Caçada Semanal #229

Está um calor que não se pode, e sabemos que o vírus continua a espreitar em cada esquina, como um grupo de Testemunhas de Jeová a quererem passar-nos um número do Sentinela. Por isso a melhor forma para escapar (do calor, do vírus e das Testemunhas de Jeová) é mesmo ficar em casa.

Os 3 indies desta caçada são uma possibilidade de aventura sem terem de se aventurar nesse mundo assustador que é o “lá fora”.

Warborn [PC, PS4, Switch, Xbox One, Mac]

Dissessem-me há uns anos que eu iria poder jogar um Advance Wars repleto de mechas e eu ficaria a salivar da boca automaticamente, a imaginar todas as minhas séries favoritas com robots gigantes a transformarem-se em estratégia por turnos.

Warborn, recém-lançado para todas as plataformas actuais, é essa materialização, mas sem a consistência de outros jogos indie do género que conseguiram equiparar-se sem qualquer dúvida da mestria das produções da Intelligent Systems.

Com tipos e classes de mechas diferentes para gerirmos ao longo da sua campanha algo longa e bastante desafiante, percebemos quase de imediato que há muito pouca inovação em todo o jogo. 

Warborn está quase a desenhar com números como fazer um turn based tactics game, implementando a fórmula do género sem sequer fazer qualquer alteração. Sejam os bónus e debuffs dos diferentes tipos de terreno nos hexágonos, ou mesmo a forma expectável como cada nível se processa, há muito pouca imaginação neste jogo.

Não sendo de todo um mau título do género, é apenas desinspirado mecânica e visualmente. Os seus cenários são tão esquecíveis que nem o grande selling point de termos estratégia com mechas lhe permite cumprir o seu grande potencial.

Alchemist Adventure [PC]

Falando em potencial, e mergulhando num indie brasileiro em Early Access, Alchemist Adventure é um jogo de aventura (caso o título não vos fizesse adivinhar) sobre alquimia. 

Na porção de jogo disponível neste momento alpha parece-me que ainda falta implementar muita da densidade mecânica e visual que o estúdio deixa antever nos seus trailers e nos seus proof of concepts, e apesar do óbvio longo caminho de desenvolvimento que tem pela frente, assume-se hoje como um título altamente promissor.

Existe uma interacção alquímica com o ambiente, no qual podemos utilizar as nossas poções para criar combinações específicas. As imagens que os developers disponibilizaram demonstram um livro de receitas e poções que nos vão permitir criar fórmulas cada vez mais complexas. As nossas formulações vão, mais à frente, criar bombas e óleos para imbuir a nossa espada com habilidades elementares.

É esta mestria dos elementos que nos vai permitir resolver alguns dos puzzles, conduzindo-nos a alterar o cenário.

Alchemist Adventure adivinha-se com potencialidade para ser um bom jogo de aventura onde o combate é apenas um dos seus argumentos.

Elden Path of the Forgotten [PC, PS4, Switch, Xbox One]

Há sempre que respeitar um jogo que é produto de um one man show como este Elden Path of the Forgotten. Ainda ontem falávamos de Lovecraft na caçada que publicámos, e tarde percebemos que este jogo australiano poderia, e deveria lá figurar.

Em Elden Path of the Forgotten somos atirados aos lobos, quase sem contexto, como na maioria dos jogos “do tipo” Dark Souls. Mas este, como já devem ter percebido, retira a inspiração das suas criaturas a partir das obras de Lovecraft.

Elden Path of the Forgotten é dicotómico: por um lado tem uma excelente utilização de pixel art com abordagem única na construção das suas figuras, mas por outro é pouco original na construção dos seus ambientes.

O mercado tem recebido muitos jogos retro onde o combate duro de roer é de uma fluidez e um ritmo tão orgânico que nos agarra desde o início. Jogos com abordagens semelhantes como Titan Souls, Dead Cells e Hyperlight Drifter, entre tantas maravilhas do género, mas que estão, infelizmente, a anos-luz deste Elden Path of the Forgotten

O combate neste ainda tem fragilidades técnicas, é muito rígido e não aproveita o exemplo que os jogos referidos já apresentaram para se influenciar. Não sei se por dificuldade técnica do seu autor, ou se por esta ser a sua visão do jogo, mas Elden Path of the Forgotten ganharia tanto em ser mais dinâmico do que é.

Parece-me que se perdeu aqui uma excelente oportunidade de colocar este título no patamar de qualidade dos outros jogos referidos. Assim, e seguindo seu próprio título, está a seguir o trilho dos esquecidos para se juntar a eles.