
Se não forem criacionistas (se o forem tenho sérias dúvidas como é que ainda nos lêem, dado o tom habitual dos nossos textos), têm a certeza das palavras da Ciência, na sua investigação, e nos seus factos, de que a vida proveio da água. E é a água, esse bem precioso sem o qual, literalmente, não existiria vida (pelo menos como a conhecemos neste planeta da Via Láctea) a fonte de vida do planeta Gliese 677Cc, onde a aventura de In other Waters se desenrola.
Na minha vontade de ser tabula rasa no que concerne às análises que faço, passei os primeiros dez minutos entre um misto de surpreendido pela qualidade do interface de In Other Waters, e a dúvida se ele evoluiria para outra coisa, mais próxima, por exemplo, da arte da capa. Esta imagem, culpa do extremismo tabula rasa em que vivo, era a única ideia que tinha do jogo.

Mas passados dez minutos, percebi que esta abrangência minimalista, deslumbrante do ponto de vista de design de interfaces era In Other Waters. E que dentro da sua simplicidade cabe uma história magnífica, contada, aliás, descrita, pelos olhos de outrem.
Em In Other Waters somos uma entidade sem corporeidade que acompanha uma cientista, Ellery Vas, pela sua deambulação subaquática à procura do seu colega perdido. O nosso papel enquanto IA que acompanha Ellery é de conduzi-la pelos mistérios de um mundo subaquático alienígena e de controlar os seus instrumentos e o seu fato.
À primeira vista, com esta descrição, assumimos a priori que a coisa vai descambar rapidamente em hostilidade e belicismo entre a nossa cientista e a fauna local, como em quase todas as manifestações sci-fi do género. Mas não. Ellery é realmente uma cientista, e a serenidade que acaba por rodear este jogo é um dos seus pontos mais altos.

Dentro do minimalismo visual de In Other Waters, é curiosa a forma como nos consegue manter investidos na sua história é bastante subtil, e uma quebra do habitual “show, don’t tell”. Neste caso, dada a nossa visão topográfica do mundo, em que Ellery e a restante fauna e flora são pontos em vectores, contamos com ela para ser os nossos olhos, para nos descrever as maravilhas subaquáticas deste mundo de exploração serena. É a sua descrição que nos permite ver o mundo através das suas palavras.
A outra surpresa de aprimorado game design é a complexidade mecânica que o mundo tem, com o seu interface, relembro, de um depuramento visual extremo. Controlar o oxigénio, as sondas, no HUD do fato de Ellery, ao mesmo tempo que vamos olhando para a topografia do planeta e indicando, através da marcação de pontos e vectores, para onde a cientista se deve deslocar e onde deve recolher amostras para análise.

Lançado para PC, Mac e Switch, In other Waters parece-me o jogo perfeito para ser lançado em iOS, em especial para os ecrãs do iPad. Um jogo sereno cujo tom e interface se ajustam na perfeição a estar deitado na cama, com headphones, às escuras, e deixarmo-nos escapar para o mundo investigado por Ellery Vas, enquanto esta pesquisa o paradeiro do seu colega perdido.
In Other Waters não é um jogo para todos, e o seu depuramento visual vai de certeza afastar muita gente, sem reconhecerem a tremenda perda narrativa que isso representa, num jogo que é da sua forma diferente uma masterclass de storytelling.













