Nos últimos tempos têm surgidos remakes e remasters de jogos clássicos, que procuram explorar a nostalgia dos jogadores com mais idade, mas visualmente apelativos para chegar a uma nova geração de jovens. Mas há jogos e séries muito perigosas de se voltar a mexer e Streets of Rage 4 certamente é um deles.

O legado da trilogia original, lançada nos anos 1990 pela SEGA na Megadrive, é um dos mais valiosos no género beat ‘n up, um formato estupidamente popular nos salões arcade e nas consolas domésticas de 16 bits, mas que se foi perdendo ao longo dos anos, e atualmente, tirando alguns indies, é um género praticamente morto.

Na sua época, a SEGA e a CAPCOM inundavam com propostas sucessivas de títulos do género, destacando-se Cadillacs and Dinossaurs e Golden Axe da SEGA, mas Streets of Rage foi a resposta direta ao multipremiado Final Fight da sua rival.

Depois desta pequeno regresso ao passado, a DotEmu continua a adicionar ao seu catálogo diversos jogos clássicos com novas roupagens. A empresa francesa apoia e financia os pequenos estúdios indie a desenvolver novas versões de clássicos, garantindo a sua licença oficial para lançar sequelas, invés de simples remake. E Streets of Rage 4 é um exemplo de como trazer uma sequela de uma trilogia que os fãs conhecem muito bem, traduzindo-o para a atualidade.

E a empreitada coube à Lizardcube, um estúdio francês que já nos tinha oferecido Wonderboy: The Dragon’s Trap na mesma premissa, de atualizar os clássicos. Teve ainda o apoio da Guard Crush Games, equipa apaixonada pelo género, que resolveu lançar Streets of Fury, uma paródia a Streets of Rage em que as personagens são digitalizações de pessoas reais Hilariante, e chamou a atenção pela sua jogabilidade, sendo agora premiada com a produção do novo jogo da série que a inspirou.

Relativamente a Streets of Rage 4, os estúdios acertaram em cheio no que se pretendia. A jogabilidade clássica foi traduzida na perfeição, revelando-se frenética e fluída, fazendo regressar as personagens icónicas dos jogos originais, como Blaze, Axel e Adam.

Mas talvez o elemento que salte imediato à vista é a sua componente visual. Invés das já cansativas homenagens aos clássicos em pixel art a emular os 16 bits, o estúdio optou por um aspeto cel shading, com um tom cartoon muito detalhado. É uma forma muito bem conseguida de se aproximar  visualmente aos clássicos, mantendo o ambiente em 2D, não faltando os típicos elementos de paralaxe, dando animação aos cenários de fundo, para maior efeito de profundidade.

Mas note-se que há muita atenção ao detalhe, no que diz respeito a reflexos, sombras e iluminação, como o estúdio tem mostrado em diferentes making offs. As poças de água ou o piso brilhante refletem as sombras e animações. E as personagens reagem à iluminação geral do ambiente dos cenários. O seu design, com traços grossos, fazem parecer que saltam de uma banda desenhada japonesa. Há muitos detalhes para descobrir, incluindo a possibilidade de desbloquear conteúdos retro ao longo dos modos de jogo.

E a acompanhar a ação, não poderia faltar a banda sonora, frenética, a pautar os momentos tensos, entre sequências de eletrónica, com sintetizadores “new wave” dos anos 1980. As músicas são variadas e são embelezadas com o som dos murros e pontapés, que ajudam a realçar ainda mais o impacto dos golpes. E se dúvidas houvesse, os estúdios conseguiram convencer o lendário compositor Yuzo Koshiro, responsável pelas músicas dos jogos anteriores, a contribuir com algumas faixas para o novo capítulo.

Tal como os originais, o objetivo é simples: bater em tudo o que nos apareça à frente, os inimigos, punks, lutadores de artes marciais, motoqueiros, e outras aberrações são enfrentados com um leque de combos que cada personagem consegue fazer. Há ainda inúmeras armas para recolher, desde facas, tubos, tacos ou mesmo shourikans e granadas. Há sempre uma quantidade considerável de inimigos no ecrã, os quais podemos agarrar e arremessá-los.

O melhor de tudo é que a ação, além de fluída, responde muito bem aos controlos. E isso era um dos aspetos mais atraentes das máquinas arcade, a tradução imediata das combinações de botões. Ainda assim, há que conhecer alguns movimentos, porque algumas animações não podem ser interrompidas, levando a receber dano pelo risco. E isso é ainda mais satisfatório quando sentimos o impacto dos golpes no próprio comando, através da vibração. Algo que não existia há mais de 20 anos atrás. A deteção de colisão está também afinada.

Cada personagem tem um estilo de combate diferente, com vantagens e desvantagens. Uns são mais lentos e fortes, outros mais rápidos e ágeis, batendo com menos força, mas o que os distingue são duas habilidades únicas. Uma delas drena energia, e só devem ser utilizadas em caso de emergência. No entanto, quando gastam esta habilidade a respetiva barra pode ser recuperada batendo nos inimigos, desde que não se deixem tocar. É um gamble divertido, que permite desencadear golpes poderosos, que mantendo o fluxo de ataque vai simultaneamente curando.

A outra habilidade é uma espécie de bomba, em que a personagem faz um ataque de área poderoso, mas gasta estrelas que vão recolhendo durante a missão.

Dando exemplos de diferenças das personagens, Axel é mais fraco de pernas, porém, a sua habilidade especial coloca os seus punhos em fogo, fazendo um poderoso juggle com os inimigos. Já Blaze e Adam jogam mais com os pés, conseguindo arremessar os inimigos para longe com os seus golpes.

Inicialmente o jogo oferece mais duas personagens novas: Cherry Hunter é filha do Adam Hunter e utiliza uma guitarra nos seus combos especiais. Já Floyd Iraia é um musculoso com braços mecânicos, capaz de agarrar inimigos à distância.

Prometendo não só manter a qualidade dos originais, os estúdios trabalharam para tornar este formato clássico atual. Em primeiro lugar pelo suporte de quatro jogadores na mesma consola, prometendo um caos de inimigos a saltar por todo o lado. Mais impressionante é que podem jogar online, neste caso apenas dois jogadores, mas pelos testes no PC, sem qualquer lag, demonstrando um netcode afinadinho. Basicamente podem abrir a vossa partida ou encontrar qualquer jogador desconhecido para jogar, caso não tenham amigos com o jogo. E podem mesmo ativar o microfone e comunicar com o amigo.

A experiência multijogador vai ser importante para os jogadores que querem explorar o jogo mais a fundo, pois estão disponíveis 17 personagens retro clássicas para desbloquear. Depois de acabarem o modo história, que é muito curta, com umas três horas, os níveis abrem-se em dificuldades superiores, assim como o modo arcade, que desafia a acabar a história com apenas um crédito e sem a possibilidade de gravar pelo caminho. É como se tivessem uma moeda para uma tarde inteira na máquina arcade.

O jogo inclui ainda o modo Boss Rush, para enfrentarem bosses sucessivos, mas apenas têm uma vida para chegarem o mais longe possível. Há ainda o modo arena, um formado PVP para jogarem contra amigos, incluindo online. Mais uma vez, o suporte online funcionou muito bem.

Apesar de ter um modo história curto, os restantes modos e dificuldades elevam bastante a dificuldade. Este é um daqueles jogos que necessitam ir aprendendo muito bem os golpes das personagens, mas também os movimentos de cada inimigo, para estar sempre preparado. Só assim se consegue avançar pelos cenários mais difíceis.

De um modo geral, esta nova versão é uma grande surpresa, não só por trazer para a atualidade uma série parada há 26 anos, como o faz com brio, com uma jogabilidade impressionante, de nos fazer tremer as mãos de tanto esmagar botão, como dá vontade de investir num sistema de joysticks de arcade. Este é o caminho para o revival dos velhos jogos arcade, e nós estamos cá para os elogiar.