O facto de jogos de terror não serem usualmente a minha praia, não impede que avalie a sua qualidade de forma isenta. E Maid of Sker é um excelente exemplo de bons indie survival horrors na primeira pessoa, muito graças ao setting escolhido e à forma como foi executado. O final do Séc. XIX (diria) que quase nunca teve um aspecto tão assustador como este.

Começamos esta história de terror e mistério com uma missiva da nossa namorada, Elizabeth, que viria actuar à abertura de um Hotel no País de Gales chamado Sker. Mas quando lá chegamos o aspecto do Hotel não deixa adivinhar sequer o luxo apregoado nas publicidades. 

Um local desolado, onde não encontramos vivalma, não fossem os letreiros e não perceberíamos que ali deveria estar a decorrer a reabertura de um luxuoso hotel britânico. Os jardins ao abandono, os móveis empoeirados e destruídos, os lustres e candelabros partidos pelo soalho, também ele cheio de marcas do tempo e da destruição.

Ao chegarmos, o único contacto que temos é com Elizabeth, barricada num dos quartos dos andares superiores e que nos consegue contactar através dos rudimentares telefones internos do hotel. O aviso é simples: temos que nos manter escondidos e resguardados dos donos e funcionários do hotel, que deambulam pelos corredores acossados de algo terrível. Um encontro com eles certamente se provaria fatal.

É neste ambiente de furtividade constante que a claustrofobia de Maid of Sker se torna ainda mais pungente. As criaturas humanóides (ou serão elas humanos possuídos?) só nos conseguem detectar pelo som, o que nos obriga a estar constantemente a tactear cada passo que damos. 

A possibilidade de sustermos a nossa respiração é um elemento interessante num jogo destes, e que responde a uma dúvida que tantas vezes temos em jogos e filmes de terror: mas será que as criaturas não conseguem ouvir a respiração ofegante de alguém cujos batimentos cardíacos acelerados estão a necessitar de influxo maior de oxigénio?

Cedo percebemos que as raízes do horror que nos pressiona a todo o instante tem origem não só no romance com três volumes com o mesmo nome, da autoria de R. D. Blackmore e publicado em 1872, como incorpora muitos elementos do folclore britânico, especialmente galês. E tem como fundo, com muitas liberdades criativas, a Sker House, real, em Cornelly, onde uma lenda antiga diz que dois fantasmas habitam a mansão, oriundos de um naufrágio: Elizabeth Williams (uma mulher com o mesmo nome da que existe nesta história) e o seu pai, o capitão da embarcação.

Há muito do ambiente claustrofóbico do primeiro Resident Evil. O facto de estarmos praticamente circunscritos aos 3 andares (e cave) do Sker Hotel, descobrindo instrumentos de tortura e horror em muitas das suas divisões, tornam o ambiente assustadoramente mais palpável.

Os puzzles que temos de resolver para ir avançando na história não são excessivamente encriptados, e têm um ritmo que nos permite estar constantemente a ter cuidado com as nossas movimentações. Visto que o som é o elemento mais importante, não só para escondermos a nossa presença mas também para detectarmos os passos dos monstros que assombram os corredores do hotel. E é neste equilíbrio de andar constantemente escondido (em Maid of Sker não existe combate) e de ir deduzindo as soluções dos puzzles que o jogo se movimenta.

Apesar de ser um jogo indie criado pelo estúdio Wales Interactive (com comparticipação de fundos europeus), o detalhe e a qualidade visual de Maid of Sker certamente rivaliza com alguns AAA do género. Maid of Sker é uma excelente adição ao mundo dos jogos de terror na primeira pessoa, trazendo um enredo interessante, inspirado em referências obscuras da literatura e do folclore galês. É também nesta fuga dos clichés de referências que tantos outros utilizam que Maid of Sker demarca a sua originalidade.