Caçada semanal #238

Na minha entrada na pré-adolescência vi surgir, durante as campanhas de brinquedos do Natal, a cegonha Leopoldina. A música que tantas vezes repetia nas publicidade falava de reis, princesas e anões. Com os 3 indies desta semana eu adiciono cavaleiros, astronautas e ninjas. Por que não?

Griefhelm [PC]

Não dá mesmo para descolar de Griefhelm as semelhanças óbvias com Nidhogg, pois não? Este novo indie, que merece pelo menos os parabéns por ser fruto de um one man show, apesar de alguns pontos positivos, fica muito aquém das promessas que os seus trailers sucessivos foram apresentando.

Este jogo focado em duelos medievais quis fazer um cocktail de coisas que funcionaram noutros jogos. Do sistema e abordagem de combate de Nidhogg, a elementos de roguelike (que nunca podem faltar nos dias de hoje) e a um sistema de progressão de equipamentos desbloqueados retirado dos Soulsbourne

O combate é simples: temos ataques altos, médios e baixos, e é na estratégia de os utilizar que vamos conseguindo derrotar os nossos adversários. Muito à semelhança de Nidhogg. Mas com tantas referências a esse emblemático indie, porque é que Griefhelm fica tão longe de o atingir qualitativamente? Porque está longe de tocar na simplicidade genial de Nidhogg, na forma como o seu combate, apesar de simples, tem uma tremenda profundidade.

Mas sobretudo – e talvez seja o revés de ser obra de um one man show – há demasiada mediania, tanto em termos visuais como em termos mecânicos.

Ostranauts [PC]

Dos mesmos criadores e no mesmo universo de NEO Scavenger chega Ostranauts, um space-life and spaceship management simulator

Ostranauts, como o seu antecessor, não são jogos para mergulhar de ânimo leve: a complexidade e profundidade do seu mundo são quase assoberbantes. 

Começamos o jogo numa sucata, a tentar erguer uma nave que nos permita zarpar em direcção ao espaço, num jogo de ficção científico sem grandes silver linings no horizonte. A vida na Terra deu para o torto, e esse ambiente pesado sem grande esperança percebe-se na carga emocional dos personagens.

O elenco, esse, é surpreendentemente tridimensional num jogo visualmente bidimensional. A complexidade de cada um, e a gestão minuciosa que temos de fazer das suas vidas transformam-nos em personagens complexos, repletos de problemas, que vêm adicionar ao desafio de os gerir, não só como tripulação, mas como pessoas.

Para além da gestão individual dos nossos colegas de tripulação, é a interacção e controlo da própria nave um verdadeiro quebra-cabeças, com tantos painéis e ecrãs para interagir que necessitamos de passar muito tempo em Ostranauts para nos movimentarmos com alguma eficácia por todos aqueles corredores e salas.

Ostranauts é um brilhante indie em Early Access que continua na perfeição a abordagem de NEO Scavenger, mas que merece uma longa dedicação para percebermos todos os pontos onde quer chegar.

Shing! [PC, PS4, Xbox One, Switch]

Num ano em que duas das mais emblemáticas séries de side scrolling beat’em ups tiveram sequelas (Streets of Rage e Battletoads) o estúdio Mass Creation quis aproveitar o aparente regresso do género para dar um “ar de sua graça”.

Tantas vezes criticamos alguns jogos por ficarem colados às fórmulas dos géneros, que dificilmente valorizamos devidamente aqueles que querem arriscar. Mas… se é para arriscar como este Shing! fez talvez seja melhor mantermo-nos na estrada já conhecida.

Sabem o button mashing clássico destes brawlers? Esqueçam-no. Shing! decidiu colocar todos os ataques a serem controlados a partir de um analógico. E é com ele que temos de encadear combos para derrotar os muitos inimigos que nos chegam ao ecrã. Acreditem: o que na teoria parece funcionar, na prática resulta numa valente dor de cabeça desnecessária.

Os quatro ninjas que temos à nossa disposição são também alvo de outras injustiças. O combate, não só pelos controlos, soa injusto, como alguns brawlers de arcada que queriam comer as nossas moedas de 20 e 50 escudos com uma fome insaciável.

Valha-nos a originalidade das boss fights que requerem uma ligeira resolução de puzzles para podermos encontrar algo de mais positivo neste jogo, que poderia ser tão melhor se olhasses para os clássicos e percebesse porque é que eles são intemporais.