O embaixador de estratégia global da Organização Mundial de Saúde, Ray Chambers, veio a público no seu twitter mobilizar a indústria do gaming, partilhando:

Estamos num momento crucial da pandemia. A indústria das empresas associadas ao gaming têm uma audiência global e nós encorajamos a que todos #JoguemJuntosSeparados (#playaparttogether). Mais distância física e outras medidas vão ajudar a aumentar a curva e a salvar vidas.” Ray Chambers

Tedros Ghebreyesus, Director geral da OMS, pronunciou-se também, agradecendo a mobilização realizada por Ray Chambers.

Foi assim criada a campanha ‘Play apart together‘ juntando inicialmente 18 grandes empresas da indústria de gaming online e mobile, assim como de entretenimento. Entre elas destacam-se:

Vale ainda realçar que apesar do embaixador Ray Chambers ter encorajado a existência da campanha, esta não integra oficialmente a Organização Mundial de Saúde.

Às empresas anteriormente referidas já se juntaram mais empresas incluindo no dia de ontem o Facebook Gaming.

Esta iniciativa encoraja a indústria a dar a conhecer as directrizes da OMS, promovendo a atividade de videojogos como uma alternativa positiva a realizar dentro de casa. Bobby Kotick, CEO da Activision Blizzard, referiu que “nunca foi tão critico como agora assegurarmo-nos de que as pessoas ficam conectadas de modo seguro, sendo os videojogos a plataforma perfeita, já que conecta as pessoas agrupando uma vivência de felicidade, propósito e significado”. Nicolo Laurent, CEO da Riot Games, complementa ainda que “Distância social não deverá significar isolamento social.(…)”. Existe assim um objetivo de  incorporar uma mensagem para os utilizadores destas plataformas, encorajando a que estes adoptem boas práticas para a sua saúde e das suas famílias.

Além da promoção das directrizes da OMS, esta campanha levou a que as empresas estejam a trazer eventos, atividades e prémios exclusivos a todos os seus utilizadores. Por exemplo, a DirtyDit vai dar prémios extra a quem completar as missões no seu jogo “Fun Run 3” e a Pocket Gems vai adicionar novas features nas histórias interactivas “Episode” e “War Dragons“.

Há ainda quem na indústria não tenha integrado oficialmente a campanha mas esteja a realizar atividades promocionais em tempos de COVID-19. Na Google Play Store e na App Store diversos jogos estiveram ou ainda estão com download gratuito disponível, incluindo títulos como Lara Croft GO ou Monument Valley 2. Já a Nintendo lançou há poucos dias as Promoções de Primavera, que estarão disponíveis até dia 19 de abril, com a promessa de promoções excepcionais no dia 9 do mesmo mês a partir das 14 horas.

Num tempo em que é tão importante protegermo-nos a nós e aos outros, é sem duvida bonito ver a atitude de diversas entidades desta indústria a juntarem-se para este efeito com a chancela da Organização Mundial de Saúde.  Ainda assim, colocando alguma hipocrisia de parte, não devemos também esquecer de que se há indústria que tem e continuará a ter algum fruto nesta fase de isolamento social é sem dúvida a indústria dos videojogos. Vejamos alguns exemplos: de acordo com a Verizon, o tráfego de internet para utilização de videojogos aumentou 75% na América desde que foram impostas regras de isolamento social no mesmo país; o jogo “Destiny 2” aumentou os seus utilizadores em 10% mundialmente; a Steam chegou ao pico de 20.3 milhões de jogadores ao mesmo tempo (11% acima do anterior balanço); e a Twitch aumentou as suas visualizações para mais do dobro. O isolamento social e a ausência de atividades diárias levam obviamente a que os utilizadores destas plataformas de entretenimento passem mais tempo nas mesmas.

Os videojogos não são na maioria das vezes apenas uma ferramenta de entretenimento, mas sim também uma ferramenta de socialização e conexão para muitos dos seus utilizadores. Mais do que nunca, sentimos a necessidade de nos conectarmos, de sentirmos que estamos juntos e de nos distrairmos de todas as noticias diárias que intensamente ocupam as nossas televisões, as nossas redes sociais e os nossos dias e os videojogos incorporam realmente uma valência de imersão na tarefa e no contacto com os outros que pode auxiliar a trazer-nos algum bem-estar nesta fase.

Não deixa de ser poeticamente irónico ver uma campanha a favor dos videojogos com a recomendação e chancela positiva por parte de um Embaixador da Organização Mundial de Saúde. Por momentos, ao ver pela primeira vez esta notícia, senti que me encontrava numa realidade alternativa àquela em que a “demonização” da atividade por parte de entidades ligadas ao meio da saúde e dos media era o normal. Nas estratégias para lidar com o stress do isolamento dinamizadas pela Organização mundial de saúde e pela Ordem dos Psicólogos Portugueses, é ainda realçado:

Nas sugestões realizadas, foram escolhidas as adições com substância para as directrizes e excluídas as adições comportamentais. Em várias adições comportamentais não é comum ouvirmos dizer “Não façam exercício para lidar com as suas emoções” “Não trabalhem” “Não façam compras”, entre outras, nem tão pouco é comum ouvirmos que estas atividades são negativas e levaram a estados de saúde mental e física preocupantes. Nos videojogos este foi até um passado recente um cenário diferente. Na minha visão profissional e pessoal, qualquer atividade que seja praticada em excesso (química ou comportamental) é negativa. Mas de realçar que aqui me refiro à atividade em excesso e não à atividade em si. A adição comportamental pode ocorrer com qualquer atividade que dê prazer numa pessoa que tenha esta predisposição de ‘evitamento emocional’. Achei por isso positivamente interessante, após todas as considerações realizadas pela OMS, que os videojogos não tenham sido aqui colocados e que inclusive tenham sido realçados como atividade positiva e saudável no contexto em que nos encontramos por um dos seus embaixadores.

Finalizo com uma nota de esperança. Vivemos um tempo como nunca se viveu, que realçou a nossa vulnerabilidade mas também a nossa força e união. Desejo-vos saúde e agradeço por como eu continuarem a contribuir para salvar as nossas vidas, as vidas dos meus e dos vossos. Para isso, faz também parte que façamos por estar bem emocionalmente, já que tal afecta o nosso bem-estar físico e até a nossa imunidade. Sendo assim, façam coisas que vos dêem gozo, criem novos objetivos e joguem (se assim gostarem) para poderem conectar-se com os vossos amigos e família, sem constantemente estarmos a pensar e falar do mesmo (apesar de ser importante falar do que sentimos também). Tudo irá passar… sairemos claramente mais fortes e ao que parece, com ajuda dos videojogos!

Para quem quiser ver este conteúdo através de um vídeo no meu canal Mente do Avesso, cliquem no link abaixo: