Há uma figura emblemática de grande parte das séries e filmes norte-americanos (mas não só) e alguns deles com os quais já nos cruzámos no mundo real: o sobrinho do chefe. O último contacto que tive com um foi com o meu recente binge de The Office que representa bem esse animal selvagem (alguns dizem ser um mamífero parasita) que é o sobrinho do chefe. 

O sobrinho do chefe trabalha na empresa do tio, muitas vezes, a contragosto deste. O sobrinho do chefe nem sequer é o sobrinho favorito do chefe, mas a pressão da irmã ou do irmão do chefe a obrigá-lo a dar emprego a um tipo que por muito que tente não consegue arranjar trabalho.

O sobrinho do chefe nem sequer é muito hábil ou competente, mas isso pouco importa. Há qualquer coisa na anatomia do sobrinho do chefe que lhe permite passar nos intervalos da chuva, entre os olhares de soslaio dos colegas que têm de compensar a sua imbecilidade e o tio que tem de fazer vista grossa à sua incompetência.

Good Job! é um brilhante indie publicado e exclusivo da Nintendo que retrata o que é estar na pele do sobrinho do chefe. Na prática podemos vestir essa pele da forma que mais nos convier: tentar fazer tudo certinho, cumprir com o que nos pedem e invariavelmente acabar por destruir, ou abraçar o caos e simplesmente destruir tudo com, e citando o grande João Barreiros, o máximo prejuízo.

Este jogo da Paladin Studios mostra-nos um edifício corporativo onde somos um mero trabalhador, e que temos de subir a pulso, de andar em andar, de promoção em promoção, a atropelar os restantes colegas. Na maioria das vezes, literalmente.

As figuras, meros humanóides feitos de pauzinhos como na sinalética, preenchem o espaço da empresa. Vítimas anónimas do descuido fatalista do sobrinho do chefe, para quem as normas de segurança são fábulas contadas para crianças adormecerem.

Cada nível é uma oportunidade para o sobrinho mostrar o que (não) vale. Temos objectivos aparentemente simples: empilhar x caixas, trazer y colegas para uma sala, ligar um projector. O caminho até lá chegar é que é normalmente pavimentado a destroços do escritório, onde não há decerto seguro que lhe valha. 

Se temos um projector numa sala e ele não cabe nas portas, qual seria a melhor forma de acção do sobrinho do chefe?

  1. Cuidadosamente desmontar uma porta para que o projector passe na ombreira
  2. Esticar um fio de electricidade, usá-lo como fisga, e projectar o projector (perdoem-me o pleonasmo) através das várias paredes do escritório;
  3. Dizer ao tio que “se calhar não dá”.

Good Job! permite-vos fazer apenas uma delas, e acreditem que é a mais divertida. O jogo permite-nos ser cuidadosos, e evitar destruir a propriedade da empresa quando resolvemos tarefas simples, mas admitamos: a diversão de vestir a pele do sobrinho do chefe é o de agir como um hooligan cheio de taurina depois da derrota do seu clube e saber que tudo é, na prática, inconsequente. E ainda por cima recebemos bónus de pontos por isso.

É claro que um sobrinho do chefe nunca vem só, e com uma cunha é possível ter outro sobrinho do chefe a ajudar-nos a destruir o local de trabalho do nosso incauto tio. Em teoria, duas pessoas podem trabalhar juntas para fazer um trabalho mais eficaz. Mas em Good Job!, usualmente essa cooperação tende a descarrilar para os lados de um aumento de prejuízo estrutural para o nosso empregador.

Com o mundo lá fora aterrorizado pela maior crise global que conhecemos desde, Good Job! é o sorriso estampado na cara que todos precisamos. É a certeza que independentemente do caos que espalhemos pelo nosso local de trabalho e/ou da nossa eficácia, que vamos receber aquela palmadinha nas costas condescendente a dizer ”Bom trabalho!”.

Good Job! é sobretudo uma tremenda surpresa da Nintendo, daquelas que bem precisamos nos dias de hoje. Um jogo caótico, obrigatório, divertido, exagerado, e brilhantemente desenvolvido, que nos vai fazer soltar umas tão saudosas gargalhadas.