
Para um amante de música existem álbuns obrigatórios, cuja ausência torna despida qualquer prateleira que se preze. E já nem falo de proximidade e afinidade de géneros, mas de consciência de peças obrigatórias de um meio, como o Kind of Blue do Miles Davis ou mesmo o Rumours dos Fleetwood Mac. Todos os meios culturais e artísticos têm maturidade para conseguirmos identificar e enaltecer esses momentos. Os videojogos não são excepção, só não existe ainda um consenso ao meio como um todo, que virá, obrigatoriamente, num tempo próximo.
Quem está embrenhado nos videojogos consegue apontar uma série de exemplos flagrantes do quanto um título conseguiu fazer avançar o mercado e a indústria, criativa e economicamente. A série Super Mario é obviamente o exemplo mais marcante, e apesar de quase toda a gente referir o impacto dos jogos tridimensionais – que são indubitáveis, e serão o foco deste artigo – há outros pontos marcantes da série. Aliás, dizer que há outros pontos marcantes da série Super Mario é um tremendo eufemismo.
Desde 1985 quando Super Mario Bros. foi lançado (e atrevo-me a dizer que existe algo de valor superior em coisas e pessoas que nasceram nesse ano) que as aventuras de Mario servem como batuta pela qual o mercado se guia.

O meu jogo favorito de sempre – Super Mario Bros. 3 – tornou-se o padrão qualitativo e criativo pelo qual os videojogos se regeram durante anos. E não é por acaso. A diversidade criativa de mecânicas implementadas, ideias inovadoras e vasta em termos de level design. Ainda hoje, e sob o contexto da época, é impossível não olhar para este título como o jogo mais inovador que já saiu, até essa honrosa corou ser roubada por um jogo da mesma série.
Super Mario 64 permitiu um mindshift a game designers em todo o mundo e mostrou aos jogadores o que era verdadeiramente possível fazer num jogo tridimensional. Vivíamos em pleno a chegada das consolas de 32 bits (e 64) e das suas capacidades de renderização tridimensional, e muitos estúdios, com anos de desenvolvimento de jogos bidimensionais, começavam a tentar perceber o que fazer com a abertura real da tecnologia.
No meu caso, e de muitos milhares de portugueses, foi a surpresa de ver no Templo dos Jogos avisarem solenemente que aquilo que estávamos a ver não era um FMV. Um prenúncio irónico, duas décadas antes, do mercado ser tomado de assalto por trailers cinemáticos tão obtusamente distantes dos downgrades posteriores dos próprios jogos, que obrigam a uma abordagem mais “honesta” das empresas de videojogos na forma como comunicam os seus títulos. Que o diga o Watch Dogs.
Super Mario 64 tinha aquele brilho futurista que os seus polígonos gigantescos espalhados por um mundo semi-aberto traziam. Mas era na jogabilidade, nas ideias implementadas, novamente na vastidão de mecânicas implementadas que a sua genialidade lhe valeu uma nota perfeita em praticamente todos os títulos. Super Mario 64 tem até hoje uma amplitude de conteúdo que jogos lançados 24 anos depois não conseguem sequer tocar tangencialmente.

Seguiu-se Super Mario Sunshine, aquele que acho ainda hoje o jogo mais subvalorizado de toda a História da série. Um olhar de soslaio para um jogo que é a representação de dois riscos da Nintendo: um, criativo, ao decidirem reinventar o que conhecíamos do Super Mario – com sucesso inventivo, à época, diria – e por ser o porta-estandarte de uma consola que foi um falhanço apesar de ser a última tomada de posição tecnológica da empresa.
Super Mario 3D All-Stars foi lançado há dias dentro da celebração dos 35 anos da série. Dois dos três títulos disponíveis são precisamente o Super Mario 64 e o Sunshine. Duas peças do puzzle que é a História dos videojogos e que por limitações tecnológicas não estavam disponíveis para que a maioria do público os conhecesse. Em especial Sunshine, que não tinha tido oportunidade de surgir fora da Gamecube.

Há pouco falava de contexto, e penso que é disso que um jogador que caia de paraquedas em qualquer um destes títulos precisa. O desenvolvimento de jogos tridimensionais evoluiu muito desde que qualquer um deles chegou ao mercado – e muito, diga-se, graças ao seu surgimento – e é fácil que sintamos hoje uma desatualização tremenda com os controlos.
Essa desactualização é mais notória em Sunshine, pela introdução das mecânicas da mangueira, e pela inércia – à altura uma das mais bem programadas – mas que hoje se torna um grande adversário às nossas sessões de jogo. Depois de algumas horas frustrantes com Sunshine, em que o desafio passou sobretudo por conseguir acertar com saltos e jactos de água ao mesmo tempo que combatia a programação de inércia de um jogo tridimensional com quase 20 anos, utilizando Joy-Cons com drift.
A sensação com que fiquei, apesar de os achar brilhantes, especialmente tendo em conta o contexto, é que se sou, regra geral, contra remakes, mas ao mesmo tempo sinto que todos os momentos de brilhantismo dos primeiros dois jogos 3D de Super Mario mereciam serem repensados e reprogramados para o mindset actual. Uma forma de enaltecer ainda mais dois títulos que fizeram avançar a História, mas que ficaram eles mesmos presos às limitações técnicas de então.

Se isto se passa com dois terços da colectânea Super Mario 3D All-Stars, já com Super Mario Galaxy a conversa muda de figura. Treze anos depois do seu lançamento original, Super Mario Galaxy continua a ser o pináculo criativo que empurrou o game design em jogos tridimensionais para a estratosfera, com controlos que são tão orgânicos que passavam facilmente por um jogo actual. O brilhantismo que o catapultou
Mas há uma sensação de incompletude a olhar para esta compilação verdadeiramente magistral, que condensa momentos históricos numa embalagem só. E essa sensação é obviamente a ausência de Super Mario Galaxy 2, que deixou toda a gente a cogitar sobre o porquê de ter ficado de fora. Alguns argumentam que a colectânea já possui 3 jogos brilhantes no seu anterior, mas explicações oficiais do porquê da ausência de Super Mario Galaxy não chegaram. Mas é fácil de antever que terminado o período de venda desta compilação, veremos chegar um pack Super Mario Galaxy 1 e 2 a chegar para a Switch.
Com um tempo limitado de disponibilidade à venda, tanto em formato físico como em digital, é impossível não recomendar Super Mario 3D All-Stars. Uma compilação que encerra em si uma pequena amostra de brilhantismo de lançamentos num período de cerca de 11 dos 35 anos da história da série mais influente do mercado dos videojogos.













