O remake de Final Fantasy VII é um dos projetos mais ambiciosos dos últimos anos. E está repleto de controvérsias desde que foi anunciado em 2015. Começou por ser produzido pela CyberConnect2, mas desde maio de 2017 que passou para as mãos de uma equipa interna da Square Enix liderado pela tripla de diretores encabeçado por Naoki Hamagushi, programador da trilogia Final Fantasy XIII, Tetsuya Nomura criador da série Kingdom Hearts e diretor do filme Advent Children de Final Fantasy VII; e Motomu Toriyama, com cargos de direção na série desde Final Fantasy X.

Já o diretor do Final Fantasy VII original, Yoshinori Kitasi ocupa a cadeira de produtor deste remake. Como podem ver, a Square Enix investiu as suas fichas mais valiosas na produção deste remake.

Mas talvez a principal controvérsia do jogo seja mesmo a questão do formato “episódico” deste remake. É que o projeto foi tomando algumas proporções épicas à medida que o desenvolvimento foi prosseguindo. Mas leia-se as aspas na palavra episódica, porque esta primeira parte funciona como um jogo isolado, com uma história contida e longa o suficiente para fazer inveja a outros tantos títulos do mercado. Quando pensamos em episódico, surgem os jogos da Telltale, com episódios de duas horas. Mas isso não se aplica a Final Fantasy VII Remake.

Esta primeira parte tem pelo menos umas 40 horas de conteúdo para completar. E não estamos a falar de encher chouriços como Peter Jackson fez na adaptação de The Hobbit ao cinema. Estamos a falar de muitas das sequências memoráveis do jogo original, localizações e pequenos arcos narrativos terem sido expandidos.

E isso fez com que toda esta primeira aventura prendesse o grupo de personagens apenas em Midgar, a cidade composta por uma plataforma erguida nos céus, controlada pela corporação Shinra e os diversos sectores no solo, que são diferentes bairros de lata sob o céu da plataforma.

Comparativamente ao jogo original, esta primeira parte corresponde a cerca de 4 horas de conteúdo, de um jogo que demorava também umas boas 40 horas a concluir. Midgar, no título original, era uma parte linear, mas depois a aventura rumava para um mundo aberto para explorar. Na prática, a Square pode optar por uma estrutura de mundo aberto no próximo capítulo, semelhante a Final Fantasy XV. Mas até agora, a editora ainda não revelou os planos sobre o futuro deste jogo e quantos episódios se irá dividir. A minha aposta vai contudo para uma trilogia…

Podemos dizer que existe um antes, e um depois, de Final Fantasy VII na longa série. O jogo marcou por ser o primeiro a arriscar os elementos 3D das personagens em cenários lindíssimos pré-renderizados, potenciado pela primeira PlayStation. A experiência cinematográfica marcou uma regra para qualquer capítulo seguinte, elevando demasiado a fasquia no leque de personagens carismáticas das diferentes sagas: o protagonista Cloud Strife, o vilão Sephiroth, a doce Aerith, e mesmo o restante grupo de resistentes da Avalanche que acompanham o jogador.
Experiência cinematográfica

Aliás, se há algo que este remake consegue fazer é desenvolver melhor as personagens, dando-lhes mais tempo de antena, explorando o seu caráter e motivações. Até mesmo o protagonista Cloud foi aprofundado naquela viagem de transformação entre ser um mercenário sem escrúpulos, durão, em que tudo o que faz é mais um trabalho pelo preço certo, até começar a ligar aos que o rodeia.

Tifa Lockart e Barret Wallace continuam a ser personagens bastante carismáticas. E Wedge e Jessie receberam quests secundárias e capítulos com maior protagonismo, exatamente para os salientar na aventura. Don Corneo, o gangster de Wall Market, que no jogo original mal se viu, ganha agora mais atenção.

De salientar que toda a aventura tem um tom muito cinematográfico. Obviamente as cut scenes sempre foram uma imagem de marca da série, mas este episódio todas as sequências foram produzidas com o próprio motor do jogo. E isso significa transições suaves entre as cinemáticas e o gameplay, sem darmos conta. Por outro lado, as armas e o equipamento que as personagens estão a usar refletem-se nessas sequências.

E as personagens estão lindíssimas, diria mesmo apaixonantes, sejam os protagonistas, como outras com quem nos vamos cruzando. Veja-se a Madam M em Wall Market ou mesmo o canídeo Red XIII já no final da aventura. E Sephiroth, que passa praticamente a trama a fazer teasing a cCoud, levando-nos a pensar quando é que o iríamos enfrentar.

E toda essa experiência cinematográfica é salientada pelas vozes das personagens, expressivas, com grandes atuações dos atores. Obviamente que a banda sonora acrescenta aquele friozinho na espinha, com muitas melodias conhecidas do jogo original, mas orquestradas para este remake. Há melodias que ficam no ouvido durante dias. O tema de Wall Market, com diferentes variações, não sai mesmo da cabeça…

E se a Square Enix desenvolveu as personagens, os ambientes foram igualmente expandidos, mesmo tendo como base a maior parte dos cenários produzidos para o jogo original. As áreas da cidade são mais vivas, repletas de animação, NPCs a deambular e a reagirem aos eventos das nossas ações, colando-se à televisão dos cafés para ver os noticiários. Tudo contribui para uma experiência realmente imersiva.

E mesmo tecnicamente, o sistema de iluminação dinâmica volumétrica, as partículas e faíscas nos combates, assim como os efeitos de HDR tornam todo o ambiente mais envolvente. Isso não invalida de o jogo ter algumas texturas igualmente básicas, sobretudo cenários de fundo não interativos.

Há novos tipos de inimigos, e bosses que pareciam impossíveis para os standards atuais estão também de regresso. Sim, casa, estou a olhar para ti. O jogo apresenta uma quantidade impressionante de bosses para enfrentar, com diversas fases que requerem constante mudança de tática e trabalho em equipa, e repleto de sequências animadas pelo meio salientando o tom narrativo. Existem combates que podem demorar entre 20 a 30 minutos, para terem a ideia do quanto épicos estes podem ser. Felizmente podem descansar em bancos encontrados esporadicamente entre grandes batalhas e máquinas para venda de elixires e armas.

E mesmo que a aventura seja na sua maior parte linear, a Square introduziu 30 quests secundárias em capítulos específicos, que embora nem todas sejam interessantes, ajudam a prolongar um pouco mais a aventura. A sua introdução justifica-se pela necessidade de ganhar reputação do povo que os julga como eco-terroristas depois de alguns eventos.

Estas têm recompensas próprias, mas se não quiserem perder tempo, podem ignorá-las. Há também mini-jogos, seja de dardos, de dança e outros para descobrir. Já para não falar dos colecionáveis, como os discos, com temas que podem ser usados nas jukeboxes. E mesmo que tenham jogado o jogo original, vão ficar surpreendidos com algumas mudanças na história, introdução de eventos e inimigos, sobretudo na reta final da aventura.

E isso leva-me a falar de um dos melhores aspetos do jogo, o sistema de combate. Esta talvez tenha sido a maior empreitada da equipa de produção. Utilizar o mais recente sistema de Final Fantasy XV, com combates em tempo real, mas com habilidades baseadas em cooldowns. Final Fantasy VII Remake vai buscar um pouco de tudo ao original, aos mais recentes sistemas, numa mistura que funciona muito bem.

As personagens têm um ataque principal e um secundário, mas têm as novas barras ATB de habilidade que são enchidas mediante o dano infligido nos inimigos. Estas barras transporta-nos aos combates por turnos do jogo original, pois o seu uso pode passar por usar magias como a cura, simples objetos como elixires ou ativar as suas habilidades concedidas pelas jóias colocadas nas slots do equipamento, as Materias. E as personagens ainda podem bloquear ataques ou esquivar a maior parte dos ataques dos inimigos, uma alternativa emocionante aos tempos de espera dos turnos do original. E ainda a barra de stagger dos inimigos, que são vulnerabilidades com certos ataques ou magias, que podem ser exploradas para os paralisar por preciosos segundos, permitindo aplicar golpes mais poderosos e com mais dano.

Pode até parecer estranho no início compreender se é suposto esmagar botões para atacar ou se é para usar as habilidades com timing, mas depois percebemos que é um pouco de tudo. Atacar, desviar, refletir a habilidade que queremos. E com o sistema de atalhos das habilidades mais utilizadas, nem precisamos colocar a ação em pausa. Isto porque podemos controlar as habilidades das restantes personagens sem termos de saltitar para o seu controlo. Diria que é um dos melhores sistemas de combate da série.

As armas não abundam no jogo, e cada personagem tem meia dúzia para encontrar durante a aventura. Estas são distintas visualmente, mas também conferem habilidades únicas e formas de abordagem ao combate. Não quer dizer que a última arma encontrada seja melhor que a anterior, mas antes diferente, e terá de ser o jogador a decidir qual a melhor para determinado momento.

Isto faz com que cada arma seja personalizada ao gosto, com a experiências das personagens a gerar pontos para todas as armas, para que estas evoluam mesmo sem serem utilizadas. O sistema de pontos para distribuir nas armas conferem estatísticas permanentes às personagens, seja poder de ataque, magia ou mesmo energia. Também podem adicionar mais slots para Materia, o que significa, um leque mais abrangente de magias nos combates.

O sistema é simples e funciona muito bem. É sobretudo muito aberto, dando grande liberdade aos jogadores de construírem as suas builds. Mesmo personagens que não estejam no grupo, é possível tirar o seu equipamento e usar nos elementos ativos.

Para quem está preocupado com a duração do jogo, tendo em conta o facto de ser apenas a primeira parte, este tem 40 horas de duração média ao longo dos seus 18 capítulos. E não se preocupem em jogar algo que sabem que está incompleto, porque esta aventura consegue ser contida, com um princípio meio e fim, e é uma viagem com um ritmo bem balanceado, com alguns capítulos a serem muito narrativos e lineares, outros que dá para explorar os pequenos sectores de Midgar, falar com as pessoas e descobrir todos os segredos.

Resta saber se a Square Enix pretende explorar o universo expandido de Final Fantasy VII, e aproveitar para nos oferecer momentos vividos no filme Advent Children, Dirge of Cerberus ou mesmo a prequela Crisis Core liderada por Zack Fair, e outras aventuras deste universo, como uma obra definitiva. O plano da Square Enix ainda é um mistério, e apenas o sucesso deste remake poderá fazer a editora avançar.

Num jogo onde tudo está produzido ao detalhe, apenas quero salientar um aspeto menos bem conseguido, que diz respeito à câmara de visão, sobretudo nos combates, muitas vezes a fugir do nosso controlo. De louvar o sistema de gravação livre, se estiverem fora dos combates, e sempre que morrem num confronto podem começar exatamente nesse mesmo início. Claro que pela natureza das quests, ainda assim contem com algum back tracking de alguns mapas.

Em termos de conclusão, este primeiro episódio de Final Fantasy VII Remake é tudo aquilo que os fãs do primeiro jogo poderiam esperar, mesmo que a aventura esteja incompleta, por assim dizer. É o verdadeiro remake na sua essência, trazer para a atualidade todas as mecânicas e visuais, mais respeitando o legado do original. E por causa disso, se o primeiro jogo é um clássico intemporal, este remake eleva-o ao expoente. Por isso, considerem-no obrigatório na coleção. E agora, quando vamos ter acesso à continuação? Será nesta geração? Na próxima?