
O género de RPG de ação introduzido pela FromSoftware na série Souls tem sido uma fonte de inspiração para muitos estúdios, que procuram replicar a fórmula. Sejam ambientes medievais, fantasia ou de ficção científica, é muito raro chegar ao nível de qualidade dos jogos originais.
A mais recente proposta no género chama-se Mortal Shell e foi produzido pelo estúdio indie Cold Symmetry, fundado por um grupo de veteranos da indústria e composto por apenas 15 pessoas. E não só bebe inspiração na jogabilidade, como sobretudo no ambiente negro, claustrofóbico, e sem muitas indicações aparentes relativamente à história ou quem somos.

O que se destaca neste jogo é o facto de não escolhermos uma classe de personagem no início da aventura, ou sequer subirmos de nível através de experiência. O estúdio optou por contas simples e colocou-nos na pele de uma criatura esquelética, sem qualquer background ou nome, que surge de um plano etéreo num mundo conhecido como Fallgrim. A única coisa que sabemos é que temos de recuperar três glândulas sagradas dos diferentes pontos deste mundo para entregar a uma criatura gigante trancada numa torre.
Essa demanda promete muitos suores pela frente, pois como seria de esperar há muitas criaturas para enfrentar, como vampiros, fantasmas, cavaleiros misteriosos e outras criaturas bizarras. E claro, há bosses que obrigam a conhecer os padrões de ataque e aberturas para os golpear. Estes monstros podem não ser tão complexos como outros títulos, mas ainda assim oferecem um bom desafio durante os embates.
Mortal Shell é simultaneamente simples e complexo. O mapa não é grande, mas é estupidamente intrincado e labiríntico, e com muitos locais bem semelhantes. Isso leva-nos a andar perdidos e às voltas no mesmo sítio, num grande desafio para decorar os pontos de passagem. E ainda por cima, muitos dos cenários mudam o ambiente quando se avança na aventura, com os inimigos a darem lugar a outros. Acampamentos com humanos, passam a estar invadidos com perigosos vampiros. E também a névoa mais cerrada torna a orientação difícil.

E não existem bonfires para guardar as nossas preciosas souls, aqui conhecido como Nectar, mas sim as Sester Genessa, quatro ou cinco colocadas estrategicamente no mapa e que são o nosso ponto de alívio momentâneo. Mas é preciso encontrá-las. Mais tarde, poderão utilizá-las como pontos de fast travel.
O que distingue Mortal Shell de outras propostas são as próprias shells, ou melhor as carcaças de outros guerreiros que temos de procurar. Existem quatro ao todo, e estas sim ditam a classe da personagem. Uma vez que encontrem uma shell podem trocá-la na cripta e cada uma tem a sua árvore de habilidades únicas. Estas oferecem uma variação na jogabilidade no que diz respeito ao tamanho da barra de saúde e de stamina. O soldado é mais resistente, mas esgota a stamina em dois ou três golpes. Ao passo que assassino é bem mais ágil, com mais stamina, equilibrando a sua fragilidade.
Os jogadores devem assim encontrar as respetivas shells no mapa para as poderem depois escolher. Cada Shell tem uma história de fundo, sendo o Cavaleiro chamado Harros, enquanto que o rogue chama-se Tiel. Existem também alguns itens consumíveis, os Efficies que permitem trocar rapidamente entre as Shells.

O mesmo vai para as armas. Invés de uma grande quantidade de armas e armaduras disponíveis, existem três ou quatro armas em todo o jogo para encontrar, e tal como as shells necessitam de encontrar os pontos seguros para as trocarem, pois não andam com elas em simultâneo. Entre elas uma espada ou uma lança com maço e estas pertencem a bosses que devem enfrentar para as desbloquear.
Estas armas podem ser melhoradas através de itens específicos que estão espalhados pelo mapa e depois usar a mesa de trabalho nos pontos seguros para os melhorar. Existem itens que adicionam propriedades de fogo e ácido com dano durante segundos, mas também aumentam a sua capacidade em geral. Inimigos que necessitam de quatro ou cinco golpes para serem derrotados passam a requerer menos esforço para morrerem. E isso faz toda a diferença para progredir, enfrentar os inimigos mais poderosos e mini-bosses.
Mas o jogo é claramente uma carta de amor à série da FromSoftware, com um sistema de combate muito familiar. Há um ataque rápido e outro mais lento, mas forte, que podem ser combinados para gerar combos poderosos. Podem ainda rebolar e correr, combinados com os ataques.

Talvez a grande diferença deste jogo para Dark Souls é a sua mecânica de defesa. Ou seja, invés do formato habitual de parry livre, o jogo introduz dois sistemas distintos de defesa: o Resolve e o Harden.
Ao ativar o sistema Harden a personagem transforma-se numa estátua de pedra, protegendo-se de um golpe inimigo, regressando de seguida ao estado normal, com um contra-golpe se forem rápidos. O sistema tem um cooldown, representado por um símbolo no canto esquerdo inferior do ecrã que necessita de alguns segundos para ser carregado.
A grande mais valia deste sistema não é substituir o habitual parry, mas sim possibilitar ativar no meio da animação de um ataque. Quantas vezes não recebemos dano porque começamos um ataque e o inimigo a meio da animação consegue ser mais rápido e atingir-nos? Com os timings corretos, ativar o Hardened possibilita safar-nos de ataques fortes.

Além disso, quando sofrem um golpe final quando ficam sem energia, invés de morrerem, o vosso corpo é projetado da carcaça, que fica inerte, e caso a recuperem rapidamente podem voltar ao combate com toda a energia restabelecida. Portanto, há aqui um grande potencial tático para explorar em torno da mecânica. Mas apenas podem ser projetados uma vez.
Em relação ao Resolve, logo no início da aventura irão ter acesso a um item mágico chamado Tarnised Seal. Este sim permite fazer parry aos inimigos, dentro do timing de ataque correto. Mas para usarem esta habilidade necessitam de carregar uma barra durante o combate, dividida em diversas partes, que é o número de vezes que podem usar o parry, abrindo oportunidade para ripostar os ataques adversários. O interessante é que cada vez que conseguem ripostar os ataques, parte da barra de saúde da personagem é recuperada. Aqui não existe os habituais frascos de energia como em Souls, mas podem recolher a quantidade de cogumelos que conseguirem encontrar.
Interessante também que quantas mais vezes utilizarem um objeto, seja uma poção ou mesmo um instrumento musical, vão ganhar maior afinidade com os mesmos, tornando-se mais eficazes. Mesmo muitos dos itens comestíveis não sabemos quais os efeitos até ingerirem um pela primeira vez. Sim, pode ser venenoso, o que torna depois o corpo mais forte contra o envenenamento.
Mortal Shell é uma das melhores propostas para quem gosta do género Souls, considerando que é bem mais curto e mais limitado, pois o estúdio indie não teve os budgets de outras produções. Mas fica a indicação da sua qualidade, com combates divertidos e intensos, mas igualmente difícil e frustrante, sobretudo quando andam perdidos sem objetivos aparentes para o que devem fazer.













