
Façamos um exercício simples de memória e pensemos qual a estratégia habitual da Pokémon Company para estender o encaixe financeiro de cada uma das suas novas gerações. Usualmente esta extensão de geração (e vá, chamemos-lhe o que é, um encaixe financeiro adicional) era materializada num terceiro título que adicionava novos Pokémon e estendia de alguma forma a jogabilidade e o número de criaturas. No caso de Sun e Moon a coisa até se materializou em dois títulos adicionais, Ultra Sun e Ultra Moon, cada versão com os seus Pokémon exclusivos.
No meu caso sempre comprei todas estas novas versões. Passei-as de fio a pavio, mesmo sabendo que elas são pouco mais do que razões para a Pokémon Company vender umas cópias a mais, à custa desse grande isco chamado “novos Pokémon”. Era essa a razão que nos fazia rejogar uma e outra vez a mesma história, com poucas adições narrativas que justificassem esse investimento.
Num certo ponto, o abraço claro da Pokémon Company à ideia de DLC e de Season Pass é economicamente salutar, e em muitos aspectos mais honesto que a postura anterior de Platinum, Ultra e quejandos. E é nesta loucura que é o ano de 2020 que eu considero a escolha de uma empresa por DLCs e Season Pass como algo positivo que nos encontramos. Mas é toda a verdade. Se pensarmos que uma nova “versão” de cada um destes jogos pode ascender aos 59,99€ por unidade (o que no caso dos Ultra é bem mais alto, com quase 120€ de investimento inicial), os 39,99€ do Season Pass parecem um bom negócio em comparação.

O primeiro dos 2 DLCs previstos para Sword e Shield já chegou, e admito a minha tremenda ansiedade para perceber se esta mudança de paradigma da Pokémon Company se traduziria em conteúdo adicional de qualidade.
Depois de ter demorado bem menos tempo do que eu esperava até percorrer toda a linha narrativa de Isle of Armor, a sensação de ter o Sérgio Godinho a cantar-me aos ouvidos tornou-me mais evidente. A vida é feita de pequenos nadas, e por muito entusiasmo que tivesse, Isle of Armor é um desses nadas. A minha dose de desilusão foi tremenda, ao perceber que à excepção do urso-lendário que pode ter duas formas distintas ao evoluir e o novo Slowbro, todo o conteúdo que Isle of Armor traz são dezenas de Pokémon que eu tenho já em triplicado, alguns em quintúplice no meu Pokémon Home.
Como disse no meu artigo sobre Sword/Shield, o enredo desta nova geração é capaz de ser um dos mais fracos de toda a série, batendo num novo fundo de falta de inspiração e falta de vontade de disfarçar com uma história minimamente interessante, aquilo que todos sabemos. Mas Isle of Armor é tão… nada, em termos de enredo. A criação de uma rivalidade martelada no novo Master Dojo é algo tão substancial como uma daquelas bolachas de arroz. O pior é que é uma rivalidade imposta do nada, e resolvida em menos que nada, com a storyline a discorrer em menos de meia dúzia de quests medíocres que servem de justificação para nos mostrar a ilha propriamente dita, e a receita para cozinhar os max mushrooms, os cogumelos que desbloqueiam as formas Gigantamax dos starters das Gerações 1 e 7.
Por outro lado, tangencialmente positivo, Isle of Armor, como wild area que é, pode ser um vislumbre potencial da abertura de mundo total que há tanto sonhamos para um jogo de Pokémon. A poucos minutos de chegarmos à ilha, conseguirmos ver a silhueta de um Wailord à escala real dá-nos a percepção do que um mundo aberto de Pokémon poderá vir a ser. Mas mais tarde, obviamente. A óbvia incapacidade técnica da Switch em conseguir contribuir com um draw distance decente para criar um verdadeiro impacto nesta abertura de mundo ainda está a faltar.

Pelo meio há ali umas adições de conteúdo, como o Cram-o-Matic que nos permite misturar itens, ou uma busy quest de procurar centenas de Digletts pelo mapa. E é isto: uma montanha-russa de desilusão, entre o meu entusiasmo de ver afinal que extensão Sword e Shield poderiam ter, que abertura da sua fauna um novo DLC e uma nova área poderiam trazer, e que afinal resultam apenas num lendário e a sua evolução.
Por outro lado tenho de agradecer à Pokémon Company pouparem o meu valioso tempo. Ao invés de ter de percorrer um jogo inteiro apenas para obter o novo lendário, posso perder menos de um par de horas (considerado que a minha party era quase toda nível 100 e que nem nem o scale up decretou qualquer desafio) para obter esse Pokémon novo para a minha colecção. Tirando isso? Nada de interessante. Mas a ligação que temos à série e a necessitar de “apanhá-los a todos” vai obrigar-nos a comprá-lo e a visitá-lo. Aconteceu comigo e aconteceu com milhões de outros jogadores.
Cá estaremos à espera do próximo Outuno, com The Crown Tundras, mas com menor expectativa em relação ao que estes DLCs nos podem dar.













