Scythe é, com todo o mérito, um dos jogos mais respeitados e reconhecidos da última década. A elegância do game design desenvolvido por Jamey Stagmeier permitiu que este jogo se tornasse um dos jogos de estratégia mais cobiçados por fãs de board games

Cá em casa, como podem ter visto pelos artigos que publicamos e até pela presença do Rubber Chicken no Instagram, o acto de jogar jogos de tabuleiro é algo predominantemente familiar. O que significa que ainda que o meu filho mais velho tenha uma boa compreensão de jogos complexos, mergulhá-lo em algo estratégica e mecanicamente tão “puxado” quanto Scythe é ir longe demais para a idade. 

Felizmente que a pensar em como introduzir um jogo como o Scythe no ambiente familiar, Hoby Chou e a sua filha Vienna Chou desenvolveram uma adaptação simpática a Scythe, criando traduções mecânicas e conceptuais ao jogo que fossem melhor recebidas pelo público mais novo. 

As primeiras miniaturas que pintámos em família.

My Little Scythe, que começou como um print and play fan game, rapidamente começou a ser premiado o que conduziu a própria Stonemeier Games a licenciar o jogo, tornando-o, pelo menos no meu seio familiar, mas acredito que seja algo replicado por todo o mundo, como o melhor gateway familiar para jogos mais complexos.

Os confrontos belicistas de Scythe passam a ser lutas de tartes, que representam descidas num contador de amizade, enquanto simpáticas figuras antropomórficas substituem as maravilhosas miniaturas do jogo original. Não que as figuras de My Little Scythe sejam menos magníficas por terem um aspecto mais cartoonizado, muito pelo contrário. No nosso caso, em plena pandemia, aproveitámos o facto de termos tintas há um ano no armário à nossa espera para finalmente estendermos os board games enquanto actividade familiar, até ao campo da pintura de miniaturas.

Ao percebermos, dias depois, que estava prestes a chegar às lojas a primeira expansão de My Little Scythe, a nossa ansiedade não poderia ser maior. O jogo que mais jogámos nos últimos 18 meses ia finalmente ver prolongada a experiência de tradução de Scythe para um formato mais simples. 

Neste caso Pie in the Sky vem trazer algumas das ideias de Wind Gambit para o formato familiar. São introduzidas as duas novas facções que todos esperávamos que viessem a existir (ora não fosse a caixa ter espaço para 4 figuras adicionais) e uma miniatura do dirigível que é partilhado por todos os jogadores. Os pormenores das miniaturas (que clamam por serem pintadas) são brilhantes, mantendo o patamar de qualidade de produção que a Stonemeier já nos habituou.

Pie in the Sky introduz pela primeira vez no universo de My Little Scythe o conceito de assimetria, fazendo step up ao nível de complexidade do jogo como um todo. Para quem joga com crianças, como é o nosso caso, a sequência de aprendizagem entre o jogo normal e a expansão podem ser o encadeamento lógica de ir adicionando novas peças de complexidade mecânica, o que vai preparar os mais pequenos, progressivamente, a jogar jogos menos simples do que os que estão habituados.

Como dizia, a diferença mecânica que Pie in the Sky tem assenta na assimetria. O dirigível, que paira sobre o tabuleiro, é partilhado por todos, mas não da mesma forma. A acção de procura que existia no jogo básico é upgraded com uma nova carta que nos mostra que para além do lançamento habitual dos dados, podemos lançar um adicional, que movimenta o dirigível, para além de ganharmos a possibilidade de apanhar recursos com o zepelim, e movê-lo pelo tabuleiro o número de casas estabelecido pelo dado.

A nossa placa de personagem ganha uma placa adicional, que corresponde à habilidade única do personagem que estamos a utilizar. Cada uma das 9 facções tem uma forma única de interagir com o dirigível, algumas delas a ganharem tokens próprios de gadgets que só esses personagens utilizam. É claro que os autores sugerem, após várias playthroughs, de jogarmos com as placas de habilidades únicas com escolha aleatória, ao invés de jogarmos com aquelas que “pertencem” à facção que escolhemos.

As habilidades são sobretudo capacidades de interagir no local ou na região onde o dirigível se encontra, e que vão desde replicar recursos dessa área, a conseguir roubar recursos do compartimento de carga dos outros jogadores. É que na base do cartão de habilidade única que adicionamos ao nosso tabuleiro de personagem, existe uma pequena caixa onde podemos ir guardando recursos, que estão quase sempre protegidos de roubo ou perda (exceptuando poderes que agem nesse mesmo compartimento) e que podem ser utilizados para pagar power-ups, missões, ou mesmo entregas no castelo.

Para além destas adições mecânicas, jogando com a expansão Pie in the Sky as condições de vitória passam a ser alcançar 5 troféus ao invés dos 4 pedidos no jogo base, o que se justifica pela agilidade como chegamos aos requisitos com a introdução do dirigível em jogo.

Dados os constrangimentos sanitários que se impõem numa crise pandémica, só conseguimos fazer partidas com um reduzido número de jogadores e aquilo que sentimos é que no mínimo competitivo, a 2 jogadores, o dirigível e as habilidades assimétricas de cada facção acabam por perder-se no éter. Com o tabuleiro pouco recheado de personagens, a probabilidade de conseguir tirar verdadeiro proveito dos novos “poderes” do zepelim são poucos ou nenhuns, e o jogo a 2 passa a ser uma partida de My Little Scythe normal com um toque ligeiramente diferente.

Com mais jogadores é que se percebe o impacto das novas mecânicas, e do quanto temos de ir jogando com as capacidades únicas de cada um dos nossos adversários e com as nossas. A movimentação do dirigível no tabuleiro no nosso turno passa a ganhar um peso maior, na preparação das próximas jogadas, ou na protecção dos turnos dos adversários.

My Little Scythe continua a ser a maior recomendação que fazemos a todos os amigos jogadores que querem introduzir os seus filhos a jogos com uma complexidade superior aos que usualmente apelidamos de “jogos para crianças”. A introdução de Pie in the Sky é o passo lógico seguinte, implementando mecânicas e estratégias mais complexas que o tornam num divertido, desafiante e interessante jogo de estratégia para todas as idades. Aliás, esse continua a ser o grande condão de My Little Scythe: o de conseguir ser desafiante e ao mesmo tempo leve, permitindo bons momentos de jogo que não são exclusivos de sessões de jogo com crianças. Ao longo destes 18 meses quantas foram as vezes que recebemos visitas (adultas) e que jogámos My Little Scythe por ser tão brilhantemente equilibrado enquanto jogo de tabuleiro.

Pie in the Sky não vem retirar nenhuma dessa leveza, e até contribui para que My Little Scythe assuma um outro espaço estratégico à mesa de jogo. É uma expansão obrigatória para um jogo que é ele igualmente obrigatório. Resta-nos saber para onde irá My Little Scythe no futuro? Dado o seu sucesso e olhando para o que Scythe já fez nos últimos anos, será que para além dos modos single player sempre presentes, será que poderemos encontrar algum aspecto mais narrativo nesta tradução familiar de um dos melhores jogos dos últimos tempos?