Existiam três coisas que não me podiam tirar na viragem do milénio.

Ver bonecos ao sábado de manhã…

…o meu GameBoy Color…

…e cartas. Montes de cartas colecionáveis de tudo e mais alguma coisa.

No caso de Yu-Gi-Oh!, a penetração no mercado infanto-juvenil fez-se por estes três media sem grande resistência, no encalce do sucesso de Pokémon: primeiro criou-se um dos mais notáveis videojogos de sempre, em seguida agarrou-se a pequenada ao televisor todas as semanas e como golpe de misericórdia esvaziaram-se as carteiras aos pais com milhares de cartas colecionáveis, tal como os monstrinhos. Yu-Gi-Oh! começou pelo anime, seguiu-se o lógico Trading Card Game (caramba, o manga e anime eram sobre cartas e nem começaram por aí) e seguiram-se as naturais adaptações para videojogo.

Costuma ser mau sinal quando este aparece do lado adversário

Parece-me seguro dizer que a popularidade deste último media não atingiu os picos do anime e das cartas. Diverti-me bastante com The Eternal Duelist Soul no GameBoy Advance, fartei-me depressa do Duelist of the Roses na PS2. E de finais de 2004 até há umas semanas atrás Yu-Gi-Oh! estava arrumado num recanto nostálgico do meu coração (das cartas).

Até que tropecei no anime original em Portugal no Netflix. “Olha, isto“, pensei eu. Mas passados 5 minutos não consegui mais, não era aquilo que me ia matar saudades. Também não estava interessado em entrar no Trading Card Game. Não não – o que sentia era que precisava de um jogo. E como o nosso editor-in-chief Ricardo Correia ainda hoje é fã do TCG, nada como perguntar. Assim descobri Yu-Gi-Oh! Legacy of the Duelist: Link Evolution, a última de muitas adaptações da franquia a videojogo.

E chiça, parece tabaco.

Mete mais tabaco nisso!

Não fumo, mas naturalmente queria frisar o quão viciante este jogo é. Tudo começa na carteira – se quisermos entrar no mundo físico dos Trading Card Games temos de estar preparados para investir umas centenas a milhares de euros, ou entrando num videojogo do género em free to play, somos bombardeados com micro-transações ou grinds dolorosos.

Legacy of The Duelist resolveu-me todos estes problemas. Entre 30 a 40 euros (não farei mais publicidade, a Internet é vossa amiga) chegam para termos acesso a mais de 10 mil cartas (não de imediato, é preciso, bom, jogar), todo o conteúdo adicional (na Nintendo Switch) e uma viagem expresso por todos os arcos do anime até à data. Um robô todo moderno narra-nos a história com o seu livro. Ri-me.

Se virem isto, já foram.

Claro que não basta jogar os duelos da história e puff, 10 mil cartas. É aqui que entra o grind. Podemos comprar (mas só com dinheiro do jogo, para quem ainda se lembra desse conceito) deck packs em Sealed ou Draft Play (formatos de torneio da franquia) ou as clássicas carteiras de oito cartas, dentro de um tema centrado nas cartas mais usadas por cada personagem do anime.

Como não há nenhum mecanismo de trocas de cartas online, podia-se ter caído no erro de deixar tudo nas mãos da aleatoriedade de um grind interminável. Mas não. Como o jogo não deixa termos mais do que três cópias de cada carta, eventualmente comprar carteiras leva-nos a completar a nossa coleção, pois nunca nos vão calhar cartas para lá do limite que podemos ter. Foi das poucas experiências genuinamente agradáveis de grind que tive num videojogo.

Foi, atrevo-me, agrindável. Ha!

Interface do costume, com tudo a que temos direito

Na jogabilidade os duelos seguem o formato clássico – nada das reduções do anime ou de algumas adaptações mobile – e as fases desenrolam-se rapidamente. No meu caso que já não tenho pachorra para as dramatizações de esperar pelas cartas do anime, não tardo em soltar os Dark Magician e Blue-Eyes White Dragons da vida. Só por vezes aquelas cartas de armadilha que só queremos ativar num momento específico, mas como já as lançámos o jogo pergunta-nos incessantemente se as vamos ativar – “Queres ativar uma carta?” “Mas não queres ativar uma carta?” “Olha lá, se calhar queres ativar uma carta...” – tornam momentos da experiência enervante.

Eu invoco o Dark Magician!

Outro interessante aspeto da campanha é a possiblidade de, uma vez derrotado o adversário do anime, é-nos lançado o desafio de, na pele do vencido, tentar derrotar o histórico vencedor. O que se pode tornar especialmente difícil ao usar o baralho que foi escrito para perder contra o baralho que tentamos derrotar. Baralhos esses que, por serem baseados no anime, podem ter cartas muito poderosas mas que estão longe do metagame por serem demasiado circunstanciais – muitas vezes para vencer uma carta específica.

Podemos sempre escolher um baralho criado por nós para qualquer duelo da campanha e é possível criar algo competitivo com um bom apanhado das carteiras do primeiro arco de anime. Mas senti que, pese ser menos bem sucedido, utilizar os baralhos do anime permitiu-me conhecer cartas novas, especialmente nos arcos da série que não conheci. Ainda não me sinto familiarizado com Synchro, XYZ, Pendulum ou Link Summons, mas Legacy of the Duelist usa os vários arcos da série para nos introduzir com calma a cada um.

Umas animações catitas nos monstros mais conhecidos

Se for acontecer como a mim e estiverem preguiçosos para jogar com comandos, mesmo em modo portátil na Switch, Legacy of the Duelist é um dos muito poucos jogos na plataforma a utilizar o touch screen para qualquer ação do jogo. Tenho saudades das vezes que o queixo me caía com algumas das opções interactivas da Nintendo DS em vários jogos, que entretanto se tem perdido.

Quando se sentirem confortáveis com as 10 mil cartas de Yu-Gi-Oh! Legacy of the Duelist: Link Evolution, têm todo o mundo dos rankings online para escalar com o vosso baralho. Que poderão construir com uma ferramenta infelizmente confusa, em que demasiado acontece e pouca acessibilidade de filtros dá para rapidamente montarmos a nossa estratégia. Podemos ver todas as cartas mecanicamente relacionadas com qualquer outra, o que nos ajuda a afunilar a estratégia, mas aqui haveria muito trabalho a fazer – a tentação é grande em ir apenas ver uma lista de baralhos competitivos na Internet.

Yu-Gi-Oh! Legacy of the Duelist: Link Evolution é um jogo que não complica onde não precisa e não se faz passar pelo que não é. É pegar no baralho, vencer o adversário e passar para o próximo. Não é preciso ser fã hardcore para gostar mas jogos de cartas não são para toda a gente. E está tudo bem, porque o vício é real.