Vou contar-vos uma história.

Era uma vez uma senhora que vivia nos Estados Unidos da América chamada Lizzie. A Lizzie teve uma ideia um dia, criar um jogo em que explicava o Geoismo e os aspectos negativos do monopólio de controlo de terras. E o que é isso de Geoismo perguntam vocês? É uma teoria económica em que existe apenas um imposto único sobre a terra, em vez de uma tributação do trabalho. Henry George que criou este conceito acreditava que isto faria o nível de produtividade subir e reduziria os níveis de pobreza. Claro que é mais complexo que estas linhas mas trocado por miúdos, serve bem para o propósito. O importante é que Lizzie patenteou o seu jogo em 1904, e durante décadas foi alterando-o, patenteando-o outra vez em 1923 com um nível muito fraco de vendas sob o nome de “The Landlord’s Game”.

Anos mais tarde, mais especificamente em 1932, um senhor chamado Charles Darrow foi jantar a casa de um amigo, Charles Todd. Acompanhados pelas respectivas esposas após jantar jogaram várias partidas de “The Landlord’s Game”. Darrow pediu que Todd lhe cedesse as instruções do jogo. Levou-as e “criou” o seu próprio jogo de tabuleiro chamado: Monopoly. A Parker Bros. (Hasbro desde 1991) comprou os direitos do jogo a Darrow e passou a comercializá-lo. Posteriormente descobriram que a verdadeira inventora do jogo era Lizzie e pagaram-lhe $500 (aproximadamente $9500 em 2020) pelos direitos totais.

Com os anos a passar, este jogo que nunca deixou de ser feito e conta com mais de 275 milhões de unidades vendidas. Também é, diz a lenda, o jogo que nunca foi acabado por quem o jogou. A sério, pensem em quantas vezes começaram a jogar Monopólio, e quantas o acabaram? Além de ser um jogo chato. Era jogado porque, por alguma razão era aquilo que toda a gente tinha uma cópia em casa, mesmo assim, no mundo inteiro, provavelmente podem-se contar pelos dedos da mão quem já o acabou, e ainda menos quem o jogou respeitando todas as regras. Já a escala de jogos de Monopólio que acabam em amizades terminadas, divórcios ou simplesmente assim deve rondar os 91%:

Fast forward para a actualidade. A Hasbro viu-se obrigada a actualizar os seus produtos para um mercado novo e tal como tantas outras empresas percebeu que os mercados de nicho e fanbased rendem bastante financeiramente, então começou a criar Monopólios temáticos, a lista é longa e mais ou menos ilustre. Inclui mas não está limitada a Monopólio: Lord of the Rings, Mario Kart, Friends (série TV), Game of Thrones, Transformers, Doctor Who, Harry Potter, Toy Story, Dragon Ball, L.O. L. Surprise, Fortnite, Hallmark, Sonic, Walking Dead, My Hero Academia, Breaking Bad, 80 years of MARVEL Comics, Steven King’s IT, Supernatural (série TV), Star Wars…. É um bocado como a regra 34, se pensarem numa coisa há um tabuleiro de Monopólio relativo a isso. E a regra 34 também se aplica ao Monopólio. De várias maneiras… Eu visitei os confins mais profundos da internet nas minhas pesquisas e tive que lavar os olhos com lixívia… 

Tirando as figuras específicas e aquilo que se pode comprar serem coisas relacionadas com o tema do jogo, é sempre o mesmo, excepto em duas edições muito especiais que fizeram nascer este artigo.

Primeiro, vamos falar desta coisa fantástica: Monopoly for Millenials. Sim, existe mesmo e podem comprar em várias lojas.

Qual é o objectivo do Monopólio para os millennials? Viajar pelo tabuleiro e acumular experiências descobrindo e visitando locais fixes, comendo, bebendo e relaxando. O jogo acaba quando todos os destinos foram descobertos e ganha o jogador que acumulou mais experiências.

Começamos com um certo valor e temos que aproveitar isso ao máximo porque não temos muitos rendimentos sem ser quando passamos na casa da partida, que deve ser a casa dos pais ou o caraças. Não podemos possuir propriedades, não há casas em que os nossos adversários possam cair e pagar renda. Nem são adversários, são companheiros de viagens ou qualquer coisa assim. Enquanto por um lado é provavelmente o jogo que mais respeita as crenças anti-monopólio da criadora do jogo por outro é só estúpido.

Quem, em nome dos Deuses Antigos e Novos é que achou que isto era boa ideia? Como é que se faz o pitch desta ideia e como é que ninguém naquela empresa disse algo como: “Pá… vamos mesmo fazer isto?”

Não sei, mas no reino das ideias fantásticas que ninguém achou boa ideia parar, vem o meu favorito: Ms. Monopoly que eu peço que vejam o anúncio antes de lerem o que vou dizer.

Alguém na Hasbro achou que deviam cavalgar o movimento de “empoderamento” da mulher que anda por aí e que para isso o melhor era criar um monopólio para meninas. A Ms. Monopoly que está na capa é a sobrinha de Rich Uncle Pennybags, a mascote do jogo. E aqui está a herdar o legado do seu tio rico e nada diz “Mulher Empoderada” como aquela que herda as coisas do seu tio. Reparem no seu ar moderno e senhora de si mesma. De calças de ganga e sapatos altos. Blazer e tshirt. Uma mão na anca e outra a segurar o que suponho seja um daqueles “cafés” de Starbucks.

Como é que este jogo dá poder e respeito às mulheres? Não faço a mínima! Mas eles lá tiveram algumas ideias sobre isso, sendo a primeira que as casas que compramos são invenções femininas. Coisas que foram criadas por mulheres como o Wi-Fi ou bolachas com pepitas de chocolate. Wi-Fi é possível graças à contribuição da grande Hedy Lamarr e as bolachas de pepitas de chocolate foram inventadas pela Ruth Graves Wakefield.  E sim, estão lá as duas invenções, exactamente ao mesmo nível, porque não há diferença de importância para humanidade entre as duas.

Tirando a parte das invenções, que não é muito diferente dos outros milhentos tabuleiros temáticos, a maior marca de Ms. Monopoly é que que se os jogadores forem mulheres recebem de início $1900 e $240 sempre que passam na casa da partida já os homens recebem apenas $1500 iniciais e $200 quando passam na casa da partida. O objetivo é inverter o chamado wage gap entre homens e mulheres e assim dar vantagem às mulheres.

Havia tanta maneira de homenagear mulheres num jogo e a Hasbro conseguiu fazê-lo da forma mais pedante que consigo imaginar sem ser fazer um tabuleiro rosa com laços e unicórnios. A única vez que me lembro de ver algo igualmente mau foi no Avengers End Game onde após 10 anos e mais de 20 filmes em que a Marvel/Disney foi criticada por não terem protagonistas principais que fossem mulheres decidiram brindar os fãs com este momento de revirar os olhos… 

https://www.youtube.com/watch?v=tH157LfoJhM

Quase 65 segundo num filme de 3 horas dedicado às várias heroínas da Marvel. Não era isto que queriam? Ah… não? Esta pequena prenda no filme era parva e desnecessária porque se eles tinham tanto orgulho nas suas heroínas porque não fizeram mais do que o Captain Marvel com uma delas como personagem chave? Isto na minha opinião não homenagem ou respeito é o que os ingleses chamam “pandering”. Um “Vá… toma lá isto para ver se te calas”. Um “Estás todos os anos a dizer que não te ofereço nada. Dei-te um ferro de engomar pelo aniversário.” Ms Monopoly está ao mesmo nível para mim, e todo o seu empoderamento das mulheres e inversão do salary gap é desconstruída em duas perguntas sequenciais para a Hasbro: 

Se  Ms Monopoly for jogado só por mulheres onde é que está a vantagem? O que difere este do jogo normal do Monopólio?