É irónico o título “Novos Horizontes” escolhido para o novo Animal Crossing, numa altura em que grande parte da população mundial se encontra limitada no que diz respeito a horizontes, e mais irónico ainda é pensar que a ilha tropical que serve de palco ao jogo é o destino que todos nós gostaríamos de rumar neste momento. Mas nem que seja de forma virtual, o novo título da série é o maior escapismo que poderíamos ter, nem que seja para executar tarefas tão banais como colher laranjas pela manhã, pescar depois do almoço ou visitar amigos ao jantar. Aqui, o único contágio é o vício de ver a nossa ilha a prosperar e a atrair novos habitantes e chegar ao final do dia e pensarmos: bom trabalho. Até amanhã. E sonharmos com aquilo que nos espera. Tudo vai ficar bem…

O consumismo passa também do real para o virtual, obrigando-nos a trabalhar arduamente para juntar dinheiro para melhor a casa e comprar uma panóplia de objetos que não servem para nada, mas que nos alimenta o ego. Um simples penteado, uma fatiota nova, ou porque não uma decoração profunda no nosso lar, aquele ecrã plasma ou sofá com chaise long.

Mas também podem ser filantropos. Correr perigo a pescar peixes raros, escavar fósseis de dinossauros extintos ou enfrentar estranhos insetos para oferecê-los ao museu local. O Blathers agradece, mas não se atrevam a entregar coisas repetidas, um exemplar chega. O resto vendam. É a principal fonte de negócio.

Animal Crossing: New Horizons não revoluciona a série, mantém toda a essência dos jogos anteriores, e isso significa colocar o jogador numa ilha sem objetivos aparentes inicialmente. Estes são dados lentamente, no passar dos dias, à medida que vão desbloqueando novos mapas de construção, e os edifícios que vão sendo erguidos: uma nova loja ou casas de residência para novos habitantes ou mesmo pontes para ligar todas as áreas da ilha.

É um jogo que sempre teve o seu próprio ritmo, ou melhor, é para ser jogado ao ritmo dos jogadores, ao longo de todo o ano, seja por cinco minutos ou cinco horas seguidas. Não há nada para fazer, pensamos, mas há tudo para fazer, e tudo depende do planeamento, das tarefas que consideramos prioritárias, que é como tudo na vida.

A principal lição de Animal Crossing é saber gerir o tempo e planear de acordo. O jogo utiliza o relógio interno da consola, fazendo ciclos noite e dia em tempo real, assenta no calendário para realizar eventos sincronizados com os dias da semana e respetivos meses. Muitos irão passar a Páscoa no jogo, outros vão esperar pelo Pai Natal em Dezembro.

Todos os aspetos sazonais da vida estão de alguma forma representados no jogo. Plantar árvores ou plantas necessitam de dias para crescer. Certos insetos só aparecem de dia, outros de noite, uns no inverno, outras na primavera. A enciclopédia que vamos preenchendo para peixes e insectos funciona como uma caderneta colecionável. Eis um dos meta-objetivos do jogo. Completar o museu é outra tarefa habitual na série, com os esqueletos de dinossauros compostos por três partes, e os insetos e peixes que estão expostos. É muito bonito e enorme o museu deste capítulo. Bom trabalho Blathers!

Obviamente que a componente multi-jogador é muito forte e convidar amigos a visitar a nossa ilha ou saltar para a deles mantém-se fiel aos anteriores títulos. Cada ilha tem apenas um fruto, pelo que necessitam de visitar outras para recolher diferentes espécies e plantar na nossa ilha. Esse espírito de partilha é um dos grandes aspetos da aventura: receber no correio cartas com prendas de amigos são surpresas que alegram o dia.

Obviamente que melhorar a casa e adicionar mobílias e objetos de ócio para mostrar às visitas é tudo aquilo que gostamos de fazer na vida real. E é impressionante a quantidade de itens que New Horizons adiciona, assim como a liberdade de caracterização, permitindo a cada jogador expressar-se dentro do próprio jogo. O editor de roupas, por exemplo, permite desenhar literalmente qualquer padrão e se utilizarem a app da Nintendo, podem importar imagens e logótipos do que desejarem. Ao longo da aventura vão sendo introduzidos ainda mais elementos de personalização mais profundos. Basta visitar algumas streams de ilhas dos jogadores para observar a criatividade dos que mais investiram no jogo.

A app para smartphones serve ainda para escrever as mensagens instantâneas para outros jogadores, invés de usar o sistema dentro do jogo.

Um aspeto muito útil são as Nook Miles, pontos que Tom Nook oferece aos jogadores por metas conquistadas no jogo, seja fabricar um número de itens, pescar, ou melhor, tudo aquilo que precisam. Esses pontos podem ser trocados por novos itens exclusivos, roupas e até ferramentas de utilidade, tal como expansão de inventário e sistema de radial na troca das ferramentas de trabalho.

Mais importante ainda é que pode-se adquirir um bilhete para uma ilha especial, aleatória, onde podem farmar mais frutos, minério, flores e tudo o resto que seja mais raro ou esgotado na vossa ilha. Até podem arrancar árvores, bastante comer um fruto para ficarem fortes, para plantar onde querem na vossa ilha.

Como vêem, coisas não faltam para fazer, seja apanhar ervinha ou pescar, há sempre meta objetivos para realizar, e quanto mais tempo passarem na ilha, mais coisas podem acontecer, desde encontrarem garrafas com mensagens na praia, ou encontros imediatos com personagens misteriosas. Tudo pode acontecer em Animal Crossing, como os fãs sabem.

Mas se há uma lição a tirar de Animal Crossing, do ponto de vista dos mais jovens, é que a amizade vale ouro. A união faz a força quando precisam de ajuda. Mas outras coisas importantes como ter noção de como se fazem negócios. Ou o incentivo a juntar dinheiro, nem que seja numa conta bancária virtual. Adquirir uma casa e pagar o respetivo empréstimo, e gerir as prioridades na hora de gastar as preciosas Bells. Acima de tudo, aprender a vender o que não necessitam.

Há muito por evoluir no jogo. As ferramentas mais básicas como a pá, cana de pesca, rede, machado ou regador vão partir ao fim de algumas utilizações. Mais tarde vão aprender a produzir modelos mais resistentes, mas que requerem mais matérias-primas. Há mais liberdade de caracterização no interior das casas, graças a um editor especial, para que centrem a cama onde realmente querem.

O novo sistema de auto saving constante ajuda os jogadores a não se esquecerem de gravar e perder o tempo investido na sessão de jogo. Deixou mesmo de ser necessário a presença do Mr. Resetti, lembram-se da toupeira que andava em cima dos jogadores batoteiros? Ainda assim, mexer no relógio para aceder a certos atalhos ainda é possível.

Há muitos outros detalhes deliciosos para explorar no jogo, mas se assististe até aqui é porque o ponderas comprar e nesse sentido, fica para descobrires. Animal Crossing New Horizons é o jogo que todos nós precisamos neste momento. Um jogo com grande longevidade, altamente social, uma forma de manter contacto com os amigos e fazer novas amizades neste período de isolamento real.