O estúdio que desenvolveu Surgeon Simulator e que tomou o mercado de videojogos de assalto com um dos jogos mais bizarros a serem lançados não é o mesmo que desenvolveu esta sequela. Antes que me preencham a caixa de comentários a apontar a falta de factos daquilo que acabei de escrever. Eu sei que os Bossa Studios mantêm a sua acção criativa nesta série. O que quero dizer é em sentido figurado. Notoriamente o orçamento para desenvolver o primeiro e o segundo jogo não é de todo o mesmo. E o salto de complexidade entre um jogo e outro percebe-se ao primeiro segundo.

Agora que estamos a revisitar a insanidade de Surgeon Simulator, uns bons anos depois do jogo original, ainda se lembram do impacto que o jogo vos causou? Aqui da minha parte foi um misto de incredulidade pelo quão bizarro o jogo era, sendo que mergulhei nele, de luvas de látex nas mãos, à espera que fosse algo parecido com o meu jogo médico favorito de sempre: Trauma Center.

Mas não. Nada. Onde Trauma Center é over-the-top com doenças místicas e o diabo-a-sete, Surgeon Simulator era o equivalente em videojogos de ir para a sala de operações com uma valente piela em cima. Coisa, que, acredito que já aconteceu algures no mundo, algures nas últimas décadas. É estatisticamente improvável que assim não fosse. E bastou-me uma pesquisa no Google para perceber que já aconteceu demasiadas vezes, apenas nos últimos anos. Portanto, ao contrário do que julgam, Surgeon Simulator é um videojogo documental. Mais ou menos.

Surgeon Simulator 2 quer pegar nessa bebedeira singular de um cirurgião negligente e transformá-lo numa despedida de solteiro na sala de operações. Apesar de podermos passar todas as missões deste jogo completamente a solo, todos objectivos gritam para que tenhamos mais amigos a juntarem-se à nossa loucura.

Comecemos pelo ponto de vista, em que ao contrário do primeiro, deixámos de estar de joelhos em cima do nosso paciente. Não sei quanto a vocês, mas eu sempre que estava a jogar ao primeiro Surgeon Simulator, e dado o ponto-de-vista, fiquei sempre com a impressão que o estávamos com os joelhos em cima das pernas estendidas do incauto deitado na mesa de operações.

Em Surgeon Simulator 2 (não vou abreviar para SS2 porque não são tempos dignos de lembrar a Schutzstaffel) podemos andar livremente pela sala, a interagir com os vários objectos que lá existem, sempre com o mesmo padrão de movimentos dignos de um macaco anestesiado e dopado ao mesmo tempo com cafeína. 

Esta progressão por diversas salas vai obrigar-nos a resolver alguns puzzles, levando o foco do jogo para mais longe do que apenas a sala de operações. À medida que o jogo avança, este sistema de puzzles vai passar também por termos de andar à procura dos utensílios necessários a cada operação. 

As operações continuam com o mesmo caos e insanidade típicas: pedindo-nos para efectuarmos transplantes e desmembramentos sem deixar que o paciente morra ou que ele perca demasiado sangue. Tudo isto com a suavidade a manusear os instrumentos cirúrgicos (e não só) de quem está a trabalhar em bricolage. Coisa que acontece. Um dia conto-vos a história – infelizmente real, e quase fatal – do meu tio que estava de férias connosco e que teve uma pinça previamente esquecida numa cirurgia a perfurar-lhe o intestino grosso. Um cenário anedótico, que foi bem real, e que o deixou às portas da morte. História essa que sempre que me lembro, faz-me pensar que Surgeon Simulator 2 pode não ser assim tão irrealista quanto isso.

Com um level editor e um apelo grande para a partilha em multi-jogador, Surgeon Simulator 2 continua a não ser um jogo para todos, mas que responde na perfeição a todos os fãs de jogos bizarros baseados em física. Não fosse o jogo original um dos “pais” deste subgénero. Quem não gostou da insanidade do primeiro, dificilmente vai encontrar argumentos nesta sequela para lhe dedicar algum tempo. Mas diria que até para aqueles que não conhecem, basta o título para terem mais ou menos ideia do que os espera. E no caso desta sequela é loucura. A multiplicar.