A resposta imediata de todas as pessoas a quem descrevi There is No Game: Wrong Dimension foi: “isso é um jogo feito pelo Isaque Sanches?”. Infelizmente, não. There is No Game: Wrong Dimension é baseado num pequeno jogo já com 10 anos feito numa jam em 2015 pelos membros do estúdio francês Draw Me a Pixel. E por muito que perceba essa correlação com a forma de criar do nosso Isaque, basta vermos os primeiros minutos para sentir que o humor transversal a todo este jogo-não-jogo não faz parte da sua forma habitual de se expressar.

There is No Game: Wrong Dimension é genial. É um jogo que passa todo o tempo a tentar convencer-nos que não é um jogo. É o equivalente em videojogo de um certo jovem político fascista português que passa o tempo todo a tentar fazer-nos acreditar que não é fascista.

Esta recorrência do jogo e do seu narrador em quererem que desligamos o jogo que afinal não é um jogo, mas que pede encarecidamente para não pedirmos um refund é apenas a ponta de um icebergue de genialidade humorística que nunca vi materializado em mecânicas.

Em muitos aspectos, este There is No Game: Wrong Dimension é um jogo point ‘n click, no qual vamos resolvendo puzzles meta que diria que são tão meta que só os jogadores os vão compreender. Tornando-o num daqueles jogos em, que basta explicar alguns dos puzzles e já estamos a estragar a experiência. Mas como já o fiz durante o episódio do Split-Chicken no qual There is No Game: Wrong Dimension foi mencionado, vou repeti-lo aqui.

Um dos primeiros puzzles deste jogo (aliás, não jogo) tem o título no ecrã, com o qual podemos interagir, com o narrador a pedir-nos para não estragarmos nada e para desligarmos já a aplicação. Se começarmos a clicar nas letras eventualmente vamos fazer com que elas caiam do ecrã, obrigando o narrador a colocar um novo título. Este já é mais complexo, e vai obrigar-nos a explorar os ícones dos outros ecrãs de jogo (como os settings) para encontrar um cursor que possamos usar para desaparafusar o título. 

É neste tipo de pensamento meta que There is No Game: Wrong Dimension nos vai desafiar. Entre verdadeiros quebra-cabeças num sistema operativo ficcional, até porções que são verdadeiras homenagens ao que de melhor a LucasArts fez. Tudo isto num jogo que não é um jogo, perceberam?

Mas é um não-jogo tão imbuído de tudo aquilo que é o nosso conhecimento de videojgoos, de tantas referências históricas que nos apontam no caminho certo, que é impossível não considerar este o melhor não-jogo do ano. Da década talvez? 

There is No Game: Wrong Dimension é uma experiência que vos vai rasgar um sorriso na cara sempre que desdobram os puzzles que os seus criadores desenvolveram. Ao reconhecerem a referência ou a exploração de uma ideia meta como nunca a viram ser aplicada. Mas é sobretudo um jogo (novamente, um não-jogo) como nunca jogámos. Com diversas camadas de genialidade que não estão acessíveis a todos.