Caçada semanal #234

Os videojogos são um meio privilegiado para contar histórias. Diria até que nos dias de hoje poderão ser uma das principais e mais inovadoras formas de as contar.

Os 3 indies desta semana representam isso mesmo.

Milky Way Prince – The Vampire Star [PC]

Milky Way Prince – The Vampire Star é a forma catártica de Lorenzo Redaelli, o seu criador, expiar o sofrimento de um relacionamento abusivo. Uma visual novel ocidental, a mostrar o interesse crescente que o mercado indie tem tido nessa forma de storytelling originária do Japão.

Apesar de esta ser uma história curta, o aviso prévio da maturidade dos assuntos retratados não é por acaso. As formas metafóricas como o protagonista e o seu apaixonado, o príncipe que vem das estrelas, retratam os desafios sociais da homossexualidade, passado pelo abuso físico e mental disfarçado de práticas sado-masoquistas, são o suficiente para percebermos o peso narrativo deste jogo.

O branching narrativo que o jogo permite é materializado em respostas emocionais que vão levar a novos seguimentos de história. Tudo isto incorporados por uma excelente direcção artística, com uma paleta reduzida mas que lhe dão uma identidade única, e uma magnífica composição musical que acompanha todo o jogo.

Milky Way Prince – The Vampire Star é uma excelente visual novel, que nos mergulha numa história que não deve ser tomada de ânimo leve. 

What Happened [PC]

Continuando em momentos de expiação emocional na criação de videojogos, temos What Happened, um jogo de aventura e horror que aborda, à sua maneira muitas vezes surrealista, os dramas da saúde mental e do bullying.

Desde os primeiros instantes que What Happened nos corta a respiração com a forma como representa a depressão e a ansiedade do protagonista. Sentados numa sanita de uma casa-de-banho pública da nossa escola, vemos os graffities das paredes a ressoarem todos os abusos que os nossos colegas nos proferem, e que nos levam cada vez mais a isolarmo-nos do mundo.

Há um espelho de representação visual na forma como os problemas mentais são utilizados para construir o ambiente à sua volta. São as excelentes metáforas visuais para as (des)construções mentais que nos vão permitindo sofrer, também nós, especialmente se estivermos bem isolados com o som ambiente de um headset, à pressão do bullying e do sofrimento do protagonista.

Num título também ele algo curto, What Happened consegue pôr-nos a sofrer a dor do outro, uma habilidade tão difícil de encontrar nos dias de hoje.

https://www.youtube.com/watch?v=5zG0Dw8tYH8

Necrobarista [iOS, Switch, PS4, PC]

E numa caçada repleta de bons indies a contarem excelentes histórias, apesar de duras, encontramos o magnífico Necrobarista, mais uma visual novel ocidental que ousa mudar por completo a perspectiva que temos sobre o género.

São cerca de cinco horas reais de história passada no café The Terminal, virtualmente existente em Melbourne, e onde cada cliente habita durante 24 horas para se ajustar ao facto de estar morto, antes de prosseguir caminho post mortem.

Nesta visual novel que considero ser perfeita até para quem não gosta de visual novels, não existem ramificações ou bifurcações narrativas: e a linha de romance visual é levada ao extremo na medida em que vemos a história a decorrer com um mínimo de interactividade.

Mas este facto não impede Necrobarista de ser uma das mais originais visual novels que conheço, precisamente por quebrar com o estaticismo habitual do género. Renegando as ilustrações que servem de interacção entre os personagens, Necrobarista desenvolveu todo o seu storytelling com recurso à modelação tridimensional do espaço, com a realização a assemelhar-se a uma excelente série animada, com mudanças de planos, travelings, entre outros recursos estilísticos cinematográficos.

Com uma escrita de elevada qualidade, Necrobarista é um excelente exemplo de como as visual novels (e os videojogos em geral) podem usar para contar histórias diferentes, originais e únicas.