Caçada semanal #236

Esta semana dedicámos uma caçada inteira a jogos indie que mostravam o meio excelente para storytelling que os videojogos são. Esta caçada traz dois exemplos de outros 2 indies cujo foco é a narrativa, mas que infelizmente não conseguem cumprir com todo o seu potencial.

Metamorphosis [PC, Switch, PS4, Xbox One]

Se não tivessem ainda inferido pelo título, Metamorphosis é um videojogo inspirado pela magnum opus de Franz Kafka, na qual vivemos na pele (e também no exoesqueleto insectóide) de Gregor Samsa, num dos títulos mais surrealistas deste ano.

Mas se na obra homónima de Kafka nos transformamos numa barata gigante, neste indie recém-lançado a perspectiva muda diametralmente: e exploramos o mundo pela visão à escala de um insecto.

Não que o livro seja de leitura casual, mas a forma como o enredo foi transposto para videojogo tem demasiados elementos que não encaixam, e que prejudicam, e muito, o ritmo narrativo.

O jogo só não é mais punido pelas suas fraquezas rítmicas narrativas pela excelente construção visual de todo o mundo, em especial dos subterrâneos e das partes do mundo “escondidas” do olhar humano. Mesmo as sequências de platforming na primeira pessoa acabam por ganhar pela exploração e deambulação deste mundo.

Os puzzles, na sua maioria simplistas, não contribuem para tornar Metamorphosis memorável. Essa responsabilidade cai quase exclusivamente sobre os ombros da direcção artística de Metamorphosis. Um jogo predominantemente narrativo que quis arriscar em adaptar uma das obras mais emblemáticas do século passado, e que só por isso já merece o nosso respeito.

 

Jessika [PC]

O início da minha adolescência foi passada com o acrónimo FMV a querer significar duas coisas, ou uma só, dependendo do ponto de vista. Por um lado os vídeos de interlúdio, epílogo ou prólogo de um jogo, que nos deixavam embasbacados, e que eram selling points para um título que pouco ou nada tinha a ver com esse patamar de qualidade visual. Por outro um género por si só, dos quais os famosos Phantasmagoria e The 7th Guest e o infame X-Files são um excelente exemplo.

O sucesso e a magistralidade de storytelling de Her Story veio abrir caminho para uma nouvelle vague do género, onde Late Shift, Telling Lies e Super Seducer vieram a existir. Jessika, lançado há 3 dias para PC, é a mais recente aposta neste campo: um título desta nova geração de FMVs que vem seguir a linha directa de Her Story, da temática à abordagem.

Em Jessika vamos investigar a presença online da titular personagem para desvendar se a sua morte é definitivamente um suicídio ou se tem contornos de homicídio. As circunstâncias misteriosas da sua morte levam a que sejamos contratados pelo seu pai para desvendar a verdade, utilizando única a exclusivamente o seu portátil.

Sem incorrer em spoilers, e sabendo que basta saberem de certas palavras específicas para conseguirem ir directamente para o fim do jogo, apesar da premissa interessante, o que senti de Jessika é que jogos como A Normal Lost Phone, conseguiram, com recursos estilísticos mais limitados, resolver bem esta ideia de resolver um mistério a posteriori com recurso apenas a um dispositivo. 

O problema de Jessika é o facto de que os seus autores acabaram por sobrecarregar os mesmos recursos mecânicos, levando-nos a uma exaustão e a perdermos, progressivamente, o interesse no que se passou realmente com a protagonista.