O mundo está cada vez mais complexo. Ou se calhar sempre foi complexo e negro e deprimente mas nós estamos sempre fechados nas nossas pequenas bolhas que não ligamos, e isso permite o nosso controlo com maior facilidade. Não o nosso próprio controlo mas que nos controlem a nós, aos poucos, sem reparar, vamos cedendo a nossa liberdade sem contestação. Esta é a base de Liberated. E de várias outras distopias na literatura, cinema e BD, e até no Captain America – Winter Soldier.

Liberated joga com muitos lugares comuns, e fá-lo bem. Joga com isso nos temas, nos ambientes e até na jogabilidade, mas consegue fazê-lo com inovação suficiente para quando o jogamos sentir que estamos em algo novo.

Liberated é uma graphic novel jogável. É uma história contada em várias perspectivas e lembra em partes o velhinho Comix Zone onde vamos jogando pelas vinhetas coloridas de um livro BD, mas enquanto esse era um beat’em up cheio de acção, Liberated é uma graphic novel mais adulta tem várias histórias interessantes que focam assuntos cada vez mais actuais e relevantes na sociedade.

Usando uma combinação de enredo nas vinhetas com QTE, e plataformas com stealth e até resolução de puzzles tudo isto regado pela chuva virtual de um ambiente negro digno de um filme noir no mundo actual. Pessoalmente acho que os QTE seriam dispensáveis em algumas situações, os que são aplicados na história funcionam bem porque somos forçados a tomar uma decisão rápida que vai influenciar o caminho que vamos seguir para um ponto inevitável mas em acção acho que perde o seu efeito, não é mau mas não era necessário. As diferentes opções implicam também que podemos jogar mais que uma vez para ver tudo o que se podia passar.

Para estar ainda mais dentro do mundo das graphic novels está o facto de se desenrolar em quatro livros. Literalmente, quatro livros vão sendo que vamos desbloqueando ao acabar o anterior. Cada um conta uma perspectiva alternativa da mesma história. E nessa alternativa que podia ser confusa acaba por ser uma obra muito coesa. Um bocado como em Sin City, que tem momentos em que as várias histórias e personagens se cruzam a um nível maior ou menor. E apesar de alguns momentos de jogo serem algo mais frustrantes, o enredo acaba por ajudar a deixar essa parte de lado.

Porque Liberated joga-se muito bem, mas o mais importante é mesmo o trabalho que os escritores tiveram na narrativa que lida com liberdades, ilusões de liberdade, sociedades controladas por tecnologia e no fundo como a liberdade que temos pode não ser tão livre de amarras como julgamos. As referências ao nosso mundo são mais que muitas e todas elas tocam em feridas.

Liberated está já disponível na Nintendo Switch e estará em breve em Steam e outras plataformas. Vale a pena ser jogado nestes dias em que nos podemos questionar sobre tanta coisa. Se não quisermos pensar no estado do mundo e quisermos apenas uma distração continua a ser uma boa opção.