genial, a casa do Goku, a Capsule Corporation, o planeta Namek, entre vários outros locais que rapidamente despoletam a nostalgia.
O jogo assume-se como um RPG, com as personagens a evoluírem ao longo da história, mas também a concluir quests secundárias e a treinar. Lembra em algumas partes Xenoverse, mas sem qualquer liberdade de caracterização. Kakarot segue à risca o guião da série, libertando apenas o jogador nas chamadas intermissions entre as quatro sagas, em que se pode fazer todas as atividades, como pescar, corridas de carros, concluir missões para diversas personagens inclusivamente da primeira saga, procurar z-orbs e ingredientes para cozinhar pratos deliciosos e poderosos. A comida dá buffs temporários interessantes que podem utilizar antes dos combates.
E até há tempo para procurar as míticas sete bolas do dragão, e uma vez invocado Shenlong oferece um desejo: ressuscitar determinado inimigo para voltar a combater, pedir zenits para comprarem itens, entre outros pedidos. Realizado o desejo as bolas desaparecem e só podem ser encontradas novamente passados 20 minutos de tempo real do jogo, simplificando o ano do universo.

Não esperem porém que este seja o derradeiro RPG. Aliás, as quests são essencialmente básicas, entre enfrentar alguns inimigos, combater as próprias personagens em treino ou encontrar itens espalhados pelos mapas a pedido.
As z-orbs permitem desbloquear e melhorar as habilidades das personagens, embora algumas apenas sejam obtidas como recompensas dos treinos ou através da história. Há um árvore de talentos para irem explorando ao longo da aventura das principais personagens que controlam. Há ainda um quadro da comunidade em diferentes categorias, em que colecionam emblemas das personagens que depois podem estabelecer ligações para bónus adicionais.
O jogo permite ainda terem dois companheiros como suporte, que são autónomos nos combates, mas podemos ativar as suas habilidades especiais, tal como o Solar Flare do Krilin.

Se há algo que brilha em Kararot são os combates, claro, a alma de qualquer jogo baseado em Dragon Ball. Estes são ativados no próprio cenário, que se transforma numa arena tridimensional, trancando no inimigo. O sistema é muito fácil de aprender, sobretudo porque se apoia num sistema de combos de apenas um botão. Acrescente-se quatro habilidades especiais que podem ser equipados previamente de uma lista, incluindo o mítico kamehameha ou a spirit bomb, e ainda as transformações. As transformações têm sempre um aspeto penalizador, por exemplo, no modo Sayan o Ki vai sendo consumido, ao passo que o kaio-ken absorve a própria saúde da personagem.
A gestão do Ki é muito interessante, dando para recarregar sempre que necessitem, mas ficam vulneráveis durante esse período de uns dois segundos, pelo que devem fazer durante o timing correto.
Os combates são rápidos e frenéticos, podendo ser bastante desafiante contra os conhecidos bosses, que também evoluem e vão-se transformando ao longo dos encontros, respeitando o que se vê na série. Há tácticas como defesa dos ataques, contra-ataques e os teleportes para as costas dos inimigos. É estonteante a forma como as animações fluem nos combates, sendo divertidas e desafiantes, numa grande homenagem ao material televisivo. Todas estas habilidades impedem que o jogo seja um simples esmagar de botão, tornando-o mais tático mediante a dificuldade dos inimigos.
Mesmo a exploração pode ser feita a pé, ativando a super corrida ou o voo, sendo muito rápido chegar a qualquer ponto do mapa, visto que estes também não são muito grandes. E no caso do Goku podem mesmo passear na sua nuvem mágica Nimbus.

Um dos aspetos do jogo mais interessantes, do ponto de vista de lore, é a enciclopédia que o estúdio construiu, listando locais, personagens, veículos e outras informações que vão sendo desbloqueadas. Há ainda fotografias relacionadas com a primeira série que servem de colecionáveis para os mais saudosistas encontrarem. O jogo tem ainda organogramas das personagens e respetivas ligações durante a saga, que também vai sendo montada com os encontros.
Mesmo com as ideias no lugar, nota-se porém que falta um pouco mais de polimento ao jogo, sobretudo no que diz respeito à exploração, de forma a torná-lo um pouco mais orgânico. Procurar quests nos mapas não é algo propriamente entusiasmante e divertido, conteúdo que pode ser deixado para trás. Mesmo os elementos RPG são bastante light, não mostrando barras de evolução, levando as personagens a subir de nível sem sabermos ao certo o que aconteceu, já que não existem estatísticas.

De referir que estamos perante um jogo bastante longo, o que é bom para os fãs que querem esmiuçar tudo o que tem para oferecer, mas quando chegamos à terceira saga começamos a ver as ideias esgotadas e a experiência entra num campo repetitivo, num ciclo de diálogos, combates, cut scenes, combates, e assim adiante. No entanto, de louvar que o jogo não obrigue os jogadores a explorar ou a fazer tarefas que não está interessado, e o grind de experiência é apenas uma forma de tornar os desafios seguintes mais acessíveis, se houver necessidade. Podem simplesmente seguir a história e ignorar tudo o resto.
De um modo geral, Dragon Ball Z Kakarot é uma das melhores experiências em videojogo do universo criado por Toryiama. A liberdade de exploração e a forma como deixa os jogadores decidirem o seu ritmo de progresso são muito bem-vindos. É um jogo feito com carinho para os fãs da saga, mesmo que tenhamos de fechar os olhos a alguns problemas. A intensidade dos combates, as cut-scenes e a imersão parece mesmo que estamos perante um episódio interactivo dessa forma. Agora é só esperar o que o estúdio possa fazer numa inevitável sequela: oferecer-nos as sagas da primeira série? Ou da mais recente? Não percam o próximo episódio, porque eu… também não!













