Enquanto jogava a primeira hora de WRC 9, ia tendo pequenos flashes de memória de estar sentado na sala da casa onde cresci, há mais de 20 anos, a jogar Sega Rally e Collin McRae Rally. Para muitos isto pode ser uma heresia, até porque o grande rival de WRC é precisamente DiRT, o renomeado jogo que tinha Collin Mcrae como uma espécie de patrono. Mas a reflexão a que cheguei é ligeiramente diferente. É a de pensar que até termos chegado à idade adulta o mercado dos videojogos e a nossa relação com ele mudou muito. Primeiro, em termos de informação que está ao alcance de um clique. Apesar de na altura comprar ocasionalmente algumas revistas e de ser um espectador assíduo do Templo dos Jogos, o conhecimento do mercado como um todo era reduzido. A segunda porque a disponibilidade financeira limitada levava a que jogasse na maioria jogos que amigos compravam, o que iria depender grandemente dos seus gostos pessoais. E eu, que nunca fui apreciador de qualquer desporto automobilístico, acabei por dedicar muitas semanas da minha adolescência a jogos de corridas, fossem eles de rallies, ou outra abordagem qualquer. E ganhei-lhe o gosto. Aqueles jogos ocupavam os meus tempos livres, e ainda que eu, se pudesse escolher entre eles ou outros de outro género, fá-lo-ia, senti na altura que foram eles os responsáveis por me aproximar de uma realidade que me era completamente alienígena.

Se não fossem esses tempos, a minha subjectividade para com WRC 9 seria quase nula. E antes que digam que uma análise deve ser predominantemente objectiva – e que até concordo – devo lembrar que os videojogos ocupam um espaço importante na cultura e no entretenimento e que são indissociáveis da emoção que sentimos com eles. E nesse aspecto é impressionante o quanto WRC 9 nos consegue passar uma sensação estrondosa de realismo na sua condução, no feedback que sentimos do jogo, do terreno e do carro. 

Nas minhas primeiras provas o meu olhar não conseguia desviar-se da qualidade visual de todos os componentes do jogo: do terreno, à vegetação, declives, passando pelas partículas agitadas pela passagem dos pneus do nosso carro, e até pelo próprio carro. WRC 9 representa o realismo visual que a minha mente em 1996 imaginava estar a ver com os jogos de então. O que aqui atingimos é uma janela de qualidade que finalmente coloca-o junto da fasquia do seu grande competidor: DiRT Rally.

O modo carreira evoluiu bastante, ainda que continue a ser muito difícil de ultrapassar. WRC 9, ao contrário dos jogos de rally arcade com que crescemos, não é para ser levado de forma casual. Apesar de ter uma porta de entrada baixa, com uma compreensão acessível das suas mecânicas base, o desenvolvimento do nosso percurso em direcção aos escalões mais altos do 2020 World Rally Championship é árduo.

Aprendendo com os modos carreira de outros jogos que reproduzem desportos automobilísticos reais como o F1 2020, o estúdio KT Racing implementou um sistema de skill tree para a nossa equipa, levando-nos a ser piloto mas também gestores de toda a companhia. Seja a atrair e a negociar publicidade, a contratar novos técnicos, tal e qual como F1 2020 nos ensinou a fazer, e bem.

WRC 9 é um simulador muito desafiante, e o facto de ser uma adaptação oficial traz consigo as equipas e as marcas que os fã da modalidade conhecem. Somem a isto a um aprimoramento da resposta Física do terreno e do carro, para além de pequenos desafios dentro do grande desafio que é cada pista.

Este WRC 9 é incontestavelmente um jogo que tanto tem de uma tremenda visual, como tem de dificuldade em masterizar. E eu, não dominando o género nem a modalidade, acredito que é precisamente a combinação destes factores com a sensação única de condução que foi impressa a cada carro, que será o grande ponto de conquista dos fãs de rally. WRC 9 segue a tendência do seu antecessor e ainda não está no patamar de DiRT Rally, mas aproxima-se de ano para ano. E quem ganha com isso são os adeptos da modalide, que podem ver nesta competição uma forma das duas séries se empurrarem mutuamente para serem cada vez melhores.